Capítulo 3 A Assinatura do Pacto
Capítulo 3: A Assinatura do Pacto
POV Aline
Pela primeira vez em meses, o som que me acordou não foi o barulho do trânsito do cortiço ou os passos pesados dos vizinhos no teto. Foi o bipe ritmado e suave dos aparelhos do hospital.
Abri os olhos devagar, piscando contra a claridade do quarto privativo. Léo estava deitado em uma cama que parecia uma nuvem, bem diferente do nosso colchão ralo. O lençol era branco e impecável, e uma linha de soro com medicamentos sumia sob a pele do seu bracinho magro. A febre tinha sumido. Seu peito subia e descia em um ritmo tranquilo. Ele estava seguro. Estava aquecido.
O preço daquela segurança, no entanto, começou a pesar no meu peito assim que olhei para o relógio na parede. Sete da manhã.
A lembrança dos olhos implacáveis de Arthur Valença inundou minha mente.
“Você não passa de um fantoche que eu comprei. “
Suas palavras frias da noite anterior ecoavam como chicotadas. Ele tinha sido deliberadamente cruel, esmagando o pouco de dignidade que me restava apenas para deixar claro quem mandava. Eu o odiava por isso. Odiava o fato de ele ser o meu salvador e o meu carrasco ao mesmo tempo.
Duas batidas firmes na porta interromperam meus pensamentos. Uma mulher de meia-idade, vestindo um terno cinza impecável e com o cabelo preso em um coque perfeito, entrou no quarto carregando uma capa de roupas preta.
— Srta. Torres? Sou a Sra. Albright, governanta e secretária pessoal do Sr. Valença — ela disse, com uma voz polida, mas totalmente desprovida de emoção.
— O carro já está esperando lá fora. Trouxe isto para a senhorita se vestir. Temos exatamente quarenta minutos para chegar ao escritório.
Ela estendeu a capa. Quando abri o zíper, engoli em seco. Era um vestido de tricô encorpado, cor de creme, elegante e minimalista, acompanhado por um casaco de lã legítima que parecia custar mais do que três anos do meu antigo aluguel. Havia também sapatos novos, do meu tamanho exato. Arthur não perdia tempo. Ele já estava me moldando para o papel que comprou.
Dei um beijo na testa de Léo, que nem se mexeu, e mudei de roupa no banheiro luxuoso do hospital. Quando me olhei no espelho, mal me reconheci.
A garota maltrapilha da noite anterior tinha sumido, substituída por alguém que parecia pertencer àquele mundo de aparências. Mas por dentro, eu continuava sendo a mesma Aline assustada, prestes a se entregar aos leões.
Quinze minutos depois, o carro preto me deixou na garagem privativa da Valença Holdings. Fui escoltada por um elevador exclusivo diretamente para o quadragésimo andar. O escritório que antes estava na penumbra agora estava inundado pela luz do sol de inverno, tornando tudo ainda mais imponente.
Arthur estava de pé, atrás da imensa mesa de vidro. Ele vestia um terno cinza-escuro que acentuava seus ombros largos. Quando entrei, seus olhos se cravaram em mim. Ele me analisou de cima a baixo com uma lentidão calculada. Não havia admiração no seu olhar, apenas a frieza de um comprador checando se a mercadoria estava nos padrões exigidos.
— Sente-se, Aline — ele ordenou, apontando para a cadeira de couro em frente à mesa.
Caminhei de cabeça erguida, recusando-me a demonstrar o tremor nas minhas mãos, e me sentei. Em cima da mesa, havia um documento grosso, com dezenas de páginas.
— Este é o nosso acordo — Arthur começou, contornando a mesa e parando a poucos centímetros da minha cadeira. A proximidade dele fez o ar parecer mais denso. O perfume amadeirado dele disparou um alerta de perigo no meu cérebro. — Um ano de casamento de fachada.
O conselho da minha empresa precisa ver que sou um homem de família estabilizado, e a imprensa precisa de uma história romântica para parar de revirar o meu passado.
Em troca, todas as despesas médicas do seu irmão serão pagas, ele terá acesso às melhores escolas e você receberá uma mesada substancial. Ao fim do contrato, o divórcio será amigável e você terá uma estabilidade financeira para o resto da vida.
— Parece perfeito demais — contrapus, cruzando os braços. — Quais são as entrelinhas, senhor Valença?
Arthur soltou uma risada curta, sem humor, e se inclinou na minha direção, apoiando as duas mãos nos braços da minha cadeira. Fiquei encurralada pelo seu corpo imponente. Seus olhos brilharam com uma intensidade quase magnética.
— As regras são simples, mas inegociáveis. Primeira: você se muda para a minha mansão hoje. Segunda: diante do público, você vai fingir que me ama com cada fibra do seu ser. Terceira... — a voz dele caiu para um sussurro perigosamente gélido, perto demais dos meus lábios.
— Não toque em mim. Não faça perguntas sobre a minha vida, sobre os meus negócios ou sobre as minhas saídas. Nós não somos um casal real, Aline. Você é um negócio. Se quebrar qualquer uma dessas regras, o contrato é anulado, seu irmão perde o tratamento e você volta para a sarjeta. Fui claro?
O tratamento dele era tosco, bruto, como se eu fosse um animal sendo domesticado. Senti uma vontade avassaladora de esbofetear aquele rosto perfeito, mas a imagem de Léo no hospital me manteve firme. Engoli o nó de orgulho na garganta.
— Perfeitamente claro — respondi, sustentando o olhar.
Ele se afastou, pegando uma caneta e estendendo-a para mim. Peguei o objeto, sentindo o breve toque de seus dedos quentes contra os meus. Um arrepio involuntário subiu pelo meu braço, e desviei os olhos rapidamente para a última folha do documento.
Respirei fundo e assinei meu nome: Aline Torres.
Arthur pegou o papel de volta, olhou para a assinatura e guardou o documento em uma gaveta trancada. O pacto com o diabo estava selado.
— Ótimo. Agora que você pertence a mim pelas regras da lei, o seu trabalho começa imediatamente — ele disse, ajeitando as abotoaduras do terno com uma calma irritante.
— O que quer dizer com isso? — perguntei, levantando-me.
Arthur caminhou até a porta do escritório e a abriu, revelando sua secretária, que segurava um tablet com várias notificações piscando na tela. Ele se virou para mim, e um sorriso enigmático e perigoso surgiu em seus lábios.
— Os jornais acabaram de receber a notícia anônima de que o solteirão mais cobiçado da cidade se casou em segredo esta manhã. Há cinquenta repórteres e fotógrafos no saguão deste prédio esperando para ver o rosto da nova Sra. Valença. Sorria, Aline.
É hora de mostrar ao mundo o quanto estamos apaixonados.
