Capítulo 2

Olivia comprou as pílulas do dia seguinte e foi em direção ao banheiro ali perto. Só então percebeu que tinha saído usando uma camisa masculina. Não era à toa que o dono da farmácia tinha olhado pra ela daquele jeito estranho.

Sem outra opção, improvisou rápido e transformou a camisa em um vestido.

Assim que abriu a porta, um estouro de flashes disparou, deixando-a momentaneamente cega.

Assustada, Olivia abaixou a cabeça por instinto para proteger o rosto e correu de volta para dentro do banheiro, trancando a porta atrás de si, com o coração disparado.

Por que tinha repórter ali?

Se fosse parar nas notícias, seria um desastre.

Ela tateou desesperada atrás do celular para pedir ajuda, mas ele estava morto. Lembrou que tinha usado os últimos 2% de bateria para comprar as pílulas.

Olivia vasculhou o ambiente, procurando uma rota de fuga. Aproximou-se com cuidado da janela e espiou lá fora, avistando algumas figuras suspeitas rondando lá embaixo.

Será que ia ficar presa ali o dia inteiro?

Mas e os pais dela...

Enquanto lutava com os próprios pensamentos, uma voz clara chamou do lado de fora da porta:

— Olivia, você tá aí?

Olivia congelou, tentando identificar a voz.

— Olivia? — a voz chamou de novo.

O coração de Olivia deu um salto de alegria. Ela correu até a porta e perguntou:

— Luna, o que você tá fazendo aqui?

Ela abriu a porta.

Do lado de fora estava Luna Smith, que parecia quase igual a Olivia, só que um pouco mais nova e com um ar mais ingênuo.

Luna agarrou a mão de Olivia e respondeu:

— Eu senti que tinha alguma coisa errada, então vim te procurar. Vi um monte de gente rodando aqui fora e imaginei que você podia estar aqui.

Olivia não teve tempo de questionar a lógica daquilo. Sentiu um alívio enorme, agradecida porque Luna, apesar do jeito espalhafatoso de sempre, se importava o suficiente para ir atrás dela.

— Obrigada.

Ela saiu, sem mais tentar esconder o rosto.

Mas, no instante em que apareceu, os flashes explodiram de novo.

Luna se colocou na frente dela às pressas, e as duas praticamente se jogaram dentro do carro, mandando o motorista arrancar dali.

Olivia ficou de olho pelo retrovisor, se certificando de que não estavam sendo seguidas, mas a cabeça dela fervilhava. Será que tinham conseguido fotografar o rosto dela?

— Olivia, desculpa. Eu achei que tinha despistado eles, mas eles ainda tavam lá fora — Luna se desculpou, com lágrimas escorrendo pelo rosto, cortando o fio dos pensamentos de Olivia.

Olivia voltou à realidade na mesma hora, percebendo que Luna só tinha tentado ajudar. Ela consolou a irmã:

— Tá tudo bem, eles provavelmente nem conseguiram uma foto nítida.

Os olhos de Luna continuavam vermelhos, e ela insistiu:

— Por favor, não fica brava comigo.

Olivia não conteve uma risada entre as próprias lágrimas:

— Por que eu ia ficar brava com você?

Ela estava agradecida; afinal, tinha passado a vida apagando incêndios causados por Luna.

Uma hora depois, na Mansão Smith.

Olivia terminou o banho e desceu as escadas, a toalha parando no meio do caminho enquanto ela secava o cabelo.

Aiden Smith e Harper Anderson estavam sentados no sofá, com um jornal aberto sobre a mesa de centro.

A foto dela, toda desarrumada, tinha sido ampliada e ocupava um lugar de destaque na primeira página.

Olivia se virou para subir de novo.

A voz furiosa de Aiden a fez parar:

— Volta aqui!

Ela engoliu em seco, hesitou por um instante e foi até eles, falando com a voz rouca:

— Pai, mãe, deixa eu explicar.

— Explicar o quê? Já saiu em tudo quanto é lugar! A filha da família Smith, moralmente decadente, viciada em escândalos! — Aiden esbravejou, enfiando o dedo no jornal a cada palavra.

Cada batida do dedo era como um golpe no peito de Olivia.

A voz dela falhou, os olhos se enchendo de lágrimas:

— Pai, não é o que você tá pensando. Eu fui vítima, ele me atacou!

— Então por que você não chamou a polícia? — Aiden rugiu. — Eu te falei pra não ir nesses lugares suspeitos, mas você não me ouviu. Agora olha o que você fez, jogou o nome da família Smith na lama. Isso é a sua vingança?

Aiden continuou:

— Vingança porque eu não te dei mesada? Fui eu que não dei? Não, foi você que ficou com rancor da sua irmã por causa de uns trocados, e agora olha onde a gente chegou!

Aiden ainda disse:

— A Luna tentou te ajudar, e você coloca a culpa nela!

O rosto de Aiden ficou vermelho de raiva, suas palavras acertando Olivia como marteladas.

Harper tentou acalmá‑lo, repreendendo Olivia:

— Olivia, você já tem idade pra saber o que faz. Para de irritar seu pai, pede desculpa!

Os lábios de Olivia tremiam, mas ela não conseguia se forçar a pedir desculpa. Uma onda de tristeza indescritível tomou conta dela.

Por vinte anos, pedir desculpa dentro da família Smith tinha sido rotina, mas dessa vez ela sentiu uma dor profunda.

Ao perceber a resistência dela, o temperamento de Aiden explodiu; ele deu um tapa forte no rosto da filha, fazendo a cabeça dela virar de lado, o gosto de sangue enchendo sua boca.

Harper se assustou e sentiu uma pontada de pena de Olivia; segurou a mão de Aiden e disse:

— Chega, a Olivia não fez por mal. Essas reportagens estão exageradas. Pra que bater nela?

Aiden ainda estava furioso. Com a mão contida, ele usou o pé: deu um chute com toda a força na barriga de Olivia e cuspiu as palavras, cheias de veneno:

— Você é uma vergonha pra família Smith! Eu vou abafar isso, mas se acontecer de novo, você tá fora!

Ele se desvencilhou da mão de Harper, saiu furioso depois de dar mais dois chutes e atirar um copo nela.

Olivia abraçou a barriga, o suor escorrendo da testa, e olhou para Harper em busca de ajuda.

A expressão de Harper oscilava entre pena e irritação. Ela estendeu a mão, hesitante, mas a voz dura de Aiden, vinda da escada, a interrompeu:

— Deixa ela!

Harper recolheu a mão e sussurrou:

— Espera seu pai se acalmar, depois você pede desculpa. Ele vai te perdoar.

— Você não é nada parecida com a Luna! — a voz de Aiden ribombou lá de cima, seguida pelo estrondo seco da porta do escritório se fechando.

Harper hesitou, deu um tapinha de leve na mão de Olivia e subiu.

Olivia ficou ali, o corpo inteiro doendo, cada passo trazendo mais dor. Os empregados a evitavam, fingindo que ela não existia.

Ela subiu devagar, de volta pro próprio quarto.

O pijama novo estava sujo, então Olivia foi tomar banho.

Ela abriu o chuveiro e foi recebida por uma água gelada de cortar.

Tocou a campainha para chamar algum empregado pra verificar.

Depois de dez minutos, finalmente alguém apareceu e respondeu, com indiferença, do lado de fora da porta:

— O encanador tá ocupado, a senhora vai ter que se virar.

Olivia ficou olhando para a água fria respingando nos pés, sem dizer nada.

O empregado completou:

— Vou ficar ocupado agora.

Os passos se afastaram, deixando Olivia sozinha no banheiro.

Naquela casa, ninguém se importava com ela.

Olivia não conseguia entender o motivo.

— Olivia? A empregada disse que você só tá com água fria? Você pode usar o meu banheiro — ofereceu Luna, gentilmente, do lado de fora.

— Não precisa — Olivia recusou, se lavando rápido com a água gelada.

Ao se virar, um pensamento incômodo surgiu. Luna parecia saber onde ela estava o tempo todo, com uma precisão estranha.

Será que...?

Antes que pudesse pensar melhor, Luna abriu a porta, os olhos cheios de preocupação:

— Você tá bem?

Ela lançou um olhar para a pele exposta de Olivia.

Estava coberta de hematomas.

Olivia nem tinha percebido, tomada por uma solidão profunda:

— Eu tô bem.

Luna a conduziu para fora e disse:

— O pai só ficou nervoso. Eu vou conversar com ele depois, vai dar tudo certo.

Olivia forçou um sorriso fraco.

— Eu nunca imaginei que você seria a pessoa que mais se importa comigo.

— Não sou só eu, a Emily também tá aqui — Luna fez um gesto com a cabeça em direção ao quarto.

Olivia viu Emily Wilson sentada ali, e sua expressão se contraiu.

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