Capítulo 3 Seu silêncio quebrou meu coração

Os aplausos ecoaram dentro da minha cabeça como vidro estilhaçado.

Fiquei imóvel sobre o carpete, com a corda de veludo pressionando minha barriga, enquanto a sala comemorava a minha destruição. Tristan e Celeste deslizaram em direção ao palco. Moviam-se em perfeita sincronia. A multidão se abriu para eles, murmurando palavras de parabéns, erguendo taças de cristal cheias de champanhe dourado.

Cada passo que ele dava em direção àquele púlpito arrancava o oxigênio dos meus pulmões.

Esperei a piada. Esperei que ele parasse, que se virasse, que pegasse o microfone e dissesse à sala que aquilo era um engano. Agarrei o tecido do meu vestido, minhas unhas cravando nas palmas até a pele se romper. A corrente prateada em volta do meu pescoço parecia pesada, o anel de platina oculto queimando contra minha clavícula como uma marca.

Mantemos isso em segredo até o fim do trimestre fiscal. Depois, vou apresentar você ao mundo.

As promessas dele ecoavam nos espaços vazios da minha mente.

Eles chegaram aos degraus do palco. Tristan pousou uma mão na base das costas de Celeste, guiando-a para subir. O gesto era casual, treinado e íntimo. Era exatamente o jeito como ele costumava me conduzir pelas portas do nosso apartamento escondido.

Um fotógrafo na lateral do palco caiu de joelho, disparando uma sequência rápida de fotos. Os flashes banharam o casal numa luz dura, ofuscante. As letras iluminadas atrás deles se erguiam como uma lápide sobre o meu casamento.

Tristan subiu até o púlpito de acrílico. Ajustou o microfone. O guincho da microfonia cortou o salão de baile, silenciando a orquestra e o burburinho.

Quinhentas das pessoas mais poderosas da cidade voltaram a atenção para o homem que era dono do meu coração.

— Bem-vindos.

A voz dele ressoou pelos enormes alto-falantes. Era uma voz que comandava salas de reunião, uma voz capaz de derrubar o preço de uma ação com uma única sílaba. Não era a voz que sussurrava no meu ouvido no escuro. Aquele homem tinha sumido. No lugar dele estava o CEO implacável do Johnston Group, um homem feito de gelo e dinheiro antigo.

— O Johnston Group sempre priorizou a estabilidade — começou Tristan. O olhar dele varreu a multidão, como um rei avaliando sua corte. — Por quatro gerações, minha família construiu uma base alicerçada em confiança, avanço constante e alianças inquebráveis. Nós não nos adaptamos ao futuro. Nós o ditamos.

Na primeira fila, uma mulher mais velha, de cabelos cinza-ferro e postura imponente, ofereceu um único aceno de aprovação. Evelyn Johnston. A matriarca. Reconheci seus traços afiados das revistas de finanças. Ela era a guardiã do legado Johnston, uma mulher conhecida por destruir qualquer coisa que ameaçasse o status supremo da família. Ela olhou para Celeste, e seus olhos frios suavizaram para algo que lembrava orgulho.

Meu estômago se revirou. Aquilo não era só uma festa. Era uma coroação.

— Para garantir nossa próxima expansão europeia, precisamos de um parceiro que compartilhe nossa visão e nossa linhagem — Tristan continuou. As luzes do palco captaram os fios prateados do terno dele. — Esta noite, celebramos uma união que vai redefinir o mercado. Celebramos a fusão de dois grandes legados.

Ele virou a cabeça. Olhou para Celeste.

Ela deu um passo à frente, banhando-se no holofote. Apoiou a mão na borda do púlpito. O diamante no dedo anelar cintilou, uma pedra enorme, impecável, que praticamente gritava riqueza e permanência.

Um repórter de uma grande rede financeira se levantou no espaço reservado à imprensa, erguendo um gravador. — Sr. Johnston! O mercado vem especulando sobre isso há meses. O anel no dedo da Srta. Whitmore confirma os rumores de um noivado?

O salão de baile prendeu a respiração em uníssono.

Aquele era o momento. O segundo exato em que Tristan podia consertar tudo. Podia dizer que o anel era uma joia de família trocada como símbolo de confiança corporativa. Podia dizer que a parceria era estritamente profissional. Podia dizer a palavra não.

Tristan encarou o repórter. O rosto permaneceu uma máscara de indiferença impecável.

Então, ele ergueu o olhar. Olhou além dos repórteres, além das mesas da frente cheias de bilionários e políticos. Olhou direto para o fundo do salão.

Ele me encontrou.

Mesmo através da vasta extensão de rosas brancas e cristal, os olhos cinza-aço dele se prenderam aos meus. O barulho do ambiente se dissolveu num zumbido surdo, corrido. Só existia ele, sob as luzes fortes, e eu, me afogando nas sombras.

— As famílias Johnston e Whitmore estão entrando numa parceria permanente — Tristan disse ao microfone, sem tirar os olhos de mim. — Nossos futuros estão ligados. Não há linha que separe nossos negócios da nossa família.

Ele não disse a palavra casamento. Não disse a palavra noivado.

Mas também não negou.

Deixou a mentira de pé. Serviu-a à imprensa. Validou a suposição de quinhentas pessoas, oferecendo o próprio silêncio como a confirmação definitiva.

— Podemos esperar um casamento na primavera, Sr. Johnston? — outro repórter gritou por cima da súbita onda de aplausos.

Tristan quebrou nosso contato. Olhou para o púlpito, o maxilar se contraindo com tanta força que eu via o músculo tremular sob a pele. — Vamos anunciar o cronograma no momento oportuno. Obrigado. Aproveitem a noite.

Ele recuou do microfone. A multidão explodiu. Aplausos e gritos de celebração ecoaram no teto abobadado. O quarteto de cordas atacou uma valsa triunfante, envolvente. Garçons surgiram das laterais, carregando bandejas de champanhe recém-servido para brindar ao novo casal reinante do mundo financeiro.

Eu não conseguia respirar.

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