Capítulo 2 Já nos conhecemos antes?

Chloe

Dei a Evelyn três condições inegociáveis antes de desligar. Primeira: o tratamento da mamãe começa hoje. Segunda: a cobertura continua independentemente do que acontecer com o casamento. Terceira: meu irmão Ethan nunca descobre os verdadeiros termos.

Ela concordou fácil demais.

— Os advogados da família Astor vão entrar em contato diretamente.

Vinte horas depois, eu estava diante do espelho do banheiro planejando meu disfarce.

O último ano tinha me transformado — de duzentas libras para cento e dez. Mas Evelyn e Mia ainda achavam que eu era aquela garota gorda e patética que elas tinham envenenado.

Perfeito. Então vamos manter assim.

Terno preto severo. Cabelo puxado para um coque apertado. Óculos escuros enormes e máscara no rosto.

— Desde quando trabalho exige óculos escuros em ambiente fechado? — Ethan se apoiou na porta, com o cabelo espetado para todo lado.

— Acho que estou ficando doente.

— Mentira. Você está mentindo.

— Estou resolvendo uma coisa que vai ajudar a gente. Confia em mim?

O maxilar dele se contraiu.

— Tá bom. Mas você está assustadora pra cacete. Tipo uma agente funerária sexy.


Century City Tower, 13h45.

Emily Chen — assessora jurídica sênior dos Astor — me encontrou do lado de fora da sala de conferências. Terno impecável, olhos mais afiados ainda.

— Srta. Harrison, obrigada por vir.

Mantive os óculos escuros no rosto.

Três advogados esperavam lá dentro.

— Mais um acréscimo — eu disse. — Meu irmão não pode ficar sabendo do acordo médico.

— Feito. O sr. Astor chegará em instantes.

A porta se abriu.

O homem que entrou fez meu coração parar.

Não era velho. Não estava numa cadeira de rodas. Não era desfigurado.

Era devastador.

Tinha um metro e noventa, com o corpo de alguém que o conquistou pela disciplina. Ombros largos forçando as costuras do terno cinza-chumbo Tom Ford, afinando até uma cintura enxuta. Camisa branca com os primeiros botões abertos.

Quando ele se moveu, vislumbrei sua garganta — aquela coluna forte que fez minha boca secar. Cabelo escuro um pouco comprido demais, caindo sobre a testa. Maçãs do rosto marcadas, maxilar forte com barba por fazer. Lábios cheios, comprimidos com força.

Os olhos dele — âmbar, quase dourados. Predatórios. As mãos dele fizeram algo se apertar no meu baixo-ventre. Dedos longos ajustando a abotoadura com precisão controlada. Uma cicatriz fina atravessando os nós dos dedos.

Havia algo familiar no jeito como ele se carregava.

Minha mente voltou àquela noite, um ano atrás — o calor de mãos fortes segurando minha cintura, a voz áspera e aveludada murmurando contra a minha pele, a maneira como aqueles dedos tinham traçado a curva do meu corpo como se já a conhecessem.

Mesma altura. Mesma presença. A mesma atração perigosa que acelerava meu pulso, embora eu soubesse que não podia ser a mesma pessoa.

— Srta. Harrison. — A voz dele era áspera e aveludada. — Desculpe por fazê-la esperar.

Havia algo naquela voz que me puxava. Familiar. Quente.

Os advogados se levantaram.

— Sr. Astor.

Julian Astor se movia como um predador — cada passo medido, controlado.

Ele parou ao meu lado. Estendeu a mão.

No segundo em que nos tocamos, o calor atravessou meu corpo. O aperto dele era firme, quente, estranhamente reconfortante. Como apertar a mão de alguém que você já conhecia.

O contato trouxe outro lampejo de memória — o jeito como aquelas mãos me puxaram para mais perto naquela noite, exigentes e cuidadosas ao mesmo tempo.

Que porra é essa?

Nossos olhos se encontraram. Algo tremeluziu naquelas profundezas âmbar.

— Sr. Astor. — Mantive a voz firme.

— Julian, por favor. — Ele segurou minha mão por tempo demais, com a testa franzida. — Estamos prestes a nos casar. Já nos conhecemos de algum lugar?

Meu coração falhou uma batida.

— Acho que não.

— Estranho. Você me parece familiar.

Ele também está sentindo isso.

— Talvez tenha me visto pelo distrito financeiro — eu disse, sentando. — Trabalho no Goldman Sachs. Analista júnior.

As sobrancelhas dele se ergueram levemente.

— Goldman. Empresa competitiva.

Ele se sentou à minha frente, perto o bastante para que eu sentisse sua presença. Por um segundo, me perguntei se ele estava fazendo a mesma coisa — olhando para mim e sendo lançado de volta a algum caso aleatório do passado dele.

O jeito como os olhos dele continuavam passeando por mim parecia quente demais para uma simples assinatura de contrato. Meu Deus, será que ele estava me imaginando como quem quer que fosse a mulher com quem estivera antes? O pensamento fez meu rosto esquentar sob a máscara.

— A sra. Sterling pintou um quadro bem diferente da sua situação.

Meu cérebro disparou. “O que ela te disse?”

“Que você estava em dificuldades. Desesperada, até.” O canto da boca dele se ergueu levemente. “Ela fez parecer que você ficaria grata por qualquer acordo que aparecesse.”

“E você acreditou nela?”

“Eu deixo as pessoas acreditarem no que querem.” Ele se recostou, e o movimento fez o tecido do paletó repuxar sobre os ombros. “Sua irmã, Mia Sterling. Ela deixou bem claros os sentimentos dela sobre esse acordo para a minha avó.”

“Ela não é minha irmã. A sra. Sterling me criou por dezoito anos e depois me expulsou quando um teste de DNA provou que eu não era filha dela.”

Um lampejo de interesse passou por sua expressão. “Então Mia rejeitou esse casamento.”

“Ela achou que você estava falido. Preso a uma cadeira de rodas. Desfigurado.” Observei a reação dele com cuidado.

O sorriso dele ficou frio. “E, no entanto, aqui estou eu. Não exatamente como anunciaram.”

“Nem de longe.”

“As pessoas veem o que querem ver. Mia Sterling queria uma desculpa para rejeitar o acordo, então acreditou nos rumores.” Ele inclinou a cabeça.

“Se ela soubesse a verdade — que a Astor Capital é minha, e é há seis anos — imagino que se sentiria bem diferente.”

Então eu entendi.

Mia não tinha apenas rejeitado Julian — fazia meses que vinha correndo atrás da “conexão Astor”, desesperada para garantir a aliança. Ela só me empurrou para a frente quando pensou que Julian não valia nada.

Um aleijado falido e arruinado que ela podia jogar em cima da rejeitada da família.

Mas ele não era inútil. Ele era tudo o que ela vinha tramando para conseguir.

E agora ele era meu.

Uma satisfação cruel floresceu no meu peito. Mia tinha me envenenado por cinco anos, armado aquela noite humilhante, me chamado de porca.

E agora eu ia me casar com o homem que ela teria atravessado o inferno arranhando tudo pelo caminho para conseguir — se ao menos soubesse quem ele realmente era.

“Srta. Harrison?” A voz de Julian me cortou os pensamentos. “Você está sorrindo.”

“Só estou pensando que esse acordo é prático.”

“Prático?” Ele inclinou a cabeça.

“Você precisa de uma esposa. Eu preciso de cobertura médica. Uma transação limpa.”

“Bem limpa.” Ele assinou com traços rápidos, e eu observei o movimento dos dedos dele, a mudança em seus ombros.

Por que isso é tão atraente?

Ele deslizou o contrato pela mesa. “Sua vez.”

Nossos dedos se roçaram. O mesmo calor, a mesma sensação de que aquilo era certo.

Ele percebeu também — os olhos se estreitando.

“Frio?” ele perguntou.

“Nervosismo. Nunca fui casada.”

“Nem eu.” A voz dele baixou. “Mas continuo sentindo como se eu devesse conhecer você.”

Minha mão hesitou. “Eu também tenho essa sensação.”

“Muito estranho.” Aqueles olhos cor de âmbar se prenderam aos meus. “Talvez a gente descubra isso.”

Assinei rápido. Chloe Harrison. Pronto.

“A cerimônia é amanhã às dez”, anunciou Emily.

Nós nos levantamos e ficamos de frente um para o outro. Ele se aproximou.

“Uma pergunta”, disse ele.

“O quê?”

Ele gesticulou para meus óculos escuros. “Por que o disfarce? Eu gostaria de saber como é o rosto da minha esposa.”

Porque Evelyn e Mia ainda não podem saber.

“Fiz um exame de vista recentemente. Sensibilidade à luz.”

“Hmm.” Ele não acreditou. “Estou ansioso para ver você amanhã. Você por completo.”

“Eu vou estar lá.”

“Eu sei.” Ele sorriu, perigoso. “Você precisa demais de mim para desistir.”

Isso deveria ter me irritado. Em vez disso, a franqueza dele era revigorante.

“Até amanhã, Julian.”

O nome dele pareceu natural na minha boca.

“Chloe.” O jeito como ele disse meu nome me mandou arrepios pela espinha. “É melhor se acostumar a dizer o meu nome. Logo você vai ser a sra. Astor.”

Peguei minha bolsa e saí.

“Chloe?”

Parei.

“Essa sensação”, ele disse baixinho. “Essa familiaridade. Não é uma coisa ruim.”

Não respondi. Simplesmente fui embora.


No elevador, finalmente consegui respirar.

Julian Astor não estava falido. Não era deficiente. Era poderoso, bem-sucedido, magnético.

E Mia teria feito qualquer coisa para tê-lo — se ao menos soubesse a verdade.

Amanhã eu me tornaria a sra. Astor.

E quando Mia descobrisse, ia perder a porra da cabeça.

Meu celular vibrou. Ethan.

como foi

Digitei de volta.

Vou me casar amanhã

MAS QUE PORRA É ESSA

Te conto quando eu chegar em casa.

Amanhã, tudo mudaria.

E eu mal podia esperar.

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