Capítulo 4 O Teatro das Aparências
Capítulo 4: O Teatro das Aparências
POV Arthur Valença
No momento em que as portas do elevador privativo se abriram no saguão principal, o som dos flashes e os gritos dos repórteres ecoaram como um bombardeio. A imprensa estava faminta.
Cerca de cinquenta profissionais se espremiam contra a barreira de segurança mantida pelos meus guardas, todos tentando registrar o primeiro vislumbre da mulher que havia capturado o solteirão mais recluso e implacável de São Paulo.
Senti o corpo de Aline travar ao meu lado. Seus passos hesitaram, e o pânico cruzou seu rosto por uma fração de segundo.
— Não pare — ordenei em um sussurro, sem desmanchar o semblante sereno que eu exibia para as lentes. — Mantenha o queixo erguido e sorria. Você assinou o contrato. Agora, cumpra-o.
Para dar o xeque-mate nos boatos do conselho, o mundo precisava acreditar que eu estava perdidamente apaixonado. Deslizei minha mão pela cintura de Aline, puxando o corpo dela para mais perto do meu.
Foi uma reação puramente técnica da minha parte, mas quando minha mão espalmou contra o tecido do vestido, uma voltagem inesperada correu pela minha espinha.
A pele dela era quente sob a roupa, e o perfume sutil que ela exalava — algo doce, que contrastava com o cheiro de chuva que ela trazia antes — invadiu meus sentidos.
Aline tencionou sob o meu toque. Pude sentir seus dedos cravarem na lateral do meu terno com força, uma mistura de raiva reprimida e a necessidade de se apoiar para não cair. Ela me olhou, e a fúria naqueles olhos quase me fez sorrir. Aquela garota me odiava com cada célula do seu corpo, mas, para o público que nos assistia, o modo como ela me encarava parecia pura devoção.
— Senhor Valença! É verdade que foi amor à primeira vista? — um repórter gritou, esticando um microfone.
Não respondi. Apenas inclinei o rosto na direção de Aline, fingindo sussurrar algo romântico em seu ouvido, permitindo que os fotógrafos capturassem o ângulo perfeito da nossa suposta intimidade.
Senti a respiração dela falhar contra o meu pescoço, o calor da sua pele contrastando com o ar condicionado do saguão. Um desejo puramente biológico e inoportuno ameaçou nublar minha mente. Afastei-me imediatamente, mantendo a máscara de gelo.
Marcus e a equipe de segurança abriram caminho a força, e em poucos segundos estávamos trancados no banco de trás do meu carro. Assim que a porta bateu, isolando o som da rua, Aline se afastou de mim como se eu estivesse contaminado, colando as costas contra a porta oposta do carro.
— Nunca mais me toque daquele jeito — ela falou, a voz trêmula de indignação.
— Sugiro que se acostume, Aline — respondi friamente, limpando uma linha invisível de poeira da minha calça. — Diante do mundo, eu sou seu dono. Mas não se preocupe. Entre quatro paredes, você é a última pessoa que eu desejaria tocar.
O restante do trajeto até a minha mansão foi feito em um silêncio sufocante. Quando o carro cruzou os portões e contornou a imensa propriedade de mármore e vidro cercada por árvores, Aline olhou pela janela, impressionada, mas visivelmente intimidada. O lugar era um palácio, mas um palácio sem vida. Exatamente como eu gostava.
Augusto, meu mordomo abriu a porta, e eu entrei sem esperar por ela. Aline me seguiu de perto até a entrada, onde o teto de vidro revelava o céu cinzento de inverno.
— Suas malas com as roupas novas já foram entregues no seu quarto. A Sra. Albright vai lhe mostrar onde fica — eu disse, virando-me de costas para subir a escadaria. No meio do primeiro degrau, parei e olhei para ela por cima do ombro. — E mais uma coisa, Aline. Uma regra de convivência.
Ela me encarou, cruzando os braços na defensiva.
— Esta casa tem três andares. O último andar é de uso estritamente exclusivo meu. Você está terminantemente proibida de colocar os pés lá. Se eu cruzar com você fora da área permitida, considerarei quebra de contrato. Nós não tomaremos café, almoço ou jantar juntos. Você fará suas refeições no quarto ou na sala de jantar secundária. Entendido?
A linha dos lábios dela se estreitou. Ela estava processando a humilhação de ser tratada como uma praga dentro da casa onde, por lei, era a senhora.
— Entendido, senhor Valença — ela respondeu, a voz carregada de veneno. — Quanto menos eu vir a sua cara, melhor será o meu ano.
Dei as costas e subi, satisfeito por restabelecer a distância. Eu precisava daquela barreira. O modo como meu corpo reagira ao toque dela no saguão tinha sido um erro de cálculo que eu não pretendia repetir.
À meia-noite, eu estava na privacidade do meu escritório, no proibido terceiro andar, revisando os relatórios de fechamento de mercado. O silêncio da noite foi quebrado pelo toque estridente do meu celular corporativo. Era a Sra. Albright.
— Fale, Albright.
— Senhor Valença, o comitê organizador do jantar beneficente da Valença Holdings ligou confirmando a lista de convidados para depois de amanhã. Eles já sabem do seu casamento e colocaram a sua nova esposa na mesa principal. A imprensa inteira estará lá focada em vocês.
Olhei para o documento na minha mesa, sentindo uma pontada de irritação. Eu sabia que a exposição viria rápido, mas não esperava que fosse tão cedo. Lembrar de Aline com aquele suéter surrado e sapatos gastos me fez estalar a língua. Ela não tinha o porte que aquele evento exigia. Não ainda.
— Avise a Aline que ela irá comigo — ordenei, mantendo a voz firme. — E agende um horário exclusivo na Maison Doré na Quinta Avenida para amanhã à tarde. Eu mesmo vou encontrá-la lá para garantir que ela não me envergonhe diante dos investidores. Ela vai precisar de uma transformação completa para o papel que comprei.
Desliguei o telefone e me encostei na cadeira. Eu ia jogar aquele jogo de aparências com perfeição, mas mal sabia eu que o verdadeiro teste seria manter meus próprios olhos longe dela.
