Chapter 3

O casamento aconteceu numa manhã de quarta-feira, sem igreja, sem flores e sem família suficiente para fingir alegria.

O cartório escolhido ficava perto da Avenida Paulista, discreto o bastante para receber empresários em fuga da imprensa e importante o bastante para que a certidão saísse no mesmo dia. Do lado de fora, repórteres disputavam espaço na calçada. Do lado de dentro, Marina assinava papéis como quem assinava contratos de dívida: lendo cada linha, procurando a lâmina escondida.

Rafael chegou no horário exato. Terno azul-marinho, rosto limpo, olhos inacessíveis. Não trouxe parentes. Só o agente e uma advogada. Marina também não trouxe ninguém além de Clara, sua assessora jurídica, que a abraçou rápido demais antes de entrar.

-- Você pode desistir -- Clara sussurrou.

Marina olhou para o celular. Quatro mensagens de patrocinadores. Uma do banco. Uma do diretor financeiro dizendo que Otávio havia marcado reunião para revisar poderes de assinatura.

-- Não posso.

A cerimônia civil durou menos de quinze minutos.

O escrevente falava de comunhão de vida com a voz de quem lia multa de trânsito. Marina repetiu as palavras necessárias. Rafael também. Quando chegou a hora das alianças, houve um segundo de hesitação tão pequeno que talvez ninguém percebesse.

Marina percebeu.

Rafael segurou sua mão como quem segurava porcelana alheia: sem brutalidade, sem afeto, com cuidado calculado para não parecer íntimo. A aliança deslizou pelo dedo dela. Fria. Pesada. Pública.

Quando ela colocou a dele, viu uma cicatriz fina no polegar de Rafael. Lembrou das mãos dele sangrando no centro de treinamento, três anos antes, tentando se arrastar para longe da estrutura que cedia.

O coração dela falhou uma batida.

-- Senhora Marina Duarte Valença? -- o escrevente perguntou, confundindo a ordem dos sobrenomes.

-- Valença -- ela corrigiu. -- Só Valença.

Rafael ergueu os olhos. Quase um sorriso, mas sem calor.

-- Pelo menos nisso estamos de acordo.

Do lado de fora, a coletiva improvisada virou espetáculo.

Bianca Torres estava na primeira fila, microfone vermelho, cabelo impecável, sorriso de quem sabia transformar silêncio em suspeita.

-- Marina, muita gente diz que esse casamento salva sua herança. O que Rafael ganha?

Marina manteve o rosto sereno.

-- Rafael ganha a garantia de que o clube pelo qual ele trabalha não será desmontado por interesses de curto prazo.

-- Não foi isso que perguntei.

Rafael deu um passo ao lado dela.

-- Então pergunte de outro jeito.

Bianca piscou, surpresa com o tom.

-- Rafael, você se sente usado?

Ele olhou para as câmeras. Marina sentiu o peso da resposta antes dela vir.

-- Eu me sinto responsável pelo meu time.

Não era defesa. Mas também não era ataque.

Por enquanto, bastava.

Depois da coletiva, eles seguiram para a Arena Horizonte. Otávio exigira fotos oficiais no camarote presidencial antes da partida daquela noite. Marina quis recusar. Rafael também. Nenhum dos dois tinha margem.

O camarote do pai ainda cheirava a madeira encerada e café forte. Marina entrou primeiro e parou por um instante. Sobre a estante, alguém havia deixado a foto de Alberto com Rafael após o primeiro título dos Titãs. Rafael sorria na imagem, mais jovem, o joelho intacto, os olhos sem aquela blindagem de hoje.

-- Seu pai gostava de troféus -- ele disse.

-- Gostava de gente que não desistia.

-- Por isso criou uma cláusula para obrigar a filha a se casar?

Marina virou-se para ele.

-- Eu não sei por que ele fez isso.

-- Você espera que eu acredite?

-- Eu espero que você leia os documentos antes de decidir quem sou.

Rafael soltou o ar.

-- Documentos podem ser preparados.

-- Traumas também. E nem por isso eles dizem a verdade inteira.

A frase saiu mais pessoal do que Marina pretendia. Rafael estreitou os olhos.

Antes que ele respondesse, Clara entrou com uma pasta.

-- Preciso da sua assinatura numa autorização de acesso provisório ao sistema financeiro. Otávio está tentando limitar sua senha à área institucional.

Marina pegou a caneta.

-- Ele não pode fazer isso sem ata.

-- Fez como medida de segurança.

-- Segurança para quem?

Ela assinou na mesa alta do camarote. A manga do blazer subiu com o movimento.

Rafael estava ao lado.

O olhar dele caiu no pulso dela.

Marina percebeu tarde demais.

A cicatriz cortava a parte interna do pulso esquerdo, irregular, pálida contra a pele. Normalmente ficava escondida por relógios ou mangas. Na correria do cartório, ela esquecera a pulseira.

Rafael ficou imóvel.

O ar entre eles mudou.

-- O que foi isso? -- ele perguntou.

Marina puxou a manga para baixo.

-- Nada.

-- Não parece nada.

-- Um acidente antigo.

-- Que tipo de acidente?

-- O tipo que não tem relação com este contrato.

Clara percebeu a tensão e saiu sem ruído. A porta fechou. Lá embaixo, a torcida começava a cantar, mas o camarote parecia isolado do mundo.

Rafael deu um passo mais perto. Não tocou nela. Mesmo assim, Marina sentiu o corpo inteiro reagir.

-- Quando?

-- Rafael.

-- Quando, Marina?

A voz dele tinha perdido a frieza. Havia outra coisa ali. Urgência. Medo.

Ela olhou para a janela.

-- Três anos atrás.

Rafael empalideceu.

Três anos.

O centro de treinamento.

A estrutura metálica.

A mulher que ele vira apenas por segundos entre dor e anestesia, uma mão ensanguentada pressionando o braço dele, uma voz dizendo para ele ficar acordado. Depois, a cirurgia paga por uma fundação anônima, os documentos selados, o silêncio. Ele procurara por meses. Nenhum nome. Nenhuma imagem clara. Só uma lembrança fragmentada: um pulso ferido, sangue na pele, uma cicatriz que ele imaginara mil vezes.

Marina viu a memória alcançá-lo.

-- Não -- ela disse, antes que ele perguntasse. -- Você está confundindo coisas.

-- Mostra seu pulso.

-- Não.

-- Marina.

Pela primeira vez, ele disse o nome dela sem acusação.

Isso foi pior.

Ela recuou.

-- A partida vai começar. Você precisa descer.

Rafael não se mexeu.

-- Quem pagou minha cirurgia?

O sangue dela gelou.

-- Não sei.

-- Mentira.

-- Você não tem direito de me interrogar.

-- E você tinha direito de esconder?

Marina fechou os olhos por um segundo. Quando abriu, voltou a ser a mulher que sobrevivera ao conselho.

-- Nosso acordo é simples. Eu protejo o clube. Você joga. O resto não entra.

O comunicador de Rafael apitou. Chamavam o elenco.

Ele continuou olhando para ela, como se a cicatriz tivesse aberto uma porta que Marina mantivera trancada por anos.

-- Depois da partida -- ele disse --, nós vamos conversar.

-- Não vamos.

Rafael caminhou até a porta, mas parou antes de sair.

-- A mulher que me salvou tinha uma marca exatamente aí.

Marina não respondeu.

E o silêncio dela foi a primeira confissão.

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