Capítulo 4 A PROPOSTA.

Quase imediatamente, sem pensar duas vezes, tirei o pijama que eu vinha usando desde ontem e corri para o banheiro, deixando a água quente levar embora os restos de sono e frustração. Quando terminei, minha mente já estava a mil. Não havia tempo a perder.

Abri o guarda-roupa e escolhi com cuidado uma das minhas melhores combinações. Hoje não era só sobre estar bonita. Era sobre impor presença.

Escolhi uma blusa de seda preta, elegante, que abraçava minhas curvas, combinada com uma calça de alfaiataria marfim que caía perfeitamente reta até os meus calcanhares. A seda cintilava de leve a cada movimento, macia, mas impossível de ignorar. Scarpins de salto agulha e delicados detalhes em dourado completavam o conjunto: elegante, poderoso, impossível de passar despercebido.

Encarei meu reflexo por um instante. Aquilo não era só se arrumar. Era uma armadura. Agora, eu ia encontrar Damien.

Ao sair para a rua, chamei um táxi, entrei e dei ao motorista uma direção clara e deliberada.

— Me leve para a Hale Enterprises, 78 East River Street. Direto, sem desvios.

O motorista assentiu e entrou no fluxo do trânsito. Eu me recostei no banco, os olhos acompanhando as ruas que passavam, cada borrão de movimento alimentando minha expectativa.

———

Eu já tinha estado ali antes. Ryan me levara uma vez à sede da Hale, dizendo que precisava deixar uns arquivos para o tio. Na época, não dei muita importância. Eu só fiquei no carro até ele voltar da tarefa entediante… mais um vislumbre da vida do Ryan.

Ele tinha mencionado, quase de passagem, que Damien passava a maior parte do tempo na sede.

Agora, entrando no prédio sozinha, tudo parecia diferente. A fachada de vidro impecável, o saguão de mármore, o zumbido de atividade… tudo parecia mais nítido, mais intimidador.

— Como posso ajudar?

— Estou aqui para ver Damien Hale — eu disse.

E então quase ri de mim mesma.

Não havia a menor chance de me deixarem ver um homem como ele com tanta facilidade.

O que eu estava pensando?

— A senhora tem horário marcado? — perguntou a recepcionista, erguendo uma sobrancelha perfeitamente desenhada.

— E-eu… sim — menti, e então endireitei os ombros. — Serena Evans.

Os olhos dela se estreitaram enquanto ela olhava para a tela à sua frente. Os dedos pairaram sobre o teclado e começaram a digitar rápido. Por um momento, prendi a respiração, o coração martelando no peito.

Depois do que pareceu uma eternidade, a recepcionista ergueu o olhar, indecifrável.

— Ah, sim. O sr. Hale vai recebê-la agora — disse ela, seca, indicando a área de espera com um gesto.

Assenti, o peito apertando de ansiedade. Ela me orientou até o escritório no 35º andar.

Com cuidado, caminhei em direção aos elevadores, os saltos estalando com firmeza no mármore, cada passo ecoando minha determinação. Dentro do elevador, apertei o botão do 35º andar e me apoiei de leve na parede polida, soltando um suspiro lento.

Minha mente repassou os acontecimentos dos últimos dias. A traição, a humilhação, o fogo que as palavras de Damien tinham acendido em mim. Era isso. Chega de hesitar.

Os números acima da minha cabeça subiam. 30… 31… 32… 33… 34… 35.

As portas se abriram em silêncio, revelando um corredor quieto e impecável. Meu olhar percorreu a decoração discreta, e cada passo me levava mais perto do escritório onde Damien Hale me esperava.

Parei do lado de fora da porta, a mão pairando sobre a maçaneta de metal lisa. Inspirando devagar, para me firmar, deixei minha determinação se solidificar. Então, com um empurrão decidido, abri a porta.

Damien Hale estava lá, sentado atrás de sua enorme mesa de mogno, imóvel, como se estivesse me esperando. Seu olhar afiado percorreu meu corpo da cabeça aos pés. Devagar, preciso e totalmente indecifrável. Ele não se levantou, nem sorriu.

Apenas me avaliou como um predador que estuda a presa em silêncio.

— Você chegou cedo — disse por fim, a voz baixa, calma e deliberada. — Eu não esperava você tão... cedo.

Entrei de vez, sustentando o olhar dele.

— Você sabia que eu vinha?

— Só um palpite.

Minhas sobrancelhas se juntaram quando parei diante da mesa. Uma parte de mim quis perguntar como ele sabia que eu viria, ou se realmente tinha sido só um palpite.

Mas havia coisas mais urgentes.

Puxei uma cadeira e me sentei.

Damien se inclinou um pouco para a frente, apoiando as mãos na mesa, os olhos sem nunca deixar os meus. O menor dos sorrisos de canto curvou seus lábios. Não de deboche, mas de interesse.

— Por que você está aqui, Serena?

— Eu preciso da sua ajuda — respondi sem hesitar.

— E por que eu daria? — ele perguntou, a voz baixa, precisa, quase um desafio.

Engoli em seco, as pernas tremendo sob a mesa.

Eu não tinha pensado nisso direito. Como eu pude supor que este homem... este homem, era o único para quem eu podia correr? O que eu ia dar a ele em troca? Ele era uma das forças mais poderosas do país. Podia esmagar os Hale se quisesse e destruir impérios com uma única palavra. Ele não precisava de mim.

Eu precisava dele.

Desesperadamente.

Ele provavelmente não dava a mínima para mim.

— Serena?

— Case comigo, Damien Hale.

As palavras ficaram suspensas no ar como um tiro.

Por um instante, Damien não se mexeu.

O sorrisinho que ele usava desapareceu, substituído por algo indecifrável. Devagar, ele se recostou na cadeira, me estudando como se eu fosse um enigma que ele nunca tinha visto antes.

— O quê? — disse, por fim.

— Eu sei como isso soa e eu...

— Me diga — ele interrompeu, a voz plana. — Como isso soa?

Engoli em seco.

— Eu estou pedindo para o tio do meu ex-noivo se casar comigo. Precisa que eu desenhe?

Ele me encarou por um segundo.

— E por que eu deveria me casar com você?

— Você estaria ganhando uma esposa. — Minha voz ganhou um fio de aspereza. — Além disso, metade do país parece convencida de que você já é dono de tudo, mas não consegue arrumar uma esposa.

— Eu não me importo — ele disse, seco e baixo.

Sentei mais ereta, os olhos presos nos dele, inflexível.

— Você disse que a única coisa capaz de quebrar os Hale... são os próprios Hale.

— E? — ele instigou.

— Eu quero que você me ajude a quebrar cada um deles que riu de mim — eu disse. — Publicamente. Limpo. Definitivo.

— Eles são minha família, Serena. Você enlouqueceu? — Ele soou quase divertido.

E talvez estivesse.

— Nós dois sabemos que você odeia eles. — Minha voz baixou. — Você não nasceu com favor. Você é o filho ilegítimo que abriu caminho na unha, vindo do nada. Eles te excluíram. Quem iria querer vê-los sofrer mais do que você?

Damien se recostou na cadeira, o mais leve sorrisinho de canto voltando aos lábios. Seus olhos não deixaram os meus, brilhando com algo que eu não soube nomear... diversão, aprovação, talvez até orgulho.

— Você está me pedindo... a um homem perigoso que vire seu aliado... e seu marido — ele disse devagar e de propósito, como se saboreasse as palavras. — Você ao menos sabe no que está se metendo, Serena Evans? Porque, quando você entra no meu mundo, não tem volta.

— Eu sei em que mundo eu estou entrando — respondi, fria. — E vou entrar mesmo assim. Você acha que perigo me assusta? Não assusta. Só o fracasso.

E, por um segundo fugaz, eu poderia jurar que os olhos dele se acenderam. Não de raiva, não de julgamento, mas de outra coisa.

Empolgação.

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