Capítulo 5 Você me bloqueou

Chloe

Salvei o terceiro relatório de análise do setor e olhei a hora: 18h32.

Faltava uma hora e meia para o meu jantar com Julian.

Desliguei o monitor e peguei minha bolsa falsa da Michael Kors. Ainda havia sete ou oito analistas curvados sobre as mesas. Lily passou por mim e baixou a voz:

— Chloe, você vai mesmo sair no horário hoje?

Forcei um sorriso.

— Tenho planos para hoje à noite.

Depois que as portas do elevador se fecharam, me apoiei na parede espelhada e fechei os olhos.

Esta noite era para ser uma noite de trabalho no The Abyss.

Mas hoje, depois do casamento, quando Julian disse “vamos jantar juntos esta noite”, eu não recusei.

US$ 2.500, assim, do nada. Perdidos.

Mas eu era a esposa dele — pelo menos nos documentos legais.

Se eu recusasse esse jantar com um “preciso ir servir bebidas no The Abyss”, isso definiria esse casamento como uma transação pura, que nem sequer precisava de um calor superficial.

Eu não sabia por que não queria que se tornasse isso.

Meu celular vibrou — chamada recebida, número desconhecido.

— Você me bloqueou.

Uma voz masculina grave, com uma diversão contida.

Parei na calçada.

— ...Julian?

— Mm. Seu marido. Atualmente na sua lista negra do Instagram.

Fechei os olhos.

— Achei que fosse uma conta de spam. Zero conteúdo, zero seguidores.

— Havia uma foto de perfil.

— Só um relógio. Nada que pudesse confirmar a identidade.

Dois segundos de silêncio. Eu quase conseguia imaginar a expressão dele — irritado, mas divertido.

— Me tire de lá agora — ele disse.

Eu já estava fazendo isso.

— Pronto. Você ficou lá por uns cinco minutos.

— Tempo suficiente. — Depois de uma breve pausa, o tom de Julian voltou à habitual contenção. — Sobre o jantar de hoje à noite... estou voando para Taipei por causa de uma aquisição. O voo sai às 23h45. Vou ficar fora por quatro ou cinco dias.

Minha primeira reação foi alívio, mas em algum lugar por baixo disso, uma estranha pontada de decepção apertou meu peito.

— Entendo — eu disse, com calma. — O trabalho é importante.

Outro breve silêncio.

— Você parece... aliviada — disse Julian, a voz caindo naquele arrastar baixo e preguiçoso que atravessava o telefone direto. — Mas também um pouco decepcionada. Estou interpretando certo?

O calor subiu para o meu rosto. A voz dele envolvia as palavras, lenta e áspera nas bordas, e eu a senti no baixo ventre. Pressionei a mão livre contra a coxa, tentando me firmar. Por um segundo, tive medo de que a minha voz revelasse alguma coisa.

— Não. É só que o trabalho também foi pesado hoje.

— Tudo bem. — O tom dele não trazia mais investigação, mas aquele calor preguiçoso permanecia. — Vou voltar assim que puder. E, quando eu voltar, vamos terminar o que não conseguimos fazer hoje à noite.

O jeito como ele disse aquilo — baixo, seguro, com a mais leve ponta de provocação — fez meu rosto arder ainda mais. Engoli em seco e consegui responder:

— Tá bom.

A ligação terminou.

Mandei uma mensagem rápida para o gerente do The Abyss: “A situação familiar foi resolvida. Posso trabalhar hoje à noite se você ainda precisar de mim.”

Dois minutos depois: “Esteja aqui às 22h. Não se atrase.”

Olhei a hora: 18h48.

US$ 2.500, perdidos e encontrados de novo.

Virei e entrei de volta no prédio da Goldman.

Às 21h32, desliguei o último monitor. Eu tinha revisado aquele relatório de análise do setor duas vezes, garantindo que não houvesse erros de dados que Richard pudesse explorar.

Agora, para o The Abyss, no timing perfeito.

A falta para a terapia-alvo de Margaret neste mês ainda era de US$ 112.000. Mais quarenta e quatro noites como esta, e seria o suficiente.

A dois quarteirões da estação de metrô, ouvi um motor atrás de mim.

Um som inconfundível — grave, potente, com um ar exibido no ronco.

Olhei para trás. Um Lamborghini Urus laranja vinha avançando devagar, cerca de cinquenta metros atrás de mim. Os faróis estavam apagados, mas o motor rosnava baixo na noite.

Meu coração se contraiu. Aquilo não era coincidência.

O som do motor continuou me seguindo. Cinquenta metros. Quarenta metros. Trinta metros.

Minha respiração acelerou. Alguém que podia pagar por aquele carro significava poder e recursos, o que também significava que, se ele quisesse fazer alguma coisa comigo, eu quase não teria como resistir.

A Lamborghini laranja de repente acelerou e passou por mim, depois cantou pneu e parou vinte metros à frente, bloqueando a rua.

O motor foi desligado. A porta se abriu.

Richard Carter saiu.

O terno e a gravata de Richard estavam impecavelmente no lugar, o cabelo ralo um pouco despenteado. Ele segurava um copo do Starbucks, o olhar passando por mim com aquela falsa preocupação oleosa.

— Chloe. Fora tão tarde. Para onde você está indo?

Apertei meu celular com mais força.

— Para casa.

— Para casa? — Richard sorriu.

— É mesmo? — Richard deu dois passos à frente. — Mais cinco minutos nessa direção e tem um clube muito especial chamado The Abyss. Já ouviu falar?

Meu coração pareceu ser apertado por gelo. Ele sabia.

Ele tirou o celular do bolso e mostrou uma foto da entrada do The Abyss. Nela, eu estava usando um vestido de coquetel preto.

— Sommelière VIP. Dois a três mil dólares por noite. Um bico muito bom. Mas o manual de funcionários da Goldman proíbe trabalho em casas de entretenimento. Se o compliance souber disso...

Minhas unhas cravaram nas palmas das mãos.

— O que você quer?

— A gente pode manter isso como nosso segredinho. Você continua trabalhando, recebendo seu salário e seu plano de saúde — eu sei que o tratamento da sua mãe custa cento e cinquenta mil dólares por mês. — O olhar dele me percorreu. — Em troca, você me acompanha até minha casa de praia neste fim de semana. Só nós dois.

— Ela não vai a lugar nenhum com você.

A voz de um rapaz veio de trás de mim, fria e dura.

Girei no ato — Ethan Sterling estava na esquina, usando um moletom da UCLA, uma bola de basquete na mão.

Aos vinte e um anos, ele estava cinco centímetros mais alto do que quando tinha saído de casa, com os ombros mais largos, e os olhos carregando um perigo que eu nunca tinha visto.

— Ethan? Como você—

— Você mandou mensagem hoje à tarde dizendo que não ia ao The Abyss, e agora você disse que ia. Eu sabia que tinha algo errado, então fiquei esperando aqui.

Richard franziu a testa.

— Quem é você?

— O irmão dela. Agora volta pro seu carro e fica longe da minha irmã.

Richard riu.

— Garoto, isso aqui é coisa de adulto—

Ethan arremessou a bola de basquete no para-brisa da Lamborghini. Ela atingiu com um impacto enorme. O alarme do carro guinchou.

— Porra! — Richard correu para o carro.

Ethan avançou na mesma hora e deu um soco no rosto dele.

Richard cambaleou para trás, o sangue espirrando. Ethan agarrou o colarinho dele e acertou outro soco. Richard desabou.

— Ethan! — Corri e segurei o braço dele. — Já chega!

Ethan deixou que eu puxasse o braço para trás, mas manteve o olhar em Richard.

— Se você assediar minha irmã de novo, eu quebro suas pernas. Entendeu?

Richard segurou o nariz e se arrastou até o carro. A Lamborghini laranja berrou e sumiu na noite.

Soltei o braço de Ethan, com as pernas fracas.

Ethan me amparou.

— Você tá bem?

— Tô. Como você sabia que eu ia dar de cara com ele?

— Eu não sabia com quem você ia dar de cara. Mas eu sabia que aconteceu alguma coisa com os planos do seu marido e que você ia tentar resolver tudo sozinha. Aí eu vim mais cedo.

Minha garganta se apertou.

— Você vai ao The Abyss toda quarta, sexta e sábado. Claro que eu sei. Eu moro com você há três anos. Eu conheço sua rotina melhor do que você.

Eu não consegui falar.

Ethan suspirou.

— Vamos, eu te acompanho até lá. Já são dez da noite. De agora em diante, toda vez que você for ao The Abyss, eu vou ficar por perto até você terminar o turno.

Eu olhei para meu irmão de vinte e um anos — aquele menino de quinze que tinha ficado confinado por três anos — e agora segurava uma dureza e alguma emoção profunda que eu não ousava encarar.

Por fim, eu assenti.

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