Capítulo 3 Eu tinha que ser sua esposa em todos os sentidos

Chloe

A cerimônia foi breve, pouco mais que uma formalidade.

Julian e eu ficamos um de frente para o outro como duas pessoas marcando um item numa longa lista de afazeres. Ainda assim, quando o celebrante perguntou se ele me aceitava como esposa, a resposta de Julian veio com uma firmeza constante que puxou minha atenção para os olhos dele.

— Aceito.

As palavras pairaram entre nós e, por um instante, o olhar dele sustentou o meu sem desviar. Respondi da mesma forma, pensando na mamãe no hospital e em Ethan de volta ao apartamento. O resto da sala permaneceu distante.

Julian abriu a pequena caixa e deslizou o anel no meu dedo. O polegar dele roçou a parte interna do meu pulso uma vez, rápido e deliberado, antes de me soltar.

Coloquei a aliança lisa na mão dele. O metal estava frio contra a pele.

Quando o celebrante disse que ele podia beijar a noiva, Julian se aproximou sem hesitar. As mãos dele emolduraram meu rosto, os dedos repousando ao longo da minha mandíbula com uma pressão que parecia mais pesada do que qualquer papelada.

O primeiro toque da boca dele foi contido, então mudou, aprofundando-se com uma certeza lenta que fez o ar ao nosso redor parecer mais denso.

Uma das mãos deslizou até a minha cintura, a palma quente e firme contra o tecido, me puxando só um pouco mais para perto. O calor se espalhou na parte baixa do meu ventre quando os lábios dele tomaram os meus com uma intensidade silenciosa que me deixou sem fôlego.

Aquele mesmo toque cuidadoso me lançou de volta direto para aquele quarto de hotel, um ano atrás — o peso de um estranho no escuro, o jeito como as mãos dele haviam percorrido meu corpo como se já o conhecessem.

Minha respiração falhou sob a boca de Julian. Fiquei imóvel até ele se afastar devagar, apoiando a testa na minha.

— Respira — ele disse em voz baixa, rouca nas bordas.

Puxei ar para os pulmões e assenti. O resto das assinaturas passou rápido, num pequeno escritório.

Depois, Julian ficou junto à janela, olhando o relógio, a corrente de platina brilhando no pulso.

— Então, Sra. Astor — disse ele, virando-se para me encarar por completo. — Como se sente?

— Como se a gente tivesse acabado de sair de uma reunião.

Ele me observou por um segundo, os olhos âmbar demorando-se no meu rosto com algo que parecia mais caloroso do que profissional. Então fez um breve aceno de cabeça.

— Ótimo. Vamos manter isso em sigilo. Sem anúncios. Você cuida do seu lado, eu cuido do meu.

— Combinado.

Ele se apoiou na mesa, braços cruzados, o tecido do terno esticando sobre os ombros de um jeito que era difícil não notar. — Mas, quando estivermos sozinhos, podemos descobrir o resto. Jantar hoje à noite?

Assenti.

— Hoje à noite.


O carro de Julian esperava na garagem. Ele abriu a porta para mim, a mão pousando de leve na base das minhas costas, firme e sem pressa.

No começo, o trajeto seguiu em silêncio. Minha mente continuava voltando para o que viria depois da papelada. Esta noite significava dividir o mesmo espaço, dividir um quarto.

Aquilo era um casamento por contrato, mas eu sabia o que vinha com isso. Eu precisava desse acordo para o tratamento da mamãe, e isso significava que eu tinha de cumprir a minha parte.

Eu tinha que ser a esposa dele em todos os sentidos.

Eu não ficava com ninguém desde aquele estranho, um ano atrás. E agora estava prestes a me despir na frente de um homem que eu conhecia havia menos de dois dias.

Mesmo tendo emagrecido, eu ainda me pegava vendo a versão antiga no espelho — a garota de cem quilos que se escondia de todo mundo.

E se Julian olhasse para mim e sentisse a mesma decepção?

A mão de Julian pousou no meu joelho quando o carro fez uma curva. O polegar dele traçou uma linha lenta pela barra do meu vestido, o toque leve, mas deliberado.

— Você parece tensa — disse ele, em voz baixa e calma. — Se está preocupada com esta noite, não precisamos apressar nada. Podemos ir devagar.

— Estou bem.

O polegar dele ficou imóvel, quente através do tecido, mas ele apertou meu joelho de leve, como se estivesse me lembrando de que estava ali, sem forçar mais nada.

Meu celular vibrou. O nome de Mia acendeu na tela.

Eu atendi e, ainda assim, coloquei no viva-voz.

— Chloe! Parabéns! — a voz de Mia soou clara e estridente. — Como vai a vida de casada? Cuidar de um velho feio e aleijado deve ser tão gratificante!

Deixei as palavras pairarem por um segundo.

— É. Exatamente como você disse. Você realmente se livrou de uma enrascada ao conferir os rumores primeiro.

Julian ficou imóvel ao meu lado, mas mantive a voz firme.

Mia riu.

— Eu sabia. Você realmente acabou com a piada da família.

— É, acho que sim — respondi. — Você fez a escolha certa ao dispensá-lo. Deve ser bom ter tanta certeza de si mesma.

— Com certeza. Aquele cara não é nada. Um inútil.

Concordei sem contestar.

— Você provavelmente tem razão. Só espero não me arrepender depois, como algumas pessoas talvez se arrependam.

O silêncio se estendeu por um instante.

— Desde quando você fala desse jeito?

— Estou só sendo realista — respondi. — Você sempre teve instintos melhores para essas coisas. Queria ter perguntado a você antes.

Por dentro, eu imaginava o dia em que ela descobriria a verdade. A expressão no rosto dela quando os rumores desmoronassem. Aquele momento valeria cada resposta contida que eu dava agora.

Mia continuou falando, disparando mais insultos. Fui concordando com a cabeça, dizendo coisas como “Faz sentido” e “Entendo o que você quer dizer”. No fim, ela parecia satisfeita, até um pouco presunçosa.

— Me liga se precisar desabafar com alguém — disse ela, antes de desligar.

Encerrei a chamada e abaixei o celular. O polegar de Julian voltou a se mover, a mão dele quente e firme.

— Jogada inteligente — disse ele baixinho, com um toque de aprovação na voz que fez meu pulso falhar.

Voltei a olhar pela janela.

— Mais cedo ou mais tarde ela vai descobrir. E, quando descobrir, pode decidir o que sente sobre isso.

Ele não respondeu, mas o carro continuou seguindo em frente. A noite ainda nos esperava, assim como tudo o que viria depois do acordo silencioso que havíamos feito.

A mão de Julian permaneceu no meu joelho, uma promessa silenciosa de paciência que só fez a tensão se enroscar ainda mais dentro de mim.

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