Capítulo 2 VELHOS AMIGOS.

“Deixa eu te dar uma carona”, disse o estranho, parando ao meu lado e baixando o guarda-chuva até me proteger da chuva.

“Dispenso”, murmurei, passando por ele.

Mas a mão dele foi mais rápida. Sem dizer mais nada, ele enfiou o guarda-chuva com firmeza na minha mão e então recuou, deixando a chuva cair sobre os ombros dele.

“Tente não sofrer duas vezes”, ele disse, a voz baixa. Quase como um aviso, não como consolo.

Antes que eu pudesse responder, ele se virou, entrou no carro e foi embora, as lanternas traseiras sumindo na tempestade.

Fiquei paralisada na calçada, a chuva ainda martelando no guarda-chuva que ele tinha enfiado à força na minha mão, e meu coração batendo mais forte do que o trovão lá em cima.

Eu tinha passado a noite inteira encarando o teto.

A tempestade tinha passado, mas a minha mente não. Cada clarão de relâmpago, cada estrondo de trovão, tudo fazia a voz do Ryan se repetir na minha cabeça.

“É complicado.”

Complicado.

Era assim que ele chamava destruir a minha vida.

Eu devia ter bloqueado o número dele e apagado qualquer vestígio, mas quando meu celular vibrou naquela manhã com uma ligação da Sra. Melissa, mãe do Ryan — uma mulher que eu tinha aprendido a amar de verdade — eu congelei.

“Querida”, a voz calorosa de Melissa veio pela linha, sem ter ideia dos destroços deixados para trás. “Você não atendeu minha ligação ontem à noite. Ainda vem jantar hoje? Todo mundo está tão animado para te ver!”

Minha garganta secou.

Claro. O jantar em família. O primeiro jantar que deveríamos ter depois do nosso noivado.

O jantar em que eu seria apresentada ao resto da família.

“Senhora… mãe, eu não acho que eu consiga…”

“Ryan disse que você está brava com ele por alguma coisa. Você precisa vir, querida. Venha jantar e a gente resolve isso conversando.”

Meu coração se retorceu. Eu devia ter contado. Devia ter gritado a verdade no telefone. ‘Seu filho é um mentiroso. Um mentiroso casado.’

Mas ouvir a voz gentil daquela mulher mais velha me quebrou.

Eu não podia esmagá-la assim. Ainda não.

Então eu menti.

“Tudo bem, senhora. Eu… eu vou estar aí.”

Agora, horas depois, eu estava do lado de fora do portão dos Hale, encarando a porta da frente familiar. Meu reflexo no vidro polido zombava dos meus olhos cansados e dos meus lábios trêmulos.

Eu não estava mais ali por amor. Eu estava ali por respostas.

Hoje à noite, eu ia contar tudo para a família Hale. Ia contar para todos. Até para aqueles que estavam me conhecendo hoje pela primeira vez. Eu ia contar. E então eu iria embora… para sempre.

Respirei fundo e toquei a campainha.

Passos se aproximaram. A porta se abriu. E lá estava ele.

Ryan Hale.

O sorriso no rosto dele sumiu no instante em que me viu.

“Serena…?” A voz dele saiu baixa, nervosa.

“O que… o que você está fazendo aqui?”

Ergui o queixo, sustentando o olhar dele. “Sua mãe me convidou.”

Antes que ele pudesse responder, uma voz chamou de dentro.

“Ah, é a Serena? Traga ela para dentro, Ryan!”

Meu estômago se deu um nó quando entrei com cuidado, ignorando os olhos suplicantes dele.

E então eu vi.

A família inteira reunida em volta da longa mesa de jantar, sorrindo, conversando, com taças de vinho pela metade.

E, do outro lado, sentada com uma compostura tranquila e um sorriso educado…

Lisa.

Lisa, e o garotinho sentado no colo dela… o menino que tinha chamado Ryan de “papai”.

Eu congelei, e por um instante o cômodo pareceu inclinar. Minha respiração falhou, e todos os pares de olhos se voltaram para mim.

A Sra. Hale se levantou, o sorriso radiante. “Ah, finalmente vocês se conheceram! Eu estava apresentando todo mundo. Serena, querida, venha cá.” Ela saiu do lugar dela, atravessou a distância entre nós e então entrelaçou o braço no meu.

“Você já conheceu a Lisa, imagino? A esposa do Ryan.”

Eu pisquei. “A… o quê?”

— Ah, você não sabia? — as sobrancelhas da Sra. Hale se franziram, alternando o olhar entre o filho e eu. — O Ryan disse que vocês dois eram... só velhos amigos.

Meu coração despencou e eu juro que o quarto girou. Cada rosto que eu via... os pais dele, os irmãos... Todos desviaram o olhar, mexendo inquietos nos copos ou nos guardanapos.

Eles sabiam.

Todos eles sabiam.

E eu era a idiota parada no meio do jantar perfeito daquela família, segurando um segredo que eu nunca deveria ter guardado.

Por um instante, o mundo ficou em silêncio.

Não havia risadas nem o tilintar de taças. Só o som do meu pulso martelando nos meus ouvidos.

Meus lábios se abriram, mas nenhuma palavra saiu.

Esposa?

Velhos amigos?

Meu olhar voltou num estalo para Ryan. O rosto dele estava pálido, o maxilar travado, as mãos cerradas ao lado do corpo. Ele nem conseguia me encarar.

— Velhos amigos? — repeti baixinho, a voz tremendo não de fraqueza, mas de incredulidade. — É isso que eu sou agora?

— Serena...

— Não. — Ergui a mão de supetão, cortando-o. — Não aqui. Não agora.

A Sra. Hale pigarreou, e a tensão no ambiente era grossa o bastante para sufocar.

— Você é uma boa mulher, querida. Você ainda é da família.

O sorriso dela era forçado, educado.

— No entanto, a Lisa esteve ao lado dele durante... tudo.

“E eu?!” Quase gritei isso na cara de todos, mas em vez disso pisquei, as palavras me atingindo como um tapa.

Eles sabiam.

Eu ri baixinho, sem fôlego, quebrada.

— Certo. Claro. Por que eu esperaria honestidade quando é tão mais fácil sorrir e fingir?

A expressão da Sra. Hale vacilou.

— Querida, não foi assim...

— Ah, por favor, Sra. Hale! — Meus olhos brilharam, minha voz calma, mas carregada de fogo. — A senhora brindou ao nosso noivado, lembra? Disse que eu logo seria da família. Acho que eu devia ter percebido que já havia uma.

Ryan finalmente falou, a voz tensa.

— Serena, por favor. Eu não quis...

Eu o interrompi com um sorriso pequeno e amargo.

— Guarda isso, Ryan. Você teve quatro anos para querer alguma coisa.

Houve silêncio, e ninguém ousou se mexer, nem mesmo a criança.

Puxei o ar devagar, endireitando os ombros. Cada pedaço do meu coração parecia estilhaçado, mas meu orgulho me mantinha de pé.

— Bem — eu disse, baixo —, parece que o jantar já foi servido. Não faz sentido estragar a comemoração.

Virei em direção à porta, bolsa na mão, a voz calma e afiada como uma lâmina.

— Parabéns, Sra. Hale. A senhora criou um belo homem.

E, sem dizer mais nada, eu saí.

A porta se fechou suavemente atrás de mim, deixando uma sala cheia de gente envergonhada demais para me chamar de volta.

Meu peito ardia, minhas mãos tremiam, e as lágrimas caíam sem parar enquanto eu saía da mansão.

Meu Deus, eu só precisava respirar... e ir embora.

Um par de faróis piscou do outro lado da rua.

Encostado num carro preto, meio escondido na escuridão, havia um homem — alto, imóvel — me observando como se estivesse esperando.

Ele se endireitou quando olhei na direção dele, a voz baixa e firme.

— Você... — soltei, quase num sussurro.

Era o mesmo homem da noite anterior.

O estranho que tinha me dado o guarda-chuva.

Ele inclinou levemente a cabeça, os olhos me percorrendo da cabeça aos pés... meus punhos cerrados, o fogo ainda queimando no meu olhar. Então, por fim, falou.

— Agora, talvez — a voz dele era baixa, precisa, inabalável na escuridão — você deva considerar aceitar minha oferta de carona.

Estreitei os olhos ao encará-lo.

Aquele rosto. Aqueles olhos. Eu já o tinha visto antes.

Onde?

Isso!

Na reunião de família.

Um olhar trocado do outro lado de uma sala cheia.

Então eu me lembrei. Uma carranca repuxou meu rosto e eu estalei os lábios.

Ele é um deles.

Ele é um Hale.

O tio frio do Ryan.

Damien Thorne Hale.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo