Capítulo 6 Segredos à Mesa

O céu sobre Vouliagmeni estava tingido de dourado quando o carro preto estacionou diante da mansão principal dos Andreadis.

O vento trazia o perfume das magnólias, e o mar, logo abaixo dos penhascos, murmurava como se guardasse histórias que ninguém ousava contar.

Larissa observou a fachada imponente à sua frente — colunas de mármore, varandas abertas, o brasão da família gravado sobre a entrada.

Era o lar onde Niko havia crescido.

E, segundo Alexis, o lugar que ele mais evitava voltar.

— A senhora Elena o aguarda para o jantar — informou o motorista, abrindo a porta.

Ela respirou fundo e desceu.

Estava linda — mas simples — em um vestido de seda azul, sem excessos. O colar com a pedra azul pendia no pescoço como uma ironia: presente do homem que agora seria julgado pela própria mãe.

Elena Andreadis a esperava no topo das escadas, rígida e elegante.

Os cabelos grisalhos estavam presos num coque perfeito, e o olhar — o mesmo olhar cortante de Niko — atravessava a alma.

— Então você é Larissa. — A voz dela era fria, musical. — A brasileira que conquistou meu filho.

Larissa sorriu com educação.

— É um prazer conhecê-la, senhora Andreadis.

— O prazer, imagino, é todo seu. — Elena virou-se e começou a andar. — Venha. O jantar não espera.

Larissa a seguiu, sentindo o peso invisível de cada passo.

O salão era um espetáculo de tradição e luxo — porcelanas antigas, prata polida, um piano de cauda.

Niko já estava lá, de pé ao lado da mesa, tenso.

— Mãe. — cumprimentou, contido. — Obrigado por nos receber.

— Receber? — Elena arqueou uma sobrancelha. — Receber uma nora que aparece de repente, sem aviso, sem casamento público, sem sequer uma foto oficial? Você devia me agradecer por não ter mandado investigar.

— Por que teria motivos para isso? — perguntou ele, gelado.

— Porque o nome Andreadis não se mistura facilmente, querido. — Ela o encarou. — Muito menos por impulso.

O silêncio que se seguiu era tão espesso que Larissa podia ouvir o tique-taque distante de um relógio antigo.

Ela percebeu que Niko apertava levemente a borda da taça — o único gesto que denunciava o desconforto.

Tentando aliviar a tensão, ela interveio:

— Senhora Andreadis, sei que tudo aconteceu rápido. Mas posso garantir que não foi por impulso.

Elena desviou o olhar para ela.

— Ah, então foi o quê? Amor à primeira vista?

Larissa manteve o tom sereno.

— Talvez destino.

A resposta surpreendeu as duas partes.

Niko a olhou, surpreso; Elena estreitou os olhos, intrigada.

— Destino — repetiu a matriarca. — Interessante. Há muito tempo não ouço meu filho usar essa palavra.

O jantar começou.

E foi, para Larissa, uma prova de fogo.

Elena fazia perguntas afiadamente educadas:

onde ela havia estudado, onde trabalhara, como conhecera Niko, se entendia grego, se tinha “ambições sociais”.

Larissa respondeu com a honestidade que podia.

Sabia que qualquer mentira sofisticada chamaria mais atenção.

— Sou formada em Letras. Trabalhei como professora por um tempo. Depois, vim para Atenas por um programa cultural. Foi… um acaso o encontro com seu filho.

— Um acaso? — Elena ergueu o cálice. — As mulheres raramente encontram um Andreadis por acaso, minha querida.

Niko interrompeu:

— Mãe.

— Só estou dizendo o que todos pensam, Nikolaus. — A voz dela agora era cortante. — Você sempre desprezou relacionamentos. Sempre disse que casamento era uma distração. E agora… aparece com uma estrangeira.

Larissa sentiu o coração apertar.

Sabia que precisava proteger a encenação, mas também percebeu que aquela mulher falava com feridas antigas.

— Talvez ele tenha mudado — disse, com suavidade.

Elena pousou o garfo.

— Homens como meu filho não mudam, Larissa. Eles apenas aprendem a esconder melhor o que sentem.

Os olhos de Niko endureceram.

— Basta, mãe.

Por um momento, ninguém se moveu.

O ar parecia eletrificado.

Então Elena respirou fundo e sorriu — um sorriso calculado, diplomático.

— Muito bem. Não quero discutir. Foi apenas uma observação.

Mas Larissa sabia que havia mais por trás daquelas palavras.

Depois do jantar, Elena os convidou para o jardim dos fundos.

O vento balançava as folhas das oliveiras, e o mar cintilava sob a luz da lua.

— Esta casa é velha demais para novos começos — disse Elena, olhando o horizonte. — Mas talvez vocês consigam provar que estou errada.

Ela se virou para Larissa.

— Sabe, meu filho era diferente antes. Mais leve. Mais… humano. Até que uma tragédia o mudou.

Larissa hesitou.

— Uma tragédia?

Elena assentiu lentamente.

— A mulher que ele amava morreu. E com ela, parte dele.

Niko a interrompeu, ríspido:

— Mãe, chega.

Mas Larissa já havia entendido.

O olhar de Niko, a frieza calculada, o controle… tudo fazia sentido agora.

Ele não era apenas um homem acostumado ao poder. Era um homem que havia amado — e perdido.

Elena a observou em silêncio.

— Se realmente se importa com ele, Larissa, lembre-se disto: não tente curar o que não quer ser curado.

Larissa engoliu em seco.

— Talvez ele só precise lembrar que ainda é possível sentir.

Elena sorriu, pela primeira vez, com um traço de admiração.

— Veremos. Boa noite, minha querida.

E se retirou, deixando-os sozinhos sob o luar.

Niko permaneceu em silêncio por um longo tempo, olhando o mar.

Larissa, ao lado dele, não sabia o que dizer.

— Ela não devia ter contado. — A voz dele era baixa. — Isso não é da conta de ninguém.

— Eu não pedi.

— Eu sei. — Ele suspirou. — Mas agora você sabe demais.

Larissa se aproximou um pouco.

— Saber não é o mesmo que julgar, Niko.

Ele a encarou.

— Então não julgue o homem que escolheu a dor em vez do amor.

— Eu não escolhi você — respondeu ela, firme. — Escolhi um contrato. Mas talvez eu tenha encontrado algo mais complexo do que esperava.

O olhar dele suavizou, só por um instante.

— Você é diferente.

— Isso é bom?

— É perigoso.

O vento soprou mais forte, fazendo o vestido dela se mover.

Por um segundo, o rosto de Niko pareceu vacilar — entre o controle e o desejo.

Mas ele deu um passo atrás.

— Vamos. O carro está esperando.

E, enquanto voltavam em silêncio, Larissa sentia o peso do que havia descoberto.

O contrato que a unia a Niko era apenas a superfície.

Debaixo dela, havia dor, culpa e um passado que ainda respirava — como uma ferida aberta que o tempo se recusava a fechar.

Naquela noite, quando se deitou, ouviu o som distante do mar.

E pensou nas palavras de Elena:

> “Não tente curar o que não quer ser curado.”

Mas Larissa era feita de teimosia e esperança.

E, mesmo sem perceber, começava a fazer exatamente isso.

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