Capítulo 5

A porta se abriu de novo, e Olivia saiu, com a expressão indecifrável. Lorenzo veio logo atrás, com as feições cuidadosamente controladas.

— Vamos jantar na sala de jantar leste — anunciou Olivia, para que Ivy ouvisse. — Vamos ver como você se sai em uma refeição adequada da família Martinelli.

A sala de jantar da família era um espaço cavernoso dentro da mansão principal. Lustres de cristal pendiam do teto abobadado. Uma longa mesa de carvalho se estendia pelo cômodo, já posta com porcelana de bordas douradas e talheres de prata reluzentes. Criados de jaquetas brancas estavam em pé, em silêncio, espaçados pelo ambiente.

O jantar foi uma sinfonia de agressividade passiva. Entre os medalhões de vitela e o tiramisù, Olivia fez vários comentários carregados de indiretas sobre lealdade, legado e a importância de saber o seu lugar. Ivy respondeu com elegância e uma sagacidade velada, sem baixar a guarda em nenhum momento.

Era um jogo de xadrez mental, e ela começava a entender o quão altas eram as apostas.

Depois da refeição, Salvatore Martinelli, o patriarca da família, fez sua aparição. Empurrado em sua cadeira de rodas pela enfermeira, o velho homem impunha presença apesar da fragilidade. Seus olhos eram afiados, não deixavam passar nada.

— Ah — disse ele, com a voz rouca, quase um sussurro áspero. — A noiva.

Ivy se levantou e fez um aceno educado com a cabeça.

— Senhor.

— Me chame de Nonno — disse ele, jovialmente. — É assim que meus netos me chamam. Você é da família agora, não é?

— Sim, Nonno — respondeu Ivy, obediente.

— Bem-vinda à família, Ivy — disse Salvatore, depois de ocupar seu lugar na cabeceira da mesa.

— Agora você carrega nosso nome — continuou ele, em sua voz rouca. — E isso vem com privilégios e responsabilidades.

Ivy assentiu, sem saber se esperavam que ela respondesse.

Salvatore continuou:

— Tenho um presente para você, minha querida. Um pequeno incentivo, digamos.

O silêncio caiu sobre o salão. Dava para ouvir um alfinete cair.

Salvatore prosseguiu:

— Se dentro de um ano você der um herdeiro a esta família, receberá o porta-joias da minha falecida esposa.

Houve uma inspiração brusca. A taça de vinho de Olivia parou no meio do ar, o garfo de Isabella bateu alto no prato, e Giulia revirou os olhos de forma dramática.

O coração de Ivy disparou.

— Isso é... muito generoso — gaguejou.

Salvatore sorriu de leve.

— Família é tudo. Precisamos garantir nosso legado.

O maxilar de Lorenzo se contraiu.

— Nonno, isso não é necessário.

— É, sim — retrucou o velho. — É tradição.

O resto do jantar foi tenso. A comida era requintada, mas Ivy mal conseguia sentir o gosto. Cada palavra de Olivia e de suas filhas vinha carregada de insultos velados.

— Então, Ivy — disse Isabella, enxugando os lábios com o guardanapo —, onde foi mesmo que você estudou?

— Não estudei — respondeu Ivy, tentando manter a voz estável. — Saí da escola aos dezesseis.

— Ah — disse Giulia, com falsa simpatia. — Que pena, mas nem todo mundo leva jeito para os estudos, não é?

Olivia interveio friamente:

— Vamos ter que trabalhar suas maneiras. A esposa de um Martinelli deve refletir o status da família.

Ivy sentiu o calor subir pelas faces, mas forçou um sorriso.

— Eu aprendo rápido — disse ela, tensa.

Lorenzo permaneceu calado durante quase toda a refeição, lançando de vez em quando um olhar para ela que podia significar qualquer coisa. Ivy não sabia se ele estava constrangido com a forma como a família a tratava ou se simplesmente era indiferente.

Depois da sobremesa, Salvatore ergueu a taça. “À nossa nova noiva. Que ela dê à luz a próxima geração dos Martinelli.”

Ivy bebeu um gole de vinho automaticamente, ciente de todos os olhos voltados para ela. No instante em que o brinde terminou, Olivia se levantou.

“Venham, meninas. Acho que já suportamos formalidade demais por uma noite”, disse ela, friamente.

As três mulheres se levantaram e saíram da sala, os saltos ecoando sobre o mármore. Lorenzo permaneceu sentado, girando o vinho na taça.

“Você lidou bem com isso”, disse ele em voz baixa.

Ivy olhou para ele, com uma expressão cautelosa. “Elas me odeiam.”

Ele não negou. “Vão se acostumar com você. Ou não. Não importa.”

“Importa para mim”, disse Ivy.

Pela primeira vez, ele sustentou o olhar dela com algo próximo da vulnerabilidade. “Tente não levar para o lado pessoal. Nesta família, respeito se conquista.”

Ivy assentiu devagar. “Então eu vou conquistá-lo”, prometeu.

Um lampejo de algo atravessou o rosto de Lorenzo: respeito? Surpresa? Ivy não soube dizer. Ele se levantou e lhe ofereceu a mão.

“Venha. Vou lhe mostrar seu quarto.”

A suíte de Ivy ficava no terceiro andar da ala oeste. Era ornamentada, enorme e sufocantemente silenciosa. O fogo crepitava na lareira de mármore.

Uma cama king-size com dossel dominava o quarto, coberta de seda. As janelas francesas davam para o vinhedo. Lorenzo lhe mostrou tudo sem muita cerimônia.

“Isto é seu”, disse ele. “Se precisar de qualquer coisa, chame Anna. Ela vai cuidar disso.”

Ivy o seguiu quando ele se virou para sair. “Espere. Você não vai... ficar?”

Lorenzo hesitou à porta. “Não. Vou ficar no meu quarto. É do outro lado do corredor. Vamos fazer isso um passo de cada vez.”

Ivy assentiu, embora a decepção se retorcesse em seu peito.

“Boa noite, senhora Martinelli”, disse ele, antes de fechar a porta atrás de si.

Ivy ficou ali por um instante, em um quarto cheio de luxo, mas frio como gelo.

Um passo de cada vez, pensou.

Vou sobreviver a isso, assegurou a si mesma. Assim como sobrevivi a todo o resto.

Na manhã seguinte, a luz do sol atravessou as janelas do chão ao teto como ouro líquido, arrancando Ivy de um sono inquieto. Ela piscou para o teto desconhecido, ornamentado com molduras sutis e banhado em um branco suave.

Por um momento, achou que tudo aquilo fosse um sonho — até virar a cabeça e ver a chaise longue de veludo, o buquê fresco de orquídeas brancas sobre a mesa de cabeceira e o contorno tênue de seu vestido de noiva pendurado no armário.

Ela estava na propriedade dos Martinelli. Estava casada. E estava sozinha.

A suíte estava inquietantemente silenciosa. Ivy se sentou devagar, e os lençóis de seda deslizaram por sua pele como água. Ela nunca havia dormido em algo tão macio, nunca soubera como era estar cercada por tanta extravagância. Até o ar ali tinha cheiro de riqueza, como lavanda e dinheiro.

Quando seus pés descalços tocaram o chão aquecido, Ivy sentiu o eco de sua antiga vida puxando-a de volta. Em seu apartamento minúsculo, ela acordava com o ranger do ventilador de teto e o choro distante do bebê da vizinha. Ali, o silêncio era um tipo de ruído por si só… limpo demais, calculado demais.

Uma batida suave interrompeu seus pensamentos. Ivy rapidamente pegou o robe sedoso jogado sobre uma cadeira próxima para se cobrir.

“Entre”, chamou ela, apertando o robe macio ao redor do corpo.

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