Chapter 1

O testamento de Alberto Valença foi lido numa sala fria, com vista para a Arena Horizonte e para um céu de São Paulo que parecia feito de chumbo.

Marina ficou de pé atrás da cadeira do pai, porque sentar nela antes da leitura pareceria arrogância. Pelo menos era isso que Otávio Bellini queria que ela pensasse. O presidente do conselho ocupava a ponta da mesa como se já fosse dono de tudo: o clube, o grupo, os contratos de transmissão, até o silêncio dos advogados.

Do outro lado do vidro, o letreiro dos São Paulo Titãs brilhava sobre a entrada principal da arena. Marina conhecia cada rachadura daquele prédio, cada dívida escondida em relatório bonito, cada patrocinador que ameaçava sair quando a equipe perdia duas partidas seguidas. Para a imprensa, ela era a filha do dono, a mulher de vestido caro no camarote. Para o pai, nos últimos meses de hospital, ela tinha sido a única pessoa capaz de ler as planilhas sem desviar os olhos.

O advogado pigarreou.

-- Pela disposição final do senhor Alberto Valença, quarenta e seis por cento das ações ordinárias do Grupo Horizonte permanecem destinados à senhora Marina Valença, desde que a sucessora cumpra a cláusula de estabilidade familiar antes da próxima assembleia extraordinária.

Marina ergueu o rosto.

-- Estabilidade familiar?

Uma conselheira desviou o olhar. Outro homem mexeu no relógio. Otávio apenas sorriu, baixo, como quem já tinha ensaiado a cena.

O advogado continuou:

-- A cláusula exige que a herdeira esteja legalmente casada no prazo de dez dias, sob pena de conversão temporária de seus direitos de voto ao conselho fiduciário.

Por um segundo, o ar sumiu da sala.

Dez dias.

Casada.

Ou o conselho assumiria os votos que eram dela.

Marina sentiu o couro da cadeira tocar seus dedos. Era a cadeira do pai. Ela tinha visto Alberto assinar empréstimos pessoais para pagar salário atrasado de preparadores físicos. Tinha visto ele vender um terreno de família para manter a base sub-17 funcionando. E agora, morto havia cinco dias, ele a deixava presa a uma cláusula que parecia escrita para destruí-la.

-- Meu pai jamais colocaria o clube na mão de um casamento improvisado -- ela disse.

Otávio inclinou a cabeça.

-- Seu pai colocou o clube nas mãos de estabilidade, Marina. Algo que, convenhamos, o mercado ainda não enxerga em você.

Ela virou os olhos para ele.

-- Mercado ou conselho?

-- Os dois, quando a situação é séria.

Um dos diretores, Sérgio Mota, soltou um riso curto.

-- A imprensa já está tratando você como uma herdeira decorativa. Os patrocinadores ligaram hoje cedo. Querem garantias de que os Titãs não serão administrados por emoção.

Herdeira decorativa.

A palavra caiu no centro da mesa como uma taça quebrada. Marina não se moveu. Aprendera com o pai que, em sala de conselho, quem sangrava primeiro perdia.

-- Curioso -- ela disse. -- Emoção foi o nome que vocês deram quando eu identifiquei a cláusula de reajuste abusiva no contrato da Vértice Telecom? Ou quando renegociei a dívida de curto prazo que vocês tinham escondido no anexo quatro?

O sorriso de Sérgio sumiu.

Otávio bateu de leve com os dedos na pasta diante dele.

-- Ninguém está negando sua capacidade com números. O problema é confiança pública. A franquia está em semifinal, a Liga está negociando transmissão internacional, e Rafael Duarte é hoje o maior ativo comercial do clube. Qualquer instabilidade no controle aciona multas, queda de patrocínio e pânico de mercado.

Rafael.

Até o nome dele mudou a temperatura da sala.

Rafael Duarte, armador titular dos Titãs, ídolo nacional, contrato milionário, campanhas internacionais, rosto de relógio, banco digital e bebida esportiva. O homem que valia uma franquia, como Bianca Torres repetia toda semana em seu programa esportivo.

Marina o conhecia melhor do que ele imaginava.

Três anos antes, Rafael quase perdera a carreira num acidente dentro do centro de treinamento. Ela ainda lembrava do cheiro de metal queimado, do peso de uma estrutura cedendo, do grito de alguém chamando por socorro. Lembrava também do próprio pulso preso, da dor branca, da decisão de esconder seu nome na autorização da fundação que pagou a cirurgia dele.

Rafael nunca soube.

E Marina pretendia manter assim.

-- Por que o nome dele está nesta conversa? -- ela perguntou.

Otávio abriu a pasta. Tirou uma folha, virou-a na direção dela.

-- Porque existe uma solução que estabiliza voto, mídia, torcida e patrocinador ao mesmo tempo.

Marina olhou para o documento. Um memorando. Não assinado, mas bem escrito demais para ser apenas uma sugestão.

União civil estratégica entre a herdeira controladora e o principal atleta da franquia.

Ela soltou uma risada sem humor.

-- Vocês querem que eu me case com Rafael Duarte.

-- Queremos que você salve o clube -- Otávio corrigiu. -- Se ele aceitar, os patrocinadores ficam. A torcida compra a narrativa. A Liga entende continuidade. E você mantém seus votos.

-- Isso não é continuidade. É chantagem com verniz jurídico.

-- É governança.

Marina pegou o memorando e rasgou ao meio. O barulho atravessou a sala.

-- Rafael jamais aceitaria.

Otávio não pareceu preocupado.

-- Ele aceitará se entender o que está em jogo.

A porta da sala se abriu antes que Marina respondesse.

Rafael Duarte entrou ainda de roupa de treino, camiseta escura colada nos ombros, gelo preso ao joelho por uma faixa, o rosto fechado como se tivesse sido arrancado da quadra contra a própria vontade. Atrás dele vinha seu empresário, pálido.

O olhar de Rafael encontrou Marina. Não havia curiosidade ali. Só defesa.

-- Espero que isso seja uma piada -- ele disse.

Otávio abriu as mãos.

-- Rafael, obrigado por vir. Precisamos discutir uma medida emergencial.

-- Medida emergencial? -- Rafael deu um passo para dentro. -- Meu agente acabou de me dizer que o conselho quer usar meu contrato para me transformar em marido de vitrine.

Marina sentiu a frase bater nela, mas não baixou os olhos.

-- Eu não pedi isso.

Rafael a encarou.

-- Claro que não. Herdeiros não pedem. Mandam alguém pedir.

O golpe foi baixo o suficiente para arrancar um murmúrio da mesa. Marina respirou devagar.

-- Cuidado, Rafael.

-- Com o quê? Com a nova dona do meu passe?

-- Eu não sou dona de você.

-- Ainda.

Otávio levantou-se.

-- Todos aqui precisam pensar no clube.

Rafael soltou uma risada fria.

-- Eu penso no clube quando jogo com dor, quando faço coletiva depois de derrota, quando vendo camisa até para quem nem assiste basquete. Não quando vocês decidem que minha vida pessoal é uma cláusula de patrocínio.

Marina olhou para o joelho dele, para a faixa de gelo. Uma lembrança antiga apertou seu pulso machucado.

-- Rafael, eu também estou sendo pressionada.

Ele se aproximou da mesa, mas não dela. Sua raiva tinha endereço certo e, ainda assim, a atingia.

-- Você tem ações, advogados e sobrenome. Eu tenho uma carreira que quase acabou uma vez e que vocês querem colocar numa gaiola.

-- Se eu perder meus votos, Otávio controla o grupo -- Marina disse. -- E talvez venda os Titãs.

Por um instante, algo passou pelo rosto dele. O clube importava. Claro que importava. Rafael tinha voltado de uma lesão impossível usando aquela camisa. Tinha se tornado mito ali.

Mas a expressão dele endureceu de novo.

-- Então arrume outro salvador.

Otávio fechou a pasta.

-- Seu contrato prevê aprovação do conselho para transferências internacionais e campanhas vinculadas à imagem da franquia. Sem estabilidade de controle, tudo pode ser congelado.

Rafael virou-se lentamente para ele.

-- Você está me ameaçando?

-- Estou explicando riscos.

Marina viu, naquele segundo, o tamanho da armadilha. Otávio tinha colocado os dois dentro do mesmo incêndio e entregado um fósforo a cada um.

Rafael apontou para ela.

-- Eu não vou pagar pela cláusula absurda do pai dela.

-- Eu também não escolhi isso -- Marina disse.

Ele a olhou como se ela fosse a mentira mais elegante da sala.

-- Então prove. Recuse.

Ela não respondeu.

Porque recusar significava entregar o clube.

Rafael entendeu o silêncio antes de todos. Seu maxilar travou. Quando falou, a voz saiu baixa o bastante para doer.

-- Eu prefiro ser negociado amanhã a me casar com você.

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