Capítulo 4 O toque
Chloe
A coxa de Julian pressionou a minha assim que nos acomodamos no Rolls-Royce, a pressão deliberada e inconfundível.
Não era o bastante para causar desconforto, mas era impossível ignorar — um lembrete constante da presença dele que fazia meu coração disparar.
Cutuquei a perna dele com o dedo, tentando recuperar um pouco de espaço.
O músculo sob o terno era duro como pedra. Dizem que homens com coxas assim têm um fôlego incrível.
Meu coração bateu ainda mais forte só de pensar nisso.
Do lado de fora dos vidros escurecidos, as torres de vidro de Century City brilhavam sob o sol da manhã.
Meu olhar se fixou no prédio familiar onde funcionava o Goldman Sachs de LA, e minha expressão passou de constrangida a sombria.
Julian percebeu imediatamente. — O trabalho vai bem? — O tom dele era casual, mas os olhos âmbar estavam atentos.
— Está... tudo bem. — A hesitação na minha voz me traiu.
Os olhos dele escureceram de leve. Eu via que ele queria insistir, mas então algo passou pelo rosto dele — contenção. — Se precisar de ajuda, pode me contar.
Balancei a cabeça com firmeza.
— Eu não preciso de ajuda. Dou conta. — Minha voz saiu mais áspera do que eu pretendia.
— Nós combinamos, não foi? Sem interferência. Eu vou resolver meus próprios problemas.
Julian ficou em silêncio por vários segundos antes de assentir devagar. — Tudo bem. Eu respeito isso.
Mas as sombras nos olhos dele sugeriam o contrário.
Não posso depender dele, pensei com ferocidade. Sobrevivi sozinha a este último ano. Posso continuar assim. Além disso, nosso casamento é só uma transação. Não quero ficar devendo a ele mais do que já devo.
Quando paramos em frente ao prédio da Goldman, atrapalhei-me com o cinto de segurança. A fivela emperrou.
Julian se inclinou para ajudar, o braço roçando no meu peito. Recuei contra o banco, prendendo a respiração, mas não havia para onde ir.
— Não se mexe — murmurou ele, o rosto a poucos centímetros do meu. — Quase consegui.
Os movimentos dele eram deliberadamente lentos. Aqueles olhos âmbar prenderam os meus com uma intensidade que fez minha pele arder.
O cinto finalmente se soltou com um clique suave.
Julian não se afastou imediatamente. Em vez disso, os dedos dele roçaram a minha bochecha. — Você está corando.
Empurrei a porta para abrir, desesperada para escapar do espaço confinado e da presença esmagadora dele.
A mão dele segurou meu pulso.
— Chloe. — A voz dele baixou, mais escura, mais possessiva.
— Eu sei que combinamos não interferir. Mas, se você realmente não conseguir lidar com alguma coisa... pelo menos me avise.
— Eu consigo lidar com isso.
Entrei no prédio às pressas sem olhar para trás.
Entrei no 43º andar da Goldman, recebida pelo zumbido familiar dos teclados e pelas ligações em voz baixa.
Um ano atrás, eu tinha começado ali como a “Chloe Gorda” — noventa quilos enfiados em ternos pretos largos demais, sempre de cabeça baixa, tentando ser invisível.
Não tinha funcionado. Richard fizera questão disso.
— Não serve para reuniões com clientes — ele anunciou na festa de fim de ano do ano passado, alto o bastante para que todos ouvissem. — Desse jeito, você vai espantar os clientes.
A risada ainda ecoava nos meus pesadelos.
Mas o peso foi embora devagar, quilo por quilo. No começo, ninguém percebeu — eu ainda era a máquina de trabalho invisível, enterrada em planilhas enquanto analistas mais bonitas iam aos jantares com clientes.
Então vieram os sussurros.
— A Chloe está emagrecendo?
— Olha o rosto dela. Dá até para ver a estrutura óssea agora.
Com vinte e três quilos a menos, os sussurros viraram encaradas. Com trinta e dois quilos a menos, as pessoas começaram a me tratar de outro jeito — seguravam portas, puxavam conversa fiada, realmente olhavam nos meus olhos.
Agora, com cinquenta quilos, meus traços tinham emergido por completo. Olhos verde-acinzentados. Maçãs do rosto altas. Uma linha da mandíbula que ficara enterrada sob a carne por anos.
E Richard também tinha percebido.
A humilhação pública parou. No lugar dela vieram olhares demorados que faziam minha pele se arrepiar. Toques “acidentais” no elevador. Convites para almoçar que soavam como ameaças.
Sentei à minha mesa, ainda soterrada sob tarefas impossíveis. A melhor modeladora financeira da equipe, destaque absoluto em análise setorial — e, ainda assim, excluída de toda reunião com clientes.
Algumas coisas nunca mudavam.
Outros mudaram de um jeito que eu queria que não tivessem mudado.
Lily se inclinou por cima da mesa ao lado da minha.
Ela tinha sido minha única amiga de verdade ali desde o primeiro dia — a única pessoa que nunca me tratou diferente quando eu era gorda, que dividia o almoço comigo quando eu esquecia o meu, que me avisava sobre a política do escritório sem querer nada em troca.
— Chloe — ela sussurrou, olhando de relance para o escritório do Richard. — Ele está piorando. Semana passada foram os toques no ombro. Ontem ele encurralou a Sarah, da contabilidade, na sala da copiadora. — Ela mordeu o lábio. — Só… toma cuidado, tá? Eu não gosto do jeito que ele tem ficado rodeando você ultimamente.
Um calor se espalhou no meu peito. Naquele aquário de tubarões que era o trabalho, a preocupação da Lily era uma gentileza rara.
Apertei a mão dela por um instante.
— Eu sei. Obrigada por cuidar de mim. — Consegui esboçar um sorriso pequeno. — Eu vou dar um jeito. Não se preocupa.
A porta de vidro das salas dos sócios se abriu. Richard saiu, e o olhar dele imediatamente grudou em mim.
Ele usava um terno Armani caro — provavelmente dez mil dólares — tentando disfarçar o corpo de quarenta e dois anos: entradas cada vez maiores sob um penteado desesperado para esconder, barriga de chope bem marcada. Mas ele se portava com a confiança de um homem que acreditava ser irresistível.
Ele caminhou até a minha mesa, e os olhos dele passearam do meu rosto para o meu peito e para a minha cintura, numa avaliação descarada.
Ao nosso redor, os colegas de repente acharam as telas dos computadores fascinantes.
— Chloe, você está livre para almoçar hoje? — O sorriso dele era pegajoso. — Tem um restaurante francês novo logo ali na rua. Eu gostaria de conversar sobre o seu… desenvolvimento de carreira. Só nós dois.
Ergui o olhar, mantendo a expressão fria.
— Desculpa, Richard. Tenho um relatório do setor para entregar ao meio-dia. Não vou ter tempo.
Os olhos dele escureceram por um instante, antes de o sorriso voltar.
— Então fica para outra hora. Sabe, você já está aqui há um ano. Eu reconheço suas capacidades. Mas antes, por causa de… certos fatores, eu não podia te dar muitas oportunidades. — O olhar dele me varreu de novo. — Agora que você está assim, você está absolutamente pronta para lidar com clientes importantes. Eu vou investir em desenvolver o seu potencial.
A malícia no tom dele me deu nojo.
Ao meio-dia, fui para a copa pegar meu terceiro café do dia.
O espaço pequeno mal cabia três pessoas. Eu estava sozinha — ou pelo menos era o que eu achava.
— Chloe. Sozinha?
A voz do Richard atrás de mim me fez congelar.
Eu me virei, forçando um sorriso profissional.
— Richard. Pegando café também?
Ele se aproximou.
Eu sentia o cheiro forte do perfume dele tentando esconder o odor de desespero de meia-idade.
Os olhos dele percorreram meu corpo sem disfarçar — rosto, peito, cintura.
— Sabe, Chloe, você parece outra pessoa comparada a um ano atrás. Antes, eu achava que você não era bem… adequada para certos aspectos desse setor. — Ele deu mais um passo para perto. — Mas agora eu mudei completamente a minha avaliação.
Eu recuei meio passo, tentando manter distância.
— Obrigada pelo reconhecimento. Se me der licença…
Ele estendeu a mão, supostamente para alisar uma dobra inexistente no meu ombro. Os dedos dele “sem querer” roçaram minha clavícula.
Eu me sobressaltei para trás, a coluna batendo na parede. Não tinha mais para onde recuar.
Os olhos do Richard se estreitaram.
— O que foi? Eu só estava arrumando seu blazer. Por que esse nervosismo?
Fiz força para manter a voz firme, apesar do coração disparado.
— Richard, por favor, mantenha uma distância apropriada. Isto é o escritório. Limites profissionais importam.
Meus dedos se apertaram em torno do copo de café.
A mão dele pousou no meu ombro, os dedos demorando vários segundos a mais do que o aceitável antes de ele sair caminhando, como se nada fosse.
Eu fiquei imóvel, encostada na parede, até ele ir embora, com as pernas tremendo.
Mordi o lábio com força, as unhas cravando nas palmas. A dor me mantinha focada.
Eu não posso perder este emprego. Mesmo com a Evelyn fornecendo o tratamento experimental, o salário e o plano de saúde da Goldman são a minha única rede de segurança para os cuidados básicos da mamãe. Eu preciso dar um jeito de manter meu trabalho sem deixar o Richard vencer.
Eu me endireitei, joguei água no rosto e encontrei meu próprio olhar no espelho. Exausta, mas ainda determinada.
Respirei fundo e voltei para a minha mesa.
