Capítulo 7 Ecos do Passado

Os dias seguintes ao jantar com Elena Andreadis foram silenciosos na mansão.

Niko mergulhara no trabalho, e Larissa, entre os corredores de mármore e o som distante do mar, sentia o peso das perguntas que a assombravam.

A imagem da sogra, altiva e enigmática, ecoava em sua mente:

“A mulher que ele amava morreu. E com ela, parte dele.”

Larissa não deveria se importar. O contrato não incluía curiosidade emocional.

Mas algo em sua natureza — e talvez algo em seu coração — se recusava a aceitar o silêncio como resposta.

Naquela manhã, a casa estava vazia.

Niko havia saído cedo para uma reunião no porto de Piraeus, e Alexis acompanhava-o como sempre.

Larissa aproveitou para explorar o escritório privado do marido — um cômodo que ele mantinha trancado, mas que, naquela manhã, estava curiosamente destrancado.

O ambiente era frio, minimalista, e ainda assim… vivo.

Livros de filosofia e economia, pastas organizadas por cor, fotos antigas em molduras de prata.

Ela se aproximou de uma delas — um retrato de Niko mais jovem, sorrindo ao lado de uma mulher morena, de olhos claros e expressão vibrante.

No canto da foto, uma dedicatória em grego:

“Para sempre sua, A.”

Larissa passou os dedos sobre o vidro.

“A.”

Quem era ela?

O som de passos a fez se virar rapidamente, o coração disparado.

Mas era Sofia, a assistente doméstica.

— Senhora Andreadis — disse a mulher, hesitante —, o senhor Nikolaus pediu que deixasse tudo pronto para o jantar de amanhã.

— Claro. — Larissa sorriu. — Sofia… quem é a mulher desta foto?

Sofia congelou por um instante, os olhos fugindo do retrato.

— É… era Ariadne Markatos.

Larissa franziu o cenho.

— Markatos?

— Sim. — A voz de Sofia abaixou. — Irmã de Helena Markatos.

A informação caiu como uma pedra em sua mente.

Helena — a mulher que a havia recebido com um sorriso de veneno no evento — era irmã da mulher que Niko amara.

— E… o que aconteceu com ela? — perguntou Larissa.

Sofia olhou em volta, como se temesse ser ouvida.

— Um acidente. Cinco anos atrás. O carro caiu do penhasco da costa de Vouliagmeni. Dizem que Niko estava com ela, mas sobreviveu.

Larissa ficou imóvel.

O coração batia forte demais.

— Dizem?

— Sim. — Sofia baixou ainda mais o tom. — Há quem jure que não foi um acidente.

O dia passou devagar, e quando Niko voltou, o ar entre eles estava diferente.

Larissa o observou entrar — a postura ereta, o olhar cansado, a gravata afrouxada.

Ele parecia carregar o peso de alguém que aprendeu a viver com fantasmas.

— Está tudo bem? — perguntou ela, tentando soar casual.

— Sempre. — respondeu ele, frio. — Por quê?

— Porque às vezes você parece… ausente.

Ele se virou, fitando-a com aquele olhar cortante que ela já conhecia.

— E às vezes você faz perguntas demais.

Larissa cruzou os braços.

— É proibido tentar entender o próprio marido?

— Quando o casamento é um contrato, sim.

As palavras dele a atingiram com força.

Mas em vez de recuar, ela deu um passo à frente.

— Então me diga, Niko. O que aconteceu com Ariadne Markatos?

O nome caiu no ar como uma lâmina.

Niko congelou.

Por um segundo, Larissa viu o controle dele vacilar.

— Quem te contou esse nome?

— Não importa. Eu só quero saber a verdade.

O silêncio que se seguiu era espesso, denso.

Niko respirou fundo e caminhou até o bar, servindo-se de um copo de uísque.

A mão dele tremia — quase imperceptivelmente.

— Ela era… — começou, a voz baixa — …tudo o que eu não sabia que queria. Inteligente, livre, impossível de controlar.

Larissa o ouviu em silêncio.

— Mas a família dela nunca aceitou. Helena, principalmente. Ela achava que eu queria usar Ariadne para limpar o nome dos Andreadis, que já estava manchado pelo meu pai.

— E estava?

Ele a encarou, com um meio sorriso triste.

— Talvez. Eu era ambicioso, Larissa. Frio. Mas com ela… tudo parecia simples. Até o dia em que o carro despencou daquele penhasco.

Ele bebeu o uísque de um gole só.

— Eu dirigia.

Larissa sentiu um arrepio subir pela espinha.

— E sobreviveu.

— Sim. — Ele pousou o copo com força. — E ela não.

Por um momento, ele pareceu preso entre o passado e o presente.

— Disseram que foi o freio. Uma falha mecânica. Mas há dias em que eu acho… que não foi acidente.

— Está dizendo que alguém quis matá-la?

— Talvez. — A voz dele endureceu. — Ou talvez eu esteja apenas procurando uma desculpa para o que nunca vou perdoar em mim mesmo.

Larissa deu um passo à frente, hesitante.

— Niko…

Ele levantou a mão.

— Não. — O tom era um aviso. — Isso acabou. Ariadne está morta. E o que eu sinto também.

Mas Larissa viu o contrário nos olhos dele.

A dor ainda estava viva — queimando, sufocando.

Naquela noite, ela não dormiu.

Ficou deitada, olhando o teto, revendo tudo o que ouvira.

Ariadne Markatos. O carro. Helena. O penhasco.

Tudo se encaixava… e ainda assim, faltava algo.

O relógio marcava quase duas da manhã quando Larissa se levantou.

Pegou o tablet sobre a mesa e digitou o nome: “Ariadne Markatos acidente Vouliagmeni”.

Os resultados mostraram notícias antigas.

Uma, em especial, chamou sua atenção:

> “Misterioso acidente envolvendo herdeira Markatos e empresário Nikolaus Andreadis. Freios adulterados, investigação arquivada sem conclusão.”

Larissa leu e releu a frase.

Freios adulterados.

Investigação arquivada.

Seu coração disparou.

Não era apenas um trauma.

Era um segredo enterrado.

Na manhã seguinte, Niko estava no escritório quando ela entrou.

Ele levantou o olhar, surpreso.

— Aconteceu algo?

Larissa colocou o tablet sobre a mesa.

— Li sobre o acidente.

O olhar dele escureceu.

— Eu te avisei para não mexer nisso.

— Niko, alguém mexeu nos freios do carro. Você entende o que isso significa?

— Significa que o passado deve continuar onde está.

— E se ele não ficar? — rebateu ela. — E se for isso que ainda te prende?

Ele se levantou, a voz subindo um tom.

— Eu não preciso que você me salve, Larissa!

Ela deu um passo à frente, o encarando de igual para igual.

— E talvez eu não queira te salvar! Talvez eu só queira entender por que você insiste em se destruir!

O silêncio caiu como um golpe.

Os dois ficaram ali, frente a frente, respirando rápido.

A tensão era quase física — uma mistura de raiva, dor e algo que nenhum dos dois ousava nomear.

Niko passou a mão pelos cabelos, desviando o olhar.

— Você não faz ideia do que está mexendo.

— Então me mostre. — A voz dela era firme. — Me conte tudo.

Ele a olhou por longos segundos.

Depois, murmurou:

— Amanhã. Eu te levo até o penhasco.

E saiu, deixando-a sozinha com o coração batendo forte demais.

Larissa ficou olhando a porta fechada, tentando entender o que acabara de acontecer.

O homem que ela conhecera como calculista e impenetrável agora estava prestes a abrir a única ferida que nunca cicatrizara.

E, enquanto o mar rugia ao longe, ela soube que o contrato estava prestes a mudar.

Não seria mais apenas uma farsa conveniente.

Seria o fio que os uniria — ou os destruiria.

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