Capítulo 1 A JOALHERIA

O Enigma em Olhos Verde-Jade

A reunião com os investidores internacionais se encerra antes do previsto. Assino as últimas vias dos contratos com a caneta-tinteiro de pena de ouro, fecho a pasta de couro e me levanto.

Todos os negócios na Espanha estão devidamente selados.

A sensação de dever cumprido e de controle absoluto sobre os meus empreendimentos é um sentimento do qual não abro mão. Eu domino cada detalhe da minha vida comercial, cada número, cada movimento de mercado. Gostava da frieza da lógica; ela nunca falhava.

Ao sair do edifício empresarial, o ar fresco de Madri toca o meu rosto.

Olho no relógio de pulso. Tenho tempo de sobra antes de retornar ao hotel para organizar as malas e seguir para o aeroporto. Lembro-me, então, da indicação que recebi no início da semana. Entre os grandes empresários da elite espanhola com quem estive reunido, o nome da joalheria Roma 9 foi citado mais de uma vez.

Uma casa artesanal e altamente exclusiva, pertencente a uma família tradicional cigana: os Della Cruz, sob a liderança do patriarca Juan Della Cruz.

Disseram-me que ali não se vendem peças comuns. Apenas encomendas únicas, feitas à mão, requisitadas pelos homens mais influentes do país. Contudo, não foi apenas a fama da altíssima joalheria que atiçou a minha curiosidade. A maioria daqueles homens, ao falar da Roma 9, deixava escapulir um brilho diferente no olhar ao mencionar a filha do proprietário. Disseram que a jovem possuía uma beleza de impacto, um tipo de graciosidade rara e singular que poucos homens na vida tinham o privilégio de contemplar. O comentário acendeu a minha curiosidade masculina. Unir o útil ao agradável parecia uma excelente ideia: veria a famosa beldade e, ao mesmo tempo, compraria um presente verdadeiramente original para a minha noiva, Lia, antes de voar de volta para casa.

A joalheria fica a pouca distância da sede corporativa onde eu estava, de modo que decido ir a pé. Desço a avenida movimentada e entro pelas calçadas de paralelepípedos do bairro histórico. Conforme me aproximo do endereço, o ruído da cidade moderna vai gradativamente se dissipando.

Quando me deparo com a fachada da Roma 9, paro por um instante para admirar. O imóvel é rústico, secular, carregado de uma energia antiga que parece destoar do restante da rua. A entrada foi esculpida em madeira escura com um trabalho artesanal impressionante, moldada rigorosamente no formato da estrutura de uma carroça cigana tradicional. É extremamente original, quase magnética.

Aproximo-me e empurro a pesada porta de madeira. Um sino de bronze suspenso na parte superior sopra um tilintar cristalino, anunciando a minha chegada.

Entro na loja. E o impacto é imediato.

A poucos metros de mim, de costas para a entrada, está uma mulher. Ela veste um tailleur vermelho de corte impecável, perfeitamente acinturado, que contrasta de maneira arrebatadora com a tradição mística do ambiente. Ela ouve a sineta, interrompe o que está fazendo e se vira devagar em minha direção.

Fico paralisado.

As descrições dos empresários não continham o menor exagero. Ela é, sem sombra de dúvida, uma das mulheres mais bonitas que já vi na vida. Seus olhos têm um tom verde-jade profundo e translúcido, emoldurados por longos cabelos negros como a noite, soltos, caindo em ondas volumosas que ultrapassam a linha da sua cintura. Presa do lado esquerdo de suas madeixas, reluz uma rosa vermelha natural. Ela usa joias finas de ouro — brincos, anéis e braceletes delicados —, exatamente como manda a tradição do seu povo, mas ostentadas com uma elegância natural e sem qualquer excesso.

Por um segundo, esqueço-me até de como respirar. Ela sustenta o meu olhar com uma serenidade impressionante.

— Em que posso ajudá-lo, senhor? — pergunta ela. A voz é aveludada, e o seu inglês é fluente, de uma pronúncia irretocável e refinada.

Recomponho a minha postura de homem de negócios, pigarreio levemente e dou um passo à frente.

— Boa tarde. Procuro um presente para a minha noiva. Estou na cidade a negócios, de passagem, e retorno hoje para o meu país. Recomendaram-me esta joalheria por sua exclusividade e por trabalharem apenas com peças artesanais.

Ela me dedica um sorriso cortês, porém contido, e aponta com um gesto elegante para uma poltrona de veludo escuro disposta diante de um balcão de madeira nobre.

— Seja muito bem-vindo à Roma 9. Por favor, acomode-se — pede ela, contornando o balcão. — Que tipo de peça o senhor tem em mente?

Acomodo-me na poltrona, apoiando os braços sobre o tecido macio.

— Quero algo verdadeiramente original. Uma peça única, que não possa ser encontrada em nenhum outro lugar do mundo.

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