Capítulo 1 O Gosto do desespero
Capítulo 1: O Gosto do Desespero
Pov Aline
O som da chuva congelante batendo contra a janela rachada do quarto era o único ritmo que me mantinha acordada. Naquela noite, o frio de São Paulo parecia ter entrado direto nos meus ossos.
Olhei para o colchão ralo no chão, onde Léo, meu irmão de quatro anos, dormia encolhido. Suas bochechas estavam coradas, não de saúde, mas da febre baixa que insistia em não ceder por causa da umidade do cortiço.
— Vai ficar tudo bem, meu amor — sussurrei, embora minha própria voz soasse como uma mentira deslavada.
Há seis meses, nossa mãe perdeu a batalha para uma doença cruel. Duas semanas depois do funeral, nosso pai limpou o pouco que restava da nossa conta bancária e desapareceu no mundo, deixando para trás uma pilha de dívidas e duas bocas para alimentar. Com dezenove anos, tornei-me mãe, pai e arrimo de família.
Mas a cidade não tem pena de quem é fraco. Naquela manhã, o aviso de despejo colado na porta foi o xeque-mate. Tínhamos exatamente quarenta e oito horas para pagar os aluguéis atrasados. Caso contrário, iríamos para a rua.
Minha última esperança estava em um crachá emprestado. Uma amiga da minha mãe trabalhava na equipe de limpeza da holding dos Valença, o maior império financeiro do país, e tinha quebrado o tornozelo.
Desesperada, ela me ofereceu o turno da noite dela. O pagamento era em dinheiro vivo, direto com um supervisor que aceitava qualquer uma que fizesse o serviço sem perguntas. Cem dólares não pagavam o aluguel, mas compravam os remédios de Léo e a comida da semana.
À meia-noite, eu cruzava o quadragésimo andar do prédio corporativo. O lugar exalava um poder opressor. Tudo estava silencioso, uma imensidão de vidro e carpete felpudo. Comecei limpando as salas periféricas, mas logo avistei a última porta do corredor. Era dupla, feita de uma madeira escura e maciça, com uma placa dourada descrita apenas: Presidente.
Girei a maçaneta devagar. Estava aberta. A sala era colossal, com uma vista panorâmica de Manhattan que parecia um mar de diamantes acesos. A luz estava apagada, iluminada apenas pelo brilho da cidade. Aproximei-me da mesa monumental para tirar o lixo, quando um som vindo da varanda privativa me fez congelar.
— Eu não me importo com as consequências. Se a fusão vazar antes da assinatura, eu destruo você — uma voz ecoou.
Era uma voz grave, aveludada, mas cortante como uma navalha. Prendi a respiração, dando um passo para trás. O homem contornou a porta de vidro da varanda. Mesmo na penumbra, a silhueta dele era imponente. Alto, ombros largos sob um terno sob medida que valia mais do que eu ganharia na vida inteira. Era Arthur Valença.
Tentei recuar com o carrinho de limpeza, mas meu sapato velho derrapou no piso encerado. O rangido foi agudo, rasgando o silêncio. Arthur desligou o celular no mesmo segundo.
— Quem está aí? — a voz dele chicoteou o ar.
— Desculpe... eu... eu já estou saindo — gaguejei, o suor frio escorrendo pelas minhas costas.
Ele deu dois passos rápidos e acendeu a luz central. A claridade me cegou. Quando abri os olhos, Arthur estava a menos de um metro de mim. De perto, sua presença era esmagadora. Ele me olhou de cima a baixo, analisando minhas roupas simples e o crachá sem foto.
— Você não faz parte da equipe regular — constatou, a voz perigosamente calma. — O que você ouviu?
— Nada! Eu juro, eu só vim limpar o lixo...
— Não minta para mim — ele deu mais um passo à frente, e o perfume dele, uma mistura de madeira e sofisticação, invadiu meus sentidos. Ele segurou meu queixo com uma força firme, me obrigando a olhar diretamente nos seus olhos verdes e implacáveis. — Você ouviu sobre a fusão. Sabe o que o mercado faria com essa informação se ela saísse desta sala hoje?
— Eu não sei nada de mercado! — lágrimas de humilhação e medo queimaram meus olhos. — Eu sou pobre, meu senhor. Minha mãe morreu, meu irmão está doente e nós vamos ser despejados. Eu só precisava do dinheiro da diária. Por favor, me deixa ir. Eu não vou falar nada para ninguém.
Arthur continuou me encarando. Eu esperava que ele chamasse a segurança, mas o olhar dele mudou. O brilho de desconfiança deu lugar a algo frio, analítico... extremamente calculista. Ele soltou meu queixo lentamente, caminhou até a mesa de vidro e serviu-se de uma dose de uísque. Depois, apoiou as mãos na mesa e me encarou de longe.
— Qual o seu nome? — perguntou.
— Aline. Aline Torres.
Ele virou o líquido de uma vez e cravou aquele olhar verde em mim.
— Pois bem, Aline. Eu tenho uma proposta para você. Não de trabalho. Uma proposta de casamento.
Achei que tinha ouvido errado. O bilionário mais cobiçado da cidade estava propondo casamento para a faxineira clandestina?
— O senhor enlouqueceu?
Um sorriso sem nenhuma ponta de calor surgiu nos lábios perfeitamente desenhados de Arthur.
— Eu preciso de uma esposa de fachada para acalmar o conselho da minha empresa e afastar a imprensa de certos assuntos do meu passado. Quero alguém sem laços com a alta sociedade, que precise tanto de dinheiro a ponto de não fazer perguntas. Você precisa de um milagre para salvar seu irmão. Eu sou o seu milagre, Aline. Mas ele tem um preço: seu silêncio e sua obediência por um ano.
A humilhação disparou pelo meu sangue. Ele estava me comprando. Ele estava usando a minha miséria como moeda de troca.
— Eu posso estar na miséria, senhor Valença, mas não tenho preço — respondi, com o resto de dignidade que me sobrava. Dei as cores e caminhei em direção à porta. — Passe bem.
— Você tem quarenta e oito horas, Aline — a voz dele ecoou pelas minhas costas, fria e certeira como uma profecia. — Quando o oficial de justiça colocar as coisas do seu irmão na calçada, você vai lembrar deste escritório. E você vai voltar.
Não olhei para trás. Bati a porta e saí correndo, com o coração quase saindo pela boca.
