Capítulo 1 NOITE DIFÍCIL

A sala de jantar cheirava a frango assado e velas de baunilha.

Ajustei o último prato, dei um passo para trás e sorri. Estava tudo perfeito. A música suave, as luzes tremeluzentes e o vinho gelado esperando ao lado de duas taças de cristal.

Quatro anos juntos.

Quarto aniversário.

Eu conseguia ouvir Ryan se mexendo lá em cima, seus passos pesados ecoando de leve pelo teto.

— Amor! — chamei pela milésima vez, entrelaçando as mãos.

— Só mais um minuto, querida! — ele gritou de volta.

Na semana passada, ele finalmente tinha se ajoelhado.

Tinha me pedido para caminhar com ele rumo ao para sempre, e eu tinha chorado feito uma criança, gritando:

— Sim!

Meu coração deu um salto ao lembrar daquele pedido e, agora, do nosso quarto aniversário.

Eu tinha passado horas aperfeiçoando aquele momento. A comida, a música e o vestido que ele tinha comprado para mim — aquele que ele disse que me fazia parecer o mundo inteiro dele.

Então, uma batida ecoou pela casa, e eu franzi a testa.

Não estávamos esperando ninguém.

Arrumando o vestido, fui até a porta, meus saltos estalando de leve no piso.

Quando abri, meu fôlego travou.

Uma mulher estava diante de mim, com os olhos cansados, mas ainda mantendo o máximo de compostura. Ela segurava a mão de um garotinho, e a outra mão repousava de forma protetora sobre uma barriga inchada.

— Oi, o Ryan está em casa?

Inclinei a cabeça, confusa.

— R… Ryan?

— Ah? — A mulher deu um passo para trás, olhando ao redor. — Mas é o apartamento certo. Ele já alugou este lugar? Você deve ser a nova inquilina. Desculpa, eu não fazia ideia…

Pisquei, lutando para encontrar minha voz.

— C… com licença. Quem é você?

Do corredor veio a voz de Ryan.

— Amor, tem alguém na porta? Achei que tinha ouvido a campainha…

Ele parou no meio da frase, e eu me virei devagar para ele.

— Você conhece…

— Papai! — O menino soltou a mão da mãe, correu para dentro e abraçou as pernas de Ryan com os bracinhos.

Meu ar falhou, e uma dor aguda se retorceu no meu peito. Não. Aquilo não podia ser real. Aquilo não era a minha vida.

E, ainda assim, os braços do menino em volta das pernas de Ryan contavam uma história que meu coração já sabia… mas se recusava a acreditar.

A mulher passou por mim e entrou no cômodo, suspirando.

— Por que você não tem atendido minhas ligações? Você tem ideia de quantas…

— O que você está fazendo aqui? — Ryan rosnou, cortando-a.

— Você não tem o direito de me fazer essa pergunta. — A voz dela endureceu. — Quem é essa mulher, Ryan? O que está acontecendo aqui?

Era óbvio: o clima da casa deixava claro, em um segundo, que um encontro romântico estava prestes a começar — ou já tinha começado.

— Eu posso explicar, Lisa, só…

— Ryan? — Minha voz saiu baixa e deliberada.

— Papai, eu estava com saudade — murmurou o garotinho, ainda agarrado às pernas dele.

— Eu exijo uma explicação, Ryan — minha respiração ficou pesada.

— Não me diga que você tem outra mulher?! — a voz de Lisa subiu, afiada e acusatória.

— Outra mulher? — pisquei, incrédula. — Como é que é?

O maxilar de Lisa se contraiu.

— Eu sou a esposa dele… e a mãe dos filhos dele! — Ela apontou um dedo para o menino e depois para a própria barriga.

Eu ofeguei, balançando a cabeça.

— Você… Ryan?

A voz de Lisa tremia, mas as palavras dela atingiram como um trovão. “Ele se casou comigo no papel. Talvez a gente esteja longe da família dele e dos olhos do público, mas eu sou a esposa dele. Você disse que finalmente íamos conhecer sua família esta semana!”

O rosto de Ryan empalideceu, e ele passou a mão pelos cabelos enquanto a outra, inconscientemente, permanecia na cabeça do garotinho.

“Eu posso explicar, amor. Eu só… Por que você viria até aqui sem me avisar?!” ele gritou.

O menino se encolheu, e meu coração se partiu. O homem que eu achava que conhecia… era um estranho parado na sala de jantar.

Meus lábios tremeram quando dei um passo vacilante à frente, e meus olhos se fixaram em Ryan.

“Como… como você pôde?” Minha voz falhou. “Como você se atreve a fazer isso comigo, Ryan? Depois de tudo? Depois de quatro anos… depois de nós?”

Ryan passou a mão pelos cabelos, os olhos indo de uma a outra. “Serena, por favor. É… é complicado.”

“Complicado?” repeti, a voz subindo, se quebrando. “Você mentiu pra mim! Você me deixou construir uma vida com você! Sonhar com um futuro… quando você já tinha um!”

O deboche de Lisa cortou o ar como vidro. “Complicado? É assim que você chama?” ela retrucou, ríspida. “Nosso filho tem três anos, Ryan. O que exatamente tem de complicado nisso?”

Virei a cabeça num golpe, os olhos arregalados.

“Três?” sussurrei, a incredulidade inundando minhas veias.

Lisa assentiu, cruzando os braços. “Três. Nasceu nove meses depois de você sumir por um tempo, lembra disso, Ryan?”

Meu estômago revirou.

Minhas mãos começaram a tremer quando a realização desabou sobre mim.

“Três anos…” murmurei. “A gente está junto há quatro.”

Minha voz se quebrou de vez.

Então caiu a ficha. O sumiço repentino em que ele alegou estar numa reunião de negócios… não tinha negócio nenhum!

“Então tudo… cada palavra, cada beijo, cada aniversário… foi mentira?”

Ryan tentou estender a mão para mim.

“Serena, por favor…”

Eu recuei, balançando a cabeça, as lágrimas transbordando.

“Não encosta em mim. Não ouse encostar em mim!”

Meu olhar queimava nele, a voz tremendo, mas feroz.

Olhei ao redor. As velas, os pratos, as flores… agora zombavam de mim.

“O jantar está pronto”, sussurrei, amarga. “Você pode muito bem dividir com a sua família.”

Com isso, me virei, peguei minha bolsa no balcão e marchei até a porta. Ryan me chamou, mas eu não olhei para trás.

No instante em que pisei lá fora, um relâmpago rasgou o céu, seguido pelo estrondo de um trovão. O céu se abriu, despejando cortinas de chuva, mas eu não me importei.

Entrei na tempestade, deixando as gotas geladas encharcarem meu vestido, se misturarem às minhas lágrimas, lavarem tudo o que eu achava que era real.

Porra.

Soltei um grito ao caminhar para fora da propriedade.

Então…

Faróis tremeluziram à distância.

Um carro preto, elegante, estava estacionado do outro lado da rua, com o motor desligado.

Encostado nele com naturalidade, havia um homem alto, um guarda-chuva escuro apoiado no ombro. O olhar afiado acompanhava cada um dos meus movimentos, embora a chuva borrasse a distância entre nós.

Eu diminuí o passo, a confusão atravessando meu rosto, enquanto ele se afastava do carro. Eu não o reconhecia, mas podia jurar que já tinha visto aquela pessoa antes.

Ainda assim, ele falou primeiro, com a voz grave e baixa.

“Noite difícil?”

Uma risada quebrada escapou dos meus lábios. Baixa, amarga, cansada.

“A pior”, sussurrei, a chuva escorrendo pelo meu rosto.

Próximo Capítulo