Capítulo 2 O PEDIDO DE LEITURA

Carmen concorda com um leve movimento de cabeça. Ela se dirige a uma das vitrines aveludadas, retira uma chave dourada do bolso do tailleur, abre o compartimento e extrai um estojo de veludo negro. Ela caminha até o balcão e o abre diante de mim.

O que surge diante dos meus olhos é uma obra de arte. É uma pulseira ricamente trabalhada, repleta de berloques detalhados no formato de flores.

Cada flor carrega uma pedra preciosa de cor e brilho puríssimos: rubis de um vermelho ardente, esmeraldas de um verde vivo e pérolas delicadas com um brilho madrepérola impecável.

— Esta peça foi moldada à mão, tiquete por tiquete. As pedras foram selecionadas individualmente. Não existe e nem haverá outra igual — explica ela, com um orgulho velado na voz.

Examino a pulseira fascinado. O nível de detalhamento é extraordinário.

— É perfeita — admito, sem conseguir tirar os olhos da joia. — Magnífica. Diga-me, você teria um par de brincos para combinar com esta pulseira?

— Com certeza. Permita-me apanhar a peça correspondente.

Carmen se afasta até o armário ao fundo da loja e retorna com uma pequena bandeja de veludo contendo um par de brincos de rubi encravados em ouro trabalhado, cujas pedras espelhavam exatamente a mesma tonalidade dos rubis da pulseira.

Ela se aproxima e se inclina levemente sobre o balcão para me entregar os brincos. Eu estendo a minha mão para recebê-los.

No momento exato em que ela passa a joia para mim, os dedos dela tocam a pele da minha mão.

Um solavanco invisível atravessa o meu peito. Não é um toque comum.

Uma descarga elétrica avassaladora, uma onda de energia pura e física percorre a minha espinha, fazendo cada pelo do meu corpo se arrepiar instantaneamente.

O ar entre nós parece condensar, como se a pressão atmosférica dentro daquela loja tivesse despencado em um fração de segundo.

Carmen trava no lugar, ela não recolhe a mão.

Eu percebo a transição diante dos meus olhos. A expressão da jovem refinada e cortês desaparece. As suas pupilas se dilatam e o tom verde-jade dos seus olhos se torna denso, pesado, obscuro. Suas feições se enrijecem.

O seu olhar ganha um peso milenar, uma gravidade assustadora — é como se, através daquele rosto jovem, uma presença infinitamente mais velha, antiga e solene estivesse me encarando.

A atmosfera ao redor da mesa se torna densa, impregnada de um silêncio quase sagrado.

O espírito atua através de sua mediunidade, Carmen, tomada por essa força espiritual que a habita, fixa aquele olhar ancestral em mim e fala com uma voz que ressoa em um tom diferente, denso e pausado:

— O senhor permite que eu leia a sua mão?

Mesmo incomodado com a intensidade daquela energia estranha que ainda formiga na minha pele, a minha mente racional tenta se apegar à lógica. É uma encenação, penso comigo mesmo.

É o charme místico da loja, um artifício cigano para fascinar clientes estrangeiros.

Forço um sorriso cético e, acreditando se tratar de uma mera brincadeira supersticiosa, estendo a minha mão esquerda para ela.

— Pode ler.

Carmen segura a minha mão esquerda com as duas mãos.

O toque dela agora é frio como o marmo. Ela desliza as pontas dos seus dedos suavemente sobre as linhas da minha palma.

Ela fecha os olhos por um segundo, respira fundo e, quando os abre, eles parecem olhar através de mim, como se enxergassem transparências na minha própria alma.

Ela começa a falar, mas a voz que sai de sua boca não pertence mais à mulher de tailleur vermelho.

— É um sussurro grave, carregado de uma autoridade que me causa calafrios na espinha.

— O senhor carrega marcas profundas... Dores antigas que moldaram quem o senhor é.

As suas perdas foram precoces e violentas.

A perda dos seus pais... o senhor teve que erguer nos próprios ombros o peso de um império quando ainda era jovem demais para carregar tal fardo.

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