Capítulo 3 A LEITURA
Sinto o meu sangue congelar nas veias. O meu coração dá um baque violento contra as costelas. Como ela sabe disso?
A história da tragédia dos meus pais e a minha ascensão precoce no mundo corporativo não são dados públicos acessíveis a qualquer um na Espanha.
Mas ela não para. A força espiritual que a domina intensifica o aperto sobre os meus dedos.
O olhar verde-jade está fixo no nada, vendo o que eu sou incapaz de enxergar.
— A mulher para quem o senhor compra este presente... — diz ela, com o tom solene de uma sentença.
— Quando o senhor retornar, ela lhe dará uma notícia. Ela irá lhe falar sobre a chegada de um filho.
Mas escute-me com atenção, homem de pouca fé: tome muito cuidado.
O seu próprio sangue vai lhe trair. Assim como os seus pais foram traídos no passado pelo próprio sangue, a história irá se repetir. O perigo habita a sua linhagem.
E observe muito bem a mulher que está ao seu lado. A notícia da gravidez trará verdades ocultas.
As palavras golpeiam a minha mente como marteladas. O terror e a raiva se misturam no meu peito. A menção ao passado secreto da minha família e a acusação velada sobre a minha noiva rompem a minha capacidade de manter a calma.
— Chega, isso não pode ser verdade, você é uma bruxa! — grito.
Em um ato desesperado de defesa, puxo a minha mão da dela com toda a força.
No segundo exato em que rompo o contato físico entre as nossas mãos, sinto um estalo visceral.
— É uma sensação física e dolorosa, como se algo invisível, um fio de pura energia condensada que nos mantinha presos, tivesse se partido abruptamente no ar.
O ar ambiente estala com o rompimento daquela sinergia espiritual.
Carmen estremece violentamente, o seu corpo treme como se tivesse levado um choque.
Ela dá um passo em falso para trás, pisca os olhos seguidamente, e a densidade ancestral que ocupava o seu olhar se esvai em um segundo, dando lugar a uma expressão de absoluta perplexidade e vulnerabilidade.
Eu recuo, arfando, a mão esquerda ainda queimando onde ela havia tocado.
— Você é uma bruxa! — esbravejo, apontando o dedo para ela, com a voz trêmula de pavor e indignação. — Uma feiticeira!
Carmen fixa os seus olhos em mim, ela treme visivelmente, levando uma das mãos ao peito enquanto tenta se reequilibrar. A confusão em seu rosto é genuína.
— Por que... por que o senhor está me chamando de bruxa? — pergunta ela, com a voz embargada e assustada.
— O que eu fiz?
— Não se faça de dissimulada! — brado, ajustando o paletó com mãos trêmulas.
— Essas coisas que você acabou de dizer sobre a minha vida, sobre os meus pais, sobre a minha noiva...
Apenas uma bruxa poderia saber disso! Como você descobriu essas coisas sobre mim?
