Capítulo 4 O CHOQUE DE REALIDADE

Carmen balança a cabeça devagar, parecendo atordoada.

— Senhor... eu juro pela minha vida que não sei do que o senhor está falando — responde ela, com um olhar de pura inocência e choque.

— A última coisa de que me lembro foi de estender os brincos ao senhor. Lembro-me de sentir um arrepio e de perguntar se o senhor me permitia ler a sua mão.

O senhor permitiu. A partir do momento em que segurei a sua mão... eu não me lembro de absolutamente mais nada. Apagou-se tudo.

Antes que eu possa vociferar outra acusação, passos firmes ecoam do fundo da loja.

Um rapaz cigano, aparentando ter a mesma idade de Carmen, vestindo trajes alinhados e de porte ereto, aproxima-se do balcão.

Ele coloca a mão protetoramente sobre o ombro de Carmen e me encara com uma serenidade austera e respeitosa.

— Acalme-se, senhor — diz o rapaz, em um tom firme que não admite interrupções.

— Se Carmen leu a sua mão, foi porque Santa Sara Kali assim ordenou.

Carmen não lê a mão de nenhum cliente. Ela não cobra por isso e não faz isso por vontade própria. E ela realmente não se lembra de uma única palavra do que foi dito, porque não foi a Carmen quem falou. Foi a Santa quem usou a boca dela para lhe dar um aviso.

O rapaz dá um passo à frente, olhando no fundo dos meus olhos:

— Eu aconselho o senhor a não desprezar os conselhos que recebeu.

Grave bem na sua memória as últimas palavras que lhe foram ditas por meio dela: o seu próprio sangue vai lhe trair, da mesma forma que os seus pais foram traídos no passado pelo sangue deles.

E o senhor terá a notícia de uma criança assim que colocar os pés na sua casa. Não ignore o aviso de Santa Sara.

O silêncio que se segue na loja é sufocante. O meu coração martela no peito. A atmosfera é pesada demais, real demais, para que eu possa continuar ali.

Retiro a carteira do bolso sem emitir mais uma palavra.

Com as mãos ainda oscilando pelo choque, retiro as notas de euro necessárias para cobrir o valor da pulseira e dos brincos e as deposito sobre o balcão.

O rapaz cigano empacota as joias em uma caixa de veludo e me entrega a sacola.

Nesse instante, Carmen, ainda pálida e recompondo a sua respiração, retira um pequeno cartão de visitas com relevo dourado de uma gaveta e o estende para mim com um gesto suave.

— Tome, senhor — diz ela, encarando-me com uma compaixão misteriosa nos olhos verde-jade. — Se o senhor precisar... é só me ligar.

Eu continuo sem saber o que foi dito ao senhor, mas sinto no meu peito que o senhor vai precisar desta ajuda. Faça uma boa viagem de volta.

Apanho o cartão com a ponta dos dedos, coloco-o no bolso do paletó e saio precipitadamente da joalheria. O sino de bronze toca às minhas costas como um lamento.

A rua de paralelepípedos parece girar sob os meus pés.

Caminho a passos largos, desorientado, tentando respirar o ar fresco da tarde para dissipar a sensação de sufocamento que me persegue.

A minha mente entra em uma espiral incontrolável de paranoia e questionamento. A lógica com a qual sempre regi a minha vida está completamente estilhaçada.

Como? Como aquela mulher, que nunca me viu na vida, que mora em outro país, podia saber da morte incomum dos meus pais?

Apenas a minha família sabe dos detalhes reais daquela tragédia!

E as frases da profecia começam a ecoar na minha cabeça como um eco torturante:

"O seu próprio sangue vai lhe trair..."

Quem, do meu sangue poderia me trair, nos meus sócios?

Os parentes que restaram? Quem estaria articulando algo nas minhas costas?

E o pior de todos os pensamentos, aquele que me causa uma náusea fria no estômago:

"A mulher com quem você está... ela vai lhe dar a notícia de um filho. Observe bem a mulher que está ao seu lado."

Lia, minha noiva, nosso casamento está marcado para daqui a poucas semanas. Será que Lia está grávida?

E se está... por que a cigana disse para eu tomar cuidado?

O que ela quis insinuar?

Que o filho não é meu?

Que ela está me enganando? Que existe uma conspiração orquestrada pela própria mulher que dorme comigo?

— Não! — resmungo sozinho na calçada, acelerando o passo.

— Não, isso é um absurdo!

É tudo loucura loucura!

Tento agarrar-me desesperadamente ao meu ceticismo pragmático.

— Isso é truque de cigano — digo para mim mesmo, tentando convencer a minha própria razão.

— Adivinhação de feira, psicologia aplicada para impressionar executivos crédulos!

Eles colhem informações antes, montam um teatro...

É tudo uma farsa bem ensaiada para vender joias ou criar superstição. Ilusão.

Eu sou um homem de negócios, não vou cair nessa palhaçada.

Apesar de todas as tentativas de me acalmar, a dúvida já foi plantada. E a semente da suspeita cresce como um veneno no meu sangue.

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