Capítulo 7 Estou com medo de que agora você o tenha, você não precise mais de mim

Chloe

Meu celular vibrou na tarde seguinte. Olhei para a tela — Phil Carrington, The Abyss.

Meu estômago se contraiu. Phil nunca ligava a menos que houvesse um problema.

— Srta. Harrison? Aqui é Phil Carrington, gerente do The Abyss. Estou ligando para informar que todos os seus turnos agendados foram cancelados, com efeito imediato.

As palavras me atingiram como um golpe físico.

— O quê? Phil, por quê?

— Recebemos uma reclamação de um dos nossos clientes mais importantes — um senhor muito poderoso, com influência considerável em Los Angeles. Ele deixou bem claro que, se continuarmos a empregar você, vai nos colocar na lista negra de todos os grandes estabelecimentos daqui até San Diego.

Minhas mãos ficaram geladas. Richard. Tinha que ser Richard.

— Phil, por favor. Eu preciso desse emprego...

— Sinto muito mesmo, Chloe, mas minhas mãos estão atadas.

A linha caiu.

Fiquei olhando para o celular, a raiva se acomodando no meu peito como água gelada. Goldman tinha acabado. O clube tinha acabado. E, com a rede de contatos de Richard, quem ousaria me contratar?

Peguei minha jaqueta e fui para o The Abyss.


Phil ergueu os olhos quando entrei no escritório dele.

— Chloe, não esperava que você viesse pessoalmente. Sinto muito de verdade, mas esse cliente poderia acabar com a gente com um único telefonema.

— Me deixa falar com ele. Me deixa explicar...

As portas da entrada se escancararam.

Uma silhueta alta surgiu, recortada pela luz da rua, movendo-se com uma graça predatória. Quatro homens de terno escuro o ladeavam.

Julian.

Mas não o meu Julian. Este Julian usava um terno grafite, e sua presença preenchia o espaço com uma autoridade esmagadora.

Os olhos âmbar dele varreram o ambiente antes de pousarem em mim, algo feroz e possessivo brilhando em suas profundezas.

Phil tinha empalidecido.

— Sr. Astor, eu... não estávamos esperando...

Julian o ignorou e veio direto até mim. Parou bem perto, inclinando-se para murmurar no meu ouvido:

— Eu disse que havia uma coisa que você precisava me contar se não conseguisse lidar com isso. Agora eu estou aqui.

Sem pensar, segurei a mão dele. Os dedos dele se fecharam em volta dos meus imediatamente.

Julian se virou para Phil, a voz fria como gelo.

— Quem lhe deu permissão para demitir minha esposa?

A boca de Phil abriu e fechou.

— Sua esposa? Sr. Astor, eu não fazia ideia...

Julian puxou o telefone, ativou o viva-voz.

— Aqui é Astor. Com efeito imediato, Richard Carter está permanentemente na lista negra de todas as propriedades da Astor Capital. Avisem o compliance da Goldman que estamos nos retirando da fusão com a Wilson até que resolvam o problema de assédio.

— E o Phil? Suspensão de três meses sem bônus por não verificar as alegações antes de demitir minha esposa.

A ligação foi encerrada com um clique. Phil parecia enjoado.

Julian se virou para mim, a expressão suavizando.

— Vamos.

Lá fora, arranquei minha mão da dele.

— Que porra é essa? Você deveria estar em Taipei! Como sabia que eu estava aqui?

— Eu sempre soube do seu segundo emprego. Dos seus horários, dos seus trajetos. Tenho acesso aos seus dados de localização, aos seus registros financeiros. A tudo.

— Você estava me espionando?

Claro que estava. Eu não sou a esposa dele — sou o investimento dele.

— Protegendo. — Ele deu um passo à frente, me encurralando contra a parede, com as mãos apoiadas de cada lado sem me tocar.

— Porque, se eu não estivesse, não teria descoberto que Richard estava chantageando você com fotografias. Não teria sabido da ameaça da casa de praia.

— Não posso continuar aceitando a sua ajuda. Era para isso ser uma transação.

Pelo menos um de nós se lembra do que isso realmente é.

— Você não me deve nada. — A mão dele envolveu meu rosto. — Sou seu marido. Proteger você não é uma dívida — é o que eu devo fazer.

Marido. A palavra pareceu uma mentira. Minha mãe está morrendo. Eu preciso do dinheiro dele, do poder dele. Ele não precisa de mim — sou apenas a opção conveniente que estava desesperada o bastante para dizer sim.

— Amanhã de manhã, o RH da Astor Capital vai ligar para você. Vão oferecer uma entrevista para analista júnior. Não estou lhe dando o emprego — você vai conquistá-lo. Nosso processo seletivo é mais difícil que o da Goldman. Mas eu prometo uma chance justa.

Um Rolls-Royce parou diante de nós.

— Vamos. Vou levar você para casa.


Do lado de fora do nosso apartamento, vi Ethan sob a luz do poste — alto, braços cruzados, o rosto carregado.

Julian desceu, segurando minha mão.

Ethan caminhou na nossa direção, o maxilar travado, os olhos em chamas, com uma raiva mal contida.

— Você tá bem? — ele me perguntou, ignorando Julian por completo.

— Tô bem. Ethan, esse é—

— Eu sei quem ele é. — A voz de Ethan saiu fria, desafiadora. — Obrigado por trazê-la pra casa. Daqui eu cuido.

O aperto de Julian na minha mão se intensificou levemente.

— Ela é minha esposa. Minha responsabilidade agora.

Responsabilidade. Não amor, não escolha.

— Sua responsabilidade? — A risada de Ethan foi cortante, debochada. — Onde você tava quando ela tava sendo assediada no trabalho? Quando ela trabalhava em dois empregos só pra sobreviver? Eu cuido da minha irmã muito antes de você aparecer com seus ternos caros e dinheiro.

— Ethan, para— — eu comecei.

Julian avaliou Ethan com olhos calculistas.

— Você tem razão. Eu não sei tudo sobre o passado dela. Mas eu sei que ela é forte o bastante pra fazer as próprias escolhas.

— E você acha que ela escolheu você? — O sorriso de Ethan era amargo. — Isso aqui é só negócio, não é? Algum acordo de casamento arranjado. Não finge que é mais do que isso.

As palavras doeram, embora ecoassem os meus próprios pensamentos. A expressão de Julian se fechou um pouco, mas ele não negou.

— O que existe entre a sua irmã e eu é exatamente isso — entre nós —, — disse Julian em voz baixa e, então, virou-se para mim. — Você está pronta para entrar?

— Sim.

O maxilar de Ethan se contraiu enquanto ele encarava Julian.

— Tá. Mas a família vem em primeiro lugar, Chloe. Não esquece disso. — Ele saiu a passos duros em direção ao prédio, sem olhar de novo para Julian.

Julian acompanhou com o olhar.

— Ele é protetor.

— Ele foi tudo o que eu tive por tanto tempo. Isso é difícil pra ele.

Julian assentiu e depositou um beijo rápido na minha têmpora.

— Eu devo ir.


Uma hora depois de Julian ir embora, Ethan apareceu no meu quarto com duas cervejas na mão.

O jovem desafiador e furioso lá de fora tinha sumido. Os ombros estavam caídos, o rosto exausto e vulnerável.

— Posso entrar? — A voz dele saiu baixa.

Eu assenti. Ele se sentou pesadamente na beira da minha cama.

— Eu odeio ele — sussurrou, com mais dor do que raiva na voz. — Eu odeio que ele consegue consertar tudo com uma ligação quando eu nem consigo te proteger de um chefe babaca qualquer.

— Ethan—

— Não, deixa eu falar. — A voz falhou um pouco. — Eu tô tentando tanto cuidar de você, mas toda vez que eu tento ajudar, eu só pioro as coisas. O Richard foi pra cima de você por minha causa. Eu sou inútil.

As lágrimas se acumularam nos olhos dele.

— Eu vi o jeito que você olhou pra ele hoje. O jeito que você segurou a mão dele, confiou nele na hora. Você nunca olhou pra mim assim. Como se eu realmente pudesse te salvar de alguma coisa.

— Você é minha família — eu disse, firme. — Isso importa mais do que qualquer coisa.

Algo desesperado cintilou no olhar dele.

— Importa? Mesmo? Porque parece que ele já me substituiu. Eu tô com medo, Chloe. Tô com medo de que agora que você tem ele, não vai mais precisar de mim.

Eu o puxei para um abraço, sentindo ele tremer de leve.

— Você é meu irmão. Nada pode mudar isso ou tirar isso de nós.

— Promete pra mim — ele resmungou contra o meu ombro. — Promete que, não importa o que aconteça com ele, a família vem em primeiro lugar. Que eu ainda vou ser o mais importante.

— Eu prometo. Família em primeiro lugar, sempre.

— Eu preciso ficar mais forte — ele disse, baixinho. — Eu preciso me tornar alguém que realmente consiga cuidar de você.

As mãos dele se fecharam em punhos.

— Só... não esquece de mim enquanto eu tô tentando descobrir como fazer isso, tá? Não deixa ele fazer você esquecer que eu te amo mais do que qualquer um jamais poderia.

Meu celular vibrou. Uma mensagem de Julian: “A entrevista é às 9h amanhã. Vista o que te fizer se sentir poderosa. Você vai ser brilhante.”

Ethan viu eu lendo.

— Ele é perigoso, sabia. Ele olha pra você como se você já fosse dele. Como se não fosse uma questão de se, mas de quando.

— É só um acordo—

— Não é, não. — A voz de Ethan saiu baixa, mas certeira. — E lá no fundo você sabe disso também. Só lembra do que eu disse. Família em primeiro lugar. Eu vou estar aqui sempre, não importa o quê. Mesmo quando todo mundo for embora.

Depois que ele saiu, eu fiquei sozinha com as palavras dele.

Eu tenho sido indesejada e descartável por tanto tempo — por que agora seria diferente? Pelo menos desta vez, a minha humilhação serve a um propósito.

Eu sou uma atriz na vida do Julian, não uma participante de verdade. E atrizes não têm finais felizes — elas só recebem o pagamento.

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