Capítulo 6 Eu prefiro casar com um aleijado

Chloe

O alarme berrou às 5h30 da manhã.

Acordei no nosso apartamento apertado no East LA, com os sons familiares atravessando as paredes finas — alarmes de carro, gritos em espanhol, canos chacoalhando.

Ethan tinha deixado um bilhete no balcão, ao lado de ovos mexidos e torradas: “Coma. Você vai precisar de força hoje. —E.”

Fiquei encarando a letra dele, com o estômago se retorcendo. A noite passada continuava voltando em looping — o punho de Ethan acertando o rosto de Richard, o sangue, a fúria. Richard não ia deixar aquilo barato. Homens como ele nunca deixavam.

Meu celular vibrou — uma mensagem do Julian, em Taipei: “Pouso em três horas. Como você está?”

Digitei de volta: “Estou bem. Boa sorte com a aquisição.”

A resposta dele veio na hora: “Se acontecer alguma coisa, me liga. Estou falando sério, Chloe.”

Às 7h15, entrei no prédio da Goldman, me preparando.

No instante em que pisei no escritório, eu senti — conversas morrendo no meio da frase. Minha mesa estava soterrada de arquivos.

Um Post-it amarelo, com o garrancho de Richard: “Tudo isso precisa ser incorporado ao relatório Wilson. Prazo inalterado.”

Lily apareceu ao meu lado. “Chloe, isso é insano. Ele anunciou na reunião da manhã — disse que você se voluntariou pra esse trabalho extra.”

Olhei para aquela montanha de serviço. 7h23. Aquilo era punição.

“Eu dou conta”, eu disse baixo, puxando a cadeira.

As quatro horas seguintes passaram num borrão de planilhas e idas desesperadas atrás de café.

Richard passou por mim. Um hematoma grande arroxeava a maçã do rosto esquerda, e uma faixa branca atravessava o nariz. Ele andava duro, poupando o lado direito.

A mão dele pousou na minha cadeira, perto demais.

“Progredindo?” A voz dele estava gelada. “Sabe, Harrison, você devia ensinar aquele seu irmão selvagem a ter modos. Agredir um diretor executivo da Goldman? Isso é crime.”

Minhas mãos congelaram no teclado.

“Vai estar pronto até as cinco”, eu disse sem erguer os olhos.

Ele se inclinou, o bafo quente roçando minha orelha. “Você acha que seu irmão, um animal solto, pode te proteger? Ele só piorou tudo. Pra vocês dois.”

Ao meio-dia, eu tinha terminado talvez metade. Meu telefone tocou — recepção.

“Srta. Harrison, tem uma Srta. Sterling aqui para vê-la.”

Mia.

Meu estômago despencou.

Quando as portas do elevador abriram, eu a vi na hora.

Mia estava no saguão usando um tailleur branco da Chanel, uma Hermès Birkin pendurada no braço. O novo Maserati dela estava parado ilegalmente do lado de fora.

Ela tinha calculado isso com perfeição — hora do almoço, humilhação máxima.

Dei um passo para trás, me escondendo atrás de uma coluna, com o coração disparado.

Ela ainda não tinha me visto. A última vez que Mia colocou os olhos em mim, eu ainda tinha 90 quilos, me escondendo atrás de suéteres enormes e da vergonha.

Isso foi há mais de um ano — antes de emagrecer, antes da transformação, antes de eu me tornar alguém que ela não reconheceria no meio de uma multidão.

E eu não tinha a menor intenção de deixar que ela me visse agora.

Observei das sombras enquanto Mia caminhava até o balcão da recepção, a voz dela ecoando pelo saguão. “Eu preciso ver a Chloe Harrison. Diga a ela que a Mia Sterling está aqui.”

A recepcionista sorriu com educação. “A senhora tem horário marcado? A srta. Harrison está lidando com um projeto urgente no momento.”

O rosto de Mia escureceu. “Horário marcado? Eu sou irmã dela!”

“Desculpe, mas a política da empresa exige—”

“Eu sei o que está acontecendo.” Mia elevou a voz de propósito.

“A Chloe está com vergonha demais pra me ver! Faz sentido — casada com um aleijado falido, morando naquela casa mal-assombrada caindo aos pedaços, cuidando de um inútil preso a uma cadeira de rodas enquanto se mata de trabalhar aqui pra pagar conta médica... Coitadinha! Ela nem consegue encarar a própria irmã!”

O saguão ficou em silêncio. Vários funcionários puxaram os celulares, gravando.

Minhas unhas cravaram nas palmas das mãos, mas eu não me mexi.

Ainda não.

Mia continuou, claramente saboreando a cena. “Eu vim até aqui pra ver como ela está, até trouxe sopa enlatada e roupas velhas, já que ela provavelmente não pode mais comprar comida ou roupa decente. Mas o que se pode fazer? Ela foi cega o bastante pra se casar com aquele peso morto!”

Deixa ela fazer o show, pensei, fria. Deixa ela cavar a própria cova mais fundo.

O dia em que ela finalmente visse no que eu me tornei — o que eu sobrevivi, o que eu construí — seria muito mais doce por causa da ignorância dela agora.

Naquele instante, Richard saiu do elevador, o rosto machucado se retorcendo num sorriso. Ele foi até Mia.

“Então a Harrison se casou com um aleijado? Não é à toa que ela anda trabalhando tão desesperadamente. Deve estar sustentando a casa inteira.”

Ele se virou para o grupo ao redor. “Uma pena. Harrison tem potencial. Mas, suponho que, quando se vem da pobreza, não dá para ser exigente com perspectivas de casamento.”

Os olhos dele brilharam. “Ainda assim, ela está indo bem sob a minha orientação. Vou cuidar muito bem dela. Afinal, aquele marido aleijado com certeza não pode sustentá-la.”

Mia abriu um sorriso radiante. “Bom, então vou deixar minha pobre ‘irmã’ em suas mãos competentes!” Ela saiu batendo os saltos, deixando para trás sussurros.


Meu celular se iluminou com mensagens — capturas de tela e vídeos da “apresentação” de Mia se espalhando pela intranet da empresa.

Assisti ao vídeo, tremendo.

Lily tocou meu braço. “Você está bem?”

Respirei fundo e senti algo dentro de mim ficar frio e claro.

Abri tudo o que eu tinha produzido no último ano — cada análise que Richard roubou, cada proposta que ele adulterou, cada episódio de abuso. Organizei tudo em um arquivo.

Às 16h, Richard apareceu na minha mesa, olhando para o trabalho inacabado com satisfação.

“Parece que você precisa de ajuda, Harrison. Vá ao meu escritório hoje à noite para uma ‘sessão particular de tutoria’.” Ele tocou o curativo no nariz.

“Seu irmão selvagem achou que podia me intimidar. Mas ele é só um moleque estúpido. Seu marido aleijado também não pode te ajudar. Mas eu posso. É só ser ‘cooperativa’, e talvez eu esqueça de prestar queixa.”

Levantei devagar. Na frente do escritório inteiro, peguei meu café gelado e joguei na cara dele, encharcando seu terno Tom Ford.

O escritório inteiro mergulhou em silêncio.

“Richard Carter, eu me demito com efeito imediato. Estas são cópias das provas que documentam suas violações. Os originais já foram enviados para compliance, RH e a SEC.”

Fiz uma pausa, deixando o olhar percorrer todos os que assistiam.

“Quanto ao meu marido — ele pode usar cadeira de rodas, pode estar falido, mas pelo menos não assedia sexualmente subordinadas. Pelo menos não chuta as pessoas quando elas já estão no chão. Eu preferiria me casar com um aleijado honesto a continuar associada a animais bem-vestidos como vocês por mais um segundo.”

O rosto de Richard ficou roxo. Ele tentou agarrar meu pulso, mas me desvencilhei, juntando minhas coisas.

Saí do escritório de cabeça erguida, finalmente livre.


De volta ao nosso apartamento, fiquei encarando as contas médicas da mamãe, enquanto a ansiedade começava a crescer.

Como eu pagaria o tratamento do mês que vem?

Meu celular vibrou — notificação de transferência recebida. 50.000 dólares. Descrição: “Adiantamento de bolsa de ensaio clínico — Cedars-Sinai Medical Center.”

Liguei para o hospital, confusa. “Minha mãe foi inscrita em um novo ensaio clínico de terapia-alvo. O tratamento está totalmente coberto.”

“Mas eu nunca fiz inscrição…”

“O caso dela foi sinalizado automaticamente. Você teve muita sorte. Só havia cinco vagas disponíveis, e a medicação custa mais de 150.000 dólares por mês.”

Desliguei, com a mente a mil. Aquilo era conveniente demais. Perfeitamente oportuno demais. Julian.

Ethan me trouxe macarrão instantâneo. “Você realmente não se arrepende de ter saído?”

“Não. Algumas coisas importam mais do que dinheiro.”

Ele ficou em silêncio por um momento. “Esse tal de Julian… ele te trata bem?”

Pensei nas mensagens preocupadas de Julian, na forma como eu o tinha defendido hoje sem nem pensar. “Ele é… decente. Honesto, pelo menos.”

Julian

Fiquei encarando meu laptop na suíte do hotel em Taipei. As imagens de segurança do meu contato na Goldman chegaram em menos de uma hora.

Vi ela jogar o café. Vi o terno caro de Richard pingar humilhação.

Revi o vídeo. De novo.

Ela tinha me defendido. Mesmo quando o saguão inteiro zombava dos rumores — o aleijado, o falido, o inútil — ela tinha me defendido.

Peguei o celular.

“Acelere as contratações da Astor Capital. O currículo da srta. Harrison terá prioridade assim que chegar.” Nem esperei confirmação. “Os projetos-chave de Richard Carter — cortem todos. Deixem-no sangrar até secar em quarenta e oito horas.”

Minha voz ficou ainda mais fria. “E Mia Sterling. Eu quero tudo. Cada segredo, cada dívida, cada mentira. Na minha mesa até amanhã de manhã.”

Encerrei a ligação e olhei de novo para a tela.

Para minha esposa saindo de cabeça erguida.

Ela não fazia ideia do que estava por vir.

Mas nunca mais lutaria sozinha.

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