Chapter 2
A frase de Rafael saiu nos portais esportivos antes que ele chegasse ao vestiário.
Ninguém sabia do testamento, nem da cláusula, nem da proposta indecente do conselho. Mas alguém vazou o suficiente para transformar a recusa em manchete: RAFAEL DUARTE REJEITA ACORDO COM HERDEIRA DOS TITÃS E PODE DEIXAR O CLUBE.
Marina leu a notificação no elevador privativo, cercada por espelhos que devolviam uma mulher mais calma do que ela se sentia. O celular vibrou de novo. Patrocinador. Depois outro. Depois o diretor financeiro que fingira não saber de nenhuma dívida estranha.
Quando as portas abriram na garagem, Otávio estava esperando.
-- Você viu?
-- Vi que alguém aqui trabalha rápido com a imprensa.
Ele não negou.
-- A instabilidade já começou. A Vértice quer reunião em duas horas. A BlueBank pediu garantia de permanência do Rafael. Se eles saírem, o fluxo de caixa do trimestre quebra.
Marina caminhou até o carro.
-- Que conveniente.
-- Conveniente seria você entender que o mundo não espera seu luto terminar.
Ela parou. O motorista fingiu não ouvir.
-- Meu pai morreu há cinco dias, Otávio.
-- E deixou uma empresa com vencimentos em quinze.
Marina virou-se para ele.
-- Você fala como se tivesse descoberto esses vencimentos ontem. Mas assinou todos eles.
O sorriso dele ficou estreito.
-- Assinei dentro de uma estratégia aprovada.
-- Aprovada por homens que agora fingem que eu sou o risco.
-- Você é o rosto do risco, Marina. Isso basta para o mercado.
Ela entrou no carro sem responder. Pela janela escura, viu a arena se afastar e sentiu a raiva se organizar em algo mais útil.
Se Rafael achava que ela tinha pedido aquele casamento, precisava saber a verdade. Não toda. Nunca a parte da cirurgia. Mas precisava entender que os dois eram peças na mesma mesa.
Ela mandou uma mensagem para o agente dele.
Preciso falar com Rafael. Sem conselho. Sem imprensa.
A resposta veio vinte minutos depois:
Ele disse não.
Marina quase riu. Claro.
Então foi ao único lugar onde Rafael não podia fugir sem criar nova manchete: o centro de treinamento.
O treino estava fechado, mas ninguém impediu a entrada dela. Ainda. No corredor de acesso à quadra, o som da bola batendo no piso vinha seco, rápido, furioso. Rafael treinava arremessos sozinho, cada movimento preciso como uma resposta que ele não queria dar.
-- Cinco minutos -- Marina disse.
A bola entrou limpa. Ele pegou outra.
-- Meu contrato não inclui conversar com você fora de reunião.
-- Ainda bem. Eu também não cobro por ouvir grosseria.
Rafael arremessou de novo. Cesta.
-- Você tem quatro minutos.
Marina atravessou a lateral da quadra, mantendo distância.
-- Otávio está usando a cláusula contra mim e seu contrato contra você. Se eu não me casar, perco o voto. Se você não aceitar, ele congela suas campanhas, segura qualquer negociação e culpa você pela crise.
-- Isso é problema do conselho.
-- É problema seu quando o conselho decide vender o clube para um fundo que quer cortar salário, base e comissão técnica.
Ele pegou a bola com força.
-- Você quer que eu acredite que se importa com a base?
Marina não respondeu de imediato. Pensou em João, ala de dezesseis anos que quase largou o projeto porque a mãe não podia pagar ônibus. Pensou no relatório que ela escondia do conselho, com patrocinadores locais prontos para bancar bolsas se a dívida de curto prazo fosse renegociada.
-- Eu sei quantas cestas a base precisa trocar antes da próxima seletiva -- ela disse. -- Sei que o alojamento tem infiltração no terceiro andar. Sei que o contrato de alimentação foi superfaturado em dezessete por cento. Quer que eu continue?
Rafael ficou em silêncio.
Ela aproveitou.
-- Eu não quero um marido. Quero dez dias para impedir que Otávio tome o controle.
-- E eu viro o quê? Seu carimbo público?
-- Você vira a única pessoa com força suficiente para impedir a sangria.
Ele riu sem alegria.
-- Bonito. Você treinou isso com sua assessoria?
-- Eu vim sozinha.
-- Ninguém como você vem sozinha.
A frase acertou, mas Marina não deixou aparecer.
-- O contrato pode ter limites. Sem convivência forçada. Sem interferência na sua carreira. Sem obrigação pessoal além das aparições necessárias. Prazo de seis meses ou até a estabilidade acionária ser reconhecida.
Rafael se aproximou. De perto, ele parecia ainda mais cansado do que nas telas. Havia olheiras discretas, o tipo de fadiga que fama nenhuma escondia.
-- Você já trouxe o contrato pronto?
-- Trouxe uma proposta.
-- Claro que trouxe.
-- Se preferir, seus advogados reescrevem.
-- Eu prefiro não casar com uma mulher que acha normal negociar vidas como ativos.
Marina fechou os dedos.
-- Eu acho normal proteger aquilo que meu pai deixou.
-- Seu pai deixou uma armadilha.
-- Sim -- ela disse, antes que a dor virasse fraqueza. -- E eu estou tentando sair dela sem destruir o clube que você diz amar.
Rafael desviou o olhar primeiro. Pequena vitória. Pequena demais.
O agente dele apareceu na porta, celular na mão e rosto tenso.
-- Rafa, precisamos conversar.
-- Agora não.
-- Agora. Otávio notificou formalmente a suspensão preventiva das suas campanhas vinculadas à marca Titãs até a assembleia.
Rafael congelou.
Marina sentiu o estômago afundar. Otávio não estava ameaçando. Estava executando.
O agente continuou:
-- A marca de relógios quer saber se você ainda pode usar o uniforme na peça global. Se não puder, eles pausam o pagamento.
Rafael passou a mão pelo rosto.
-- Filho da...
-- Ele também convocou coletiva para hoje à noite -- o agente disse. -- Vai falar de instabilidade sucessória.
Marina pegou o celular. Outra notificação. Bianca Torres anunciava uma edição especial: O futuro de Rafael Duarte e a crise da herdeira Valença.
Tudo cronometrado.
-- Ele quer nos colocar contra a parede em público -- Marina disse.
Rafael olhou para ela.
-- Nos?
-- Você sozinho parece rebelde. Eu sozinha pareço incapaz. Juntos, pelo menos interrompemos a narrativa.
-- Juntos? -- Ele disse a palavra como se fosse veneno.
Marina sustentou o olhar.
-- Uma coletiva curta. Anunciamos um noivado. Dizemos que a união preserva a independência da gestão e o foco nas Finais do Campeonato. Depois seus advogados destroem cada cláusula abusiva do contrato.
-- Você fala como se isso fosse só agenda.
-- Se eu falar como se fosse humilhação, você aceita?
O silêncio dele respondeu antes da boca.
Não.
Rafael olhou para a quadra vazia, para a camisa dos Titãs pendurada numa cadeira, para o joelho enfaixado. Marina viu o conflito atravessar seu rosto. O homem odiava ser usado, mas odiava ainda mais ver o clube sangrar.
-- Se eu aceitar -- ele disse --, será só no papel.
-- É tudo que estou pedindo.
-- Você não toca na minha carreira.
-- Não toco.
-- Não usa minha imagem para limpar o nome do conselho.
-- Eu quero derrubar o conselho.
Ele a encarou, surpreso apesar de si mesmo.
-- E, quando isso acabar, divórcio imediato -- Rafael completou.
Marina sentiu uma pontada estranha. Não era tristeza. Era o absurdo de se sentir rejeitada por um casamento que ela também não queria.
-- Divórcio imediato.
Às oito da noite, os dois apareceram lado a lado diante de vinte câmeras.
Marina usava um tailleur branco. Rafael, terno escuro e expressão de guerra. Otávio assistia do fundo da sala com a satisfação de quem acreditava ter vencido.
Marina foi a primeira a falar:
-- Pelo bem dos São Paulo Titãs e pela estabilidade do Grupo Horizonte, Rafael Duarte e eu decidimos formalizar nosso compromisso.
Os flashes explodiram.
Rafael pegou o microfone.
-- Meu foco continua sendo a equipe, as Finais e a torcida. A decisão é privada, mas também responsável.
Bianca Torres levantou a mão.
-- Rafael, você está dizendo que ama Marina Valença?
Marina prendeu a respiração.
Rafael olhou para ela por um segundo. O público veria um noivo contido. Marina viu o homem assinando uma sentença.
-- Estou dizendo que cumprirei o que foi acordado.
Mais flashes. Mais murmúrios.
Mais tarde, numa sala menor, os advogados colocaram o contrato sobre a mesa. Marina assinou primeiro. Sua mão não tremia.
Rafael pegou a caneta depois. Antes de assinar, olhou para ela. Não havia desejo, nem parceria, nem confiança. Só uma acusação muda.
Como se Marina tivesse comprado a vida dele.
