Capítulo 5 AS DÚVIDAS

Chego ao meu hotel de luxo com a testa coberta de suor frio. Atravesso o saguão pomposo querendo apenas ir para o meu quarto, mas avisto Manolo, o gerente geral do hotel.

Manolo é um espanhol de meia-idade, distinto, extremamente observador, com quem construí uma relação de cordialidade e amizade ao longo dos anos devido às minhas frequentes estadias na cidade.

Preciso ouvir uma voz racional. Preciso que um habitante local me diga que os ciganos da cidade são apenas charlatões talentosos.

Aproximo-me do balcão da recepção. Manolo nota a minha presença e me dedica um sorriso acolhedor.

— Senhor Adrian!

Boa tarde, como foram os negócios?

Tudo pronto para o seu voo hoje à noite?

— Boa tarde, Manolo — digo, tentando disfarçar a tremedeira nas mãos e adotando um tom de leveza forçada. — Tudo resolvido nos negócios. Mas... acabo de passar por uma situação inacreditável. Uma verdadeira loucura.

Manolo ergue as sobrancelhas, curioso.

— Aconteceu algo desagradável?

— Fui à joalheria Roma 9, da família Della Cruz. Queria comprar um presente para a minha noiva. E acabei caindo na encenação de uma cigana... A filha do dono. Uma tal de Carmen.

A mulher começou a falar coisas absurdas para mim, dizendo que leu a minha mão, fazendo adivinhações macabras sobre o meu passado e sobre o meu futuro. Uma loucura completa! Ciganos e suas superstições...

Eu solto uma risada curta, esperando que Manolo ria comigo e desdenhe do episódio.

No entanto, o sorriso de Manolo desaparece instantaneamente.

O gerente do hotel empalidece levemente. Ele olha ao redor para se certificar de que nenhum funcionário está ouvindo, apoia os dois braços sobre o balcão de mármore e se inclina na minha direção.

A sua expressão descontraída dá lugar a uma gravidade absoluta, quase assustada.

— Adrian... — diz ele, com a voz baixa e tensa. — Carmen Della Cruz leu a sua mão?

— Sim — respondo, sentindo um arrepio incômodo voltar a subir pelo meu pescoço diante da reação dele. — Eu estava pagando, ela me entregava as peças e nos tocamos.

No momento do toque, senti uma espécie de carga elétrica... Algo bizarro.

Ela mudou totalmente de fisionomia, ficou séria, parecia outra pessoa.

Perguntou se podia ler a minha mão esquerda. Eu achei que fosse brincadeira de atendimento e dei.

Aí ela começou a surtar e a falar coisas inacreditáveis...

— Adrian, escute-me com muita atenção — interrompe Manolo, segurando o meu braço com firmeza e olhando no fundo dos meus olhos. — Carmen Della Cruz jamais lê a mão de absolutamente ninguém.

Fico em silêncio, encarando-o.

— O senhor não está entendendo — continua o gerente, com o tom de voz carregado de um respeito sagrado.

— A elite de toda a Espanha frequenta aquela joalheria há décadas.

Homens poderosíssimos, nobres, políticos e empresários já ofereceram fortunas em dinheiro para que Carmen lesse a sorte deles ou fizesse uma revelação.

Ela nunca aceitou, recusa a todos.

Carmen não faz leituras por dinheiro ou charme e nem por vontade própria.

Se ela pegou a sua mão e falou com você... não foi brincadeira. Não foi truque de feira.

Sinto o chão fugir debaixo dos meus sapatos. A minha tentativa de ridicularizar o evento desmorona por completo.

— Manolo... ela disse que não se lembrava de nada do que falou — murmuro, a voz falhando pela primeira vez. — Um rapaz que estava lá disse que foi Santa Sara quem usou a boca dela...

— E foi! — afirma Manolo, sem hesitar um segundo. — É exatamente assim que funciona.

Quando o espírito atua através dela, Carmen entra em transe e não guarda memória de nada. O que foi dito a você naquela loja não veio da cabeça de uma mulher; veio do plano espiritual.

Eu me recuso a aceitar. Passo a mão pelo rosto, desesperado.

— Não pode ser... Isso é superstição, Manolo! Eu sou um homem prático, não acredito nessas coisas!

Manolo me encara com uma pena profunda e solta o meu braço.

— O senhor pode tentar se enganar o quanto quiser, Adrian. Mas eu conheço a família Della Cruz há mais de trinta anos. Tudo o que sai da boca de Carmen sob a bênção de Santa Sara se cumpre rigorosamente.

O gerente faz uma pausa dramática, aponta para o bolso do meu paletó e conclui com uma frase que sela o meu destino:

— Me diga uma coisa... ela lhe deu um cartão de visitas ao final?

Engulo em seco, a garganta seca como pó.

— Deu... Ela disse que eu iria precisar.

Manolo fecha os olhos por um segundo, balança a cabeça gravemente e diz

— Se ela te entregou o cartão dizendo que você precisaria procurar por ela... é porque ela já viu a tragédia que vai acontecer na sua vida.

Não ignore o aviso, meu amigo, prepare-se para o que está por vir.

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