Capítulo 5 O Brilho da Aparência

Capítulo 5: O Brilho da Aparência

POV Aline

A sensação de acordar em uma cama que parecia um pedaço de nuvem ainda não fazia o menor sentido para mim. Olhei para o teto alto do quarto de hóspedes que parecia um hotel cinco estrelas. No dia anterior, eu estava empacotando o pouco que me restava sob o olhar frio de um oficial de justiça. Hoje, eu era a senhora Valença no papel. Uma farsa de luxo.

Eu mal tinha conseguido pregar o olho pensando no Léo. Ele ainda estava no hospital, mas os médicos tinham me garantido que ele estava ótimo, quase pronto para ter alta. O alívio de saber que meu irmãozinho estava bem era a única coisa que me dava forças para levantar daquela cama e encarar o que vinha pela frente.

Depois de um banho rápido, vesti uma das calças jeans que eu tinha trazido na minha mochila surrada e o suéter creme que a secretária do Arthur tinha me dado. Eu me sentia uma intrusa caminhando pelos corredores silenciosos daquela mansão. Parecia que a qualquer momento alguém ia gritar que eu não pertencia àquele lugar e me botar para correr.

Às duas da tarde, o motorista particular do Arthur me buscou para o que ele chamou de "compromisso de transformação". O carro de luxo cruzou as ruas movimentadas até parar em frente a uma loja de grife imensa . A fachada de vidro escuro exalava um luxo que me fez dar um passo atrás assim que desci do carro.

Uma funcionária de terno impecável e postura esticada já me esperava na porta.

— Senhora Valença? Por aqui, por favor. O senhor Arthur já está nos esperando e a loja está fechada exclusivamente para a senhora — ela disse, com um sorriso treinado que não chegava aos olhos.

Quando entrei, o espaço parecia uma galeria de arte. Poucas roupas em cabides dourados, sofás de veludo cinza e um perfume suave de baunilha no ar. Sentado em um dos sofás, com uma perna cruzada sobre a outra e um copo de uísque na mão, estava Arthur. Ele usava um terno escuro sem gravata, com os primeiros botões da camisa abertos. Ele parecia tão perfeitamente esculpido que, por um segundo, meu coração falhou uma batida. Odiei meu próprio corpo por reagir daquele jeito a ele.

Arthur ergueu os olhos quando me aproximei. Ele me avaliou de cima a baixo com aquela lentidão que me deixava desconfortável, fazendo meu sangue ferver de raiva e vergonha.

— Você está atrasada dez minutos, Aline — ele disse, a voz ecoando no espaço silencioso. — E esse seu visual de quem acabou de sair de um brechó não vai servir para o jantar de amanhã.

— Eu não tive tempo de atualizar meu guarda-roupa enquanto tentava não ser despejada, senhor Valença — respondi, cruzando os braços e sustentando o olhar dele. — Achei que seu motorista estivesse no controle do tempo, não eu.

Um brilho de divertimento passou pelos olhos dele, mas sumiu tão rápido quanto apareceu, sendo substituído pela pose de sempre.

— Não seja atrevida. Guarde essa energia para o teatro de amanhã à noite — ele se levantou, caminhando até mim. A presença dele era magnética, e eu tive que fazer um esforço real para não dar um passo atrás. — Os investidores e a imprensa vão analisar cada centímetro de você. Se você parecer uma coitada que pegou um vestido emprestado, eles vão farejar a mentira. Quero você impecável.

Ele fez um sinal com a mão para a estilista da loja, que rapidamente trouxe um cabide com três opções de vestidos.

— Traga o verde — Arthur ordenou, sem desviar os olhos de mim.

Fui empurrada para o provador espaçoso, que era maior do que o meu antigo quarto no cortiço. Com a ajuda de duas funcionárias que mexiam em mim como se eu fosse uma boneca de pano, vesti o bendito vestido verde. Era de um tecido pesado, que se moldava perfeitamente ao meu corpo. O decote em V valorizava meu colo, e a fenda na perna esquerda dava um toque ousado que eu nunca me atreveria a usar na vida real.

Quando me olhei no espelho , perdi o fôlego. Eu não parecia a Aline que passava as noites em claro cuidando de um irmão doente. Eu parecia uma mulher poderosa. Mas por dentro, a insegurança ainda gritava.

— Pode sair, senhora. O senhor Arthur quer ver o resultado — a estilista insistiu, abrindo a cortina.

Respirei fundo, segurei a barra do vestido para não tropeçar nos sapatos de salto alto que tinham colocado nos meus pés, e saí.

Arthur estava de costas, olhando a vista pela janela de vidro. Ao ouvir o barulho do salto, ele se virou devagar. Seu olhar desceu pelo decote do vestido, acompanhou a curva da minha cintura e parou na fenda que revelava a minha perna. A expressão gélida dele vacilou por uma fração de segundo. Vi o pomo de Adão dele se mover quando ele engoliu em seco, e a intensidade daquele olhar fez meu estômago dar voltas.

Ele caminhou devagar até mim. O cheiro do perfume dele invadiu meu espaço. Ele parou tão perto que eu conseguia sentir o calor que emanava do seu corpo.

— Nada mal — ele murmurou, a voz um tom mais baixa do que o normal.

— Se isso foi um elogio, você precisa treinar mais — retruquei, tentando manter a voz firme, embora meu coração estivesse batendo tão forte no peito que eu tinha certeza de que ele podia ouvir.

Arthur deu mais um passo, reduzindo a distância entre nós a quase nada. Ele ergueu a mão lentamente. Prendi a respiração, achando que ele ia tocar meu rosto, mas ele apenas segurou a alça fina do vestido no meu ombro, ajustando-a com os dedos quentes que roçaram de leve na minha pele. O toque causou um arrepio elétrico que subiu pela minha espinha.

— Não se ache muito, Aline — ele sussurrou perto do meu ouvido. — O vestido é lindo, mas o que importa é como você vai se comportar usando ele. Amanhã, no jantar de gala, você vai ser a esposa dedicada. Vai sorrir para as minhas piadas, vai segurar a minha mão e vai fingir que sou o marido mais incrível do mundo.

— E se eu não conseguir mentir tão bem? — desafiei, olhando diretamente nos seus olhos.

Arthur se afastou um pouco, o sorriso cínico voltando aos seus lábios perfeitamente desenhados.

— Você vai conseguir. Sabe por quê? Porque a saúde do seu irmão e o seu futuro dependem de cada sorriso que você der amanhã. Eu posso ser o seu milagre, Aline, mas também posso ser o seu pior pesadelo se você me fizer passar vergonha.

Ele deu as costas, pegou o copo de uísque e falou com a gerente sem sequer me olhar novamente:

— Vamos levar esse. E providencie as joias. Quero tudo entregue na mansão até amanhã de manhã.

Fiquei ali parada, sentindo o calor do toque dele sumir da minha pele, substituído pelo frio da realidade. Arthur Valença era um homem implacável, perigoso e incrivelmente atraente. 

E o pior de tudo era perceber que, mesmo odiando cada palavra que saía da boca dele, eu estava começando a achar difícil resistir à sua presença.

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