Capítulo 2 Sem saída

Capítulo 2: Sem saída

Pov Arthur Valença

Eu não cheguei ao topo do mercado financeiro sendo um homem sentimental. Sentimentos são variáveis instáveis, e eu só trabalho com certezas. No entanto, enquanto observava a chuva chicotear a janela do meu escritório, precisei admitir que o destino, às vezes, entrega a peça que falta no tabuleiro de forma surpreendentemente perfeita.

Olhei para o copo de cristal vazio em minha mão. Há menos de uma hora, uma garota maltrapilha, com olhos grandes assustados e um crachá falsificado, esteve parada exatamente onde eu estava.

Aline Torres.

Ela achou que eu era um louco por propor casamento. Ela achou que seu orgulho ferido e sua saída dramática da minha sala selariam o fim daquela história. Pobres tolos. Eles sempre acham que a dignidade pode alimentá-los.

Caminhei até a minha mesa e liguei para o meu chefe de segurança, Marcus.

— Quero o relatório completo sobre a garota que acabou de sair da torre. Aline Torres. Quero histórico familiar, dívidas, tudo. Em dez minutos na minha mesa.

Eu não precisava de uma esposa porque queria um romance. Eu precisava de uma blindagem. O conselho de administração da Valença Holdings vinha ameaçando minar meu poder de voto, alegando que minha vida pessoal reclusa e os boatos sobre o mistério envolvendo a morte da minha mãe prejudicava as ações. 

Para piorar, meus inimigos no mercado estavam farejando a nova fusão de bilhões. Eu precisava de uma distração midiática. Um casamento repentino, com uma mulher sem conexões com a elite, calaria a boca do conselho, criaria uma cortina de fumaça perfeita e, o melhor de tudo: ela seria inteiramente dependente de mim. Uma esposa que eu poderia controlar com um estalar de dedos.

Exatamente nove minutos depois, o arquivo digital chegou.Passei os olhos pelas telas. Mãe falecida. Pai foragido com o dinheiro. Um irmão de quatro anos com pneumonia crônica. Três meses de aluguel atrasados. Despejo programado para as próximas quarenta e oito horas.

Um sorriso desprovido de qualquer calor humano tocou meus lábios. Eu não era um vilão. Não gostava do sofrimento alheio, mas sabia como usá-lo a meu favor. Se eu lhe desse uma esmola, ela recusaria por orgulho. Mas se eu lhe oferecesse um contrato de negócios disfarçado de salvação, ela eventualmente cederia pelo irmão.

— Quarenta e oito horas, Aline — murmurei para o vazio. — É o tempo que você tem para perceber que o orgulho não aquece ninguém na sarjeta.

Dois dias depois.

O motor do meu carro blindado roncava baixo enquanto cortávamos as ruas de São Paulo. Pedi ao motorista para parar a uma quadra de distância do cortiço onde ela morava.

Fiquei observando da janela fumê. A cena era patética e cruel. Os homens da mudança jogavam caixas de papelão rasgadas na calçada úmida. E lá estava ela. Aline parecia ainda menor sob aquele casaco surrado, os braços magros tentando envolver o irmãozinho que tossia de forma dolorosa, o rosto enterrado no pescoço dela.

A dor nos olhos dela era quase palpável através do vidro. Por um milésimo de segundo, uma pontada incômoda bateu no meu peito — uma lembrança distante de quando eu mesmo fui um garoto vulnerável e sem teto —, mas esmaguei o sentimento imediatamente. Eu tinha um império para proteger.

— Avance o carro — ordenei ao motorista.

O veículo parou suavemente bem em frente à calçada. Abaixei o vidro traseiro, deixando o ar quente do aquecedor escapar para o frio da rua. Aline me olhou. Seus olhos estavam vermelhos de chorar, mas quando encontraram os meus, uma faísca de puro ódio brilhou ali.

Eu não disse uma palavra. Não desci para ajudá-la, não peguei suas malas. Apenas estendi a mão e empurrei a porta do carro, deixando o convite mudo pairando no ar.

Ela hesitou por longos dez segundos. Olhou para o garotinho trêmulo, engoliu o próprio orgulho como se fosse veneno e entrou no carro, trazendo consigo o cheiro da chuva e do desespero. O menino se encolheu no banco, assustado.

— Você venceu — ela disse, a voz trêmula, mas firme. — Eu aceito o seu contrato. Mas com uma condição: meu irmão recebe atendimento médico agora.

— Ele já está a caminho do melhor hospital privado da cidade — respondi friamente, sem desviar os olhos do meu tablet. — Meu motorista vai deixá-los lá. Amanhã cedo, um carro buscará você para assinar os papéis e comprar roupas adequadas para a sua nova realidade.

— Você é um monstro sem coração, não é? — ela cuspiu as palavras, abraçando o irmão com mais força. — Está se divertindo com isso?

— Não confunda negócios com diversão, Aline. Eu salvei a sua vida hoje. Em troca, você vai ser a esposa perfeita diante das câmeras. Mas aqui dentro... — aproximei meu rosto do dela, sentindo sua respiração acelerar. — Você não passa de um fantoche que eu comprei. Não espere afeto, não espere calor. Nós somos dois estranhos ligados por um pedaço de papel.

Ela desviou o olhar, segurando as lágrimas de raiva.

O carro parou em frente ao hospital de elite. Aline desceu com o irmão, amparada pelos enfermeiros que eu já havia contratado previamente. 

Fiquei observando pela janela até que as portas automáticas de vidro do hospital se fechassem

— Senhor Valença? Para onde vamos agora? — o motorista perguntou pelo retrovisor.

— Para a mansão — ordenei, voltando minha atenção para os relatórios financeiros no tablet. 

— Ligue para o escritório de advocacia dos Sterling. Quero o contrato de casamento pronto e revisado sobre a minha mesa nas próximas duas horas. Sem brechas.

Eu tinha o que queria. O conselho da holding seria silenciado por aquela cortina de fumaça e eu manteria o controle total. Aline Torres achava que o pior dia da vida dela tinha sido o despejo na calçada.

Ela não tinha ideia de que entrar na minha vida, sob as minhas regras e dentro da minha casa, seria um teste muito mais cruel. Eu ia exigir cada gota de obediência que aquele contrato comprava. E a primeira lição dela começaria amanhã cedo.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo