Capítulo 5

Victoria acordou com o cheiro forte de desinfetante do hospital. Ficou alguns segundos encarando o teto, sem expressão, e murmurou:

— Pelo menos ainda existem pessoas boas por aí.

Mas ela nunca tinha gostado daquele cheiro. Assim que a cabeça clareou um pouco, tentou se levantar, já pensando em ir embora.

— O médico disse que o seu ferimento precisa de repouso. Você não deve fazer nada muito intenso por um mês. — A voz era calma e firme, nem apressada nem lenta.

Victoria levou um susto.

Tinha alguém no quarto e ela nem tinha percebido? Devia estar bem fora de si para ter os sentidos tão embotados.

Victoria olhou na direção da voz. Que rosto bonito. Espera… ele parecia familiar.

Ela o examinou com atenção e, de repente, suas pupilas se contraíram.

Não era o cara de ontem à noite? Como ele tinha vindo parar ali? Será que veio atrás dela? Para fazê‑la assumir responsabilidade?

A mente de Victoria disparou, seus olhos correndo de um lado para o outro.

Ela não sabia, mas Alexander via perfeitamente cada microexpressão, interpretando tudo como culpa por ter sido desmascarada.

Ela não tinha sentido medo enquanto estava “atuando” na frente dele, mas agora, prestes a ser descoberta, estava apavorada.

Ele queria ver como Victoria ia tentar encobrir a mentira.

Alexander perguntou de propósito:

— Surpresa de me ver aqui? Não era isso que você queria?

Victoria arregalou os olhos com aquelas palavras, achando tudo tão absurdo quanto engraçado. O que ela queria? Não tinha sido aquele homem que tinha se agarrado à ideia de ter algo com ela?

O verdadeiro mistério era ele ter aparecido ali, do nada.

Victoria contraiu os lábios, quebrando a cabeça para descobrir como se livrar da obsessão de Alexander. Ela sugeriu, cautelosa:

— Nós dois somos adultos. Não seria melhor só… esquecer um do outro?

Para sua surpresa, Alexander ergueu a sobrancelha, divertido. Aquilo era algum truque novo, uma forma de fazer charme fingindo desinteresse? Ela realmente achava que ele cairia numa armadilha tão simples?

Ele tinha pensado em ir embora, como ela queria, só para ver que outro truque ela ainda podia usar. Mas, quando se levantou, de repente lembrou do ferimento no abdômen dela. Seu semblante mudou e ele trocou de assunto:

— Aliás… como você se machucou?

Victoria detestava gente que não largava do pé. Ao vê‑lo mudar de tema, pensou que ele estivesse procurando um pretexto para continuar importunando. Seu rosto esfriou quando respondeu:

— O que isso te interessa? Você se apaixonou por mim à primeira vista, foi?

A mudança brusca de atitude aguçou ainda mais o interesse de Alexander.

Essa Victoria era diferente das outras.

— Só curiosidade.

— Não seja tão curioso. — Victoria baixou os olhos, tomada por um cansaço profundo.

Aquele olhar fez Alexander afastar as suspeitas.

A mulher da noite anterior tinha olhos tão claros que chegavam a impressionar. Mesmo num quarto escuro, mesmo com ele meio desacordado, ele se lembrava daquelas íris, de um relance à luz do luar que não dava para esquecer.

Mas a pessoa na frente dele tinha um olhar apagado, sem brilho, carregado de cansaço do mundo.

Depois de deixar as suspeitas de lado, Alexander sentiu um leve desapontamento.

Ele não falou nem foi embora, e Victoria não aguentava ter outra pessoa ocupando o espaço dela. Não se conteve e disse:

— Foi você que me trouxe pro hospital? Obrigada. Eu transfiro o valor dos gastos pra você. Agora, eu queria um pouco de paz.

Quanto mais ela tentava se livrar dele, mais Alexander desconfiava.

Ele tinha ficado sabendo pela Bianca que Victoria era bem habilidosa com a arma Peaceful B‑1, e que o conhecimento dela sobre armamentos era comparável ao de um especialista.

Seja o conhecimento que não combinava com a idade dela, seja as atitudes recentes, tudo nela era suspeito.

Os cílios longos de Alexander subiam e desciam enquanto ele perguntava, como quem não quer nada:

— Srta. Gonzalez, você parece entender bastante de armas, não?

A expressão de Victoria congelou por um instante; ela abaixou o olhar.

— Só coisa que eu li na internet.

Mas a mão já tinha ido direto ao celular, digitando rápido uma mensagem:

[Depressa, me manda um link explicando a arma Peaceful B‑1.]

Alexander claramente não acreditou nela.

— Esse negócio que você contou pra Bianca, nem na internet dá pra achar informação tão detalhada assim. Onde foi que você leu isso?

Na janela de conversa da amiga aparecia o “digitando” sem parar. O rosto de Victoria estava impassível, mas por dentro ela estava irritada.

— Tem informação de sobra na internet. Se você não consegue achar, não bota a culpa nos outros por serem inteligentes.

Finalmente, a amiga mandou o link.

Victoria abriu o link, que parecia bem legítimo, e mostrou para Alexander.

— Senhor, agora o senhor já pode ir? Se eu tiver algum problema, a polícia vem atrás de mim.

Ela resmungou baixinho:

— Gente intrometida só arruma encrenca.

Ainda assim, estava um pouco tensa. O que tinha de errado com esse tal de Alexander? Além de ter conseguido encontrá-la, ainda podia reconhecer a outra identidade dela? Será que tinham descoberto quem ela era?

Ela tinha acabado de voltar e tinha tanta coisa pra resolver. Será que ia precisar sumir por um tempo?

Pensando nisso, Victoria olhou de novo para Alexander. Infelizmente, hoje o horário e o lugar não ajudavam, senão ela já teria dado um jeito nele.

Victoria se perdeu nos próprios pensamentos.

Alexander, por outro lado, estava indeciso.

Com a capacidade que tinha de ler as pessoas, ele tinha certeza de que Victoria não era simples, mas não conseguia encontrar nenhuma prova concreta.

— Srta. Gonzalez, você...

— Victoria! — Bianca irrompeu no quarto de repente, cortando Alexander. Ela correu até a cama de Victoria, os olhos arredondados cheios de preocupação. — Você tá bem? Eu vi um corte enorme na sua barriga. Foi aquele cara mau que fez isso? Eu vou matar ele!

A tensão e a vigilância de Victoria se desfizeram na hora. Ela não conseguiu segurar um misto de riso e choro, e consolou Bianca:

— Não foi nada. É um ferimento antigo. Não me atrapalha em nada. Fica tranquila.

— Como que não foi nada! — Os olhos de Bianca se encheram de lágrimas. Ela se virou e lançou um olhar furioso para Alexander. — Eu falei que a Victoria é uma boa pessoa. Ela não se aproximou de você de propósito, e você ainda fica desconfiando dela!

A cabeça de Victoria se encheu de interrogações. Aproximou-se dele de propósito? Quem era esse figurão pra alguém precisar chegar perto de propósito?

Espera. Isso queria dizer que ele não tinha reconhecido ela?

Ela tornou a encarar Alexander e, como esperava, nos olhos dele só havia cautela e desconfiança.

Victoria soltou um longo suspiro. Ótimo. Contanto que mantivesse distância dele, o acontecido da noite passada poderia ser esquecido.

Só era uma pena quanto àquela amiga nova. Fazia tanto tempo que ela não tinha alguém com quem conversar sobre armas.

— Victoria, me dá o seu comunicador — Bianca cutucou o braço dela, tirando-a dos pensamentos.

Victoria entregou o aparelho. Enquanto Bianca mexia nele, Victoria percebeu de fato o que era o comunicador. Era tecnologia de ponta, feito sob medida pelos maiores especialistas em tecnologia do mundo.

Ela já tinha visto um de longe, numa conferência, e brincado que aquilo era algo que ela nunca ia ter na vida.

Nunca imaginou que fosse ver um tão de perto agora.

Quem exatamente era esse Alexander?

— Pronto! — Bianca colocou o comunicador de volta no pulso de Victoria e explicou, muito séria: — Aperta a luz verde pra falar comigo, e aperta duas vezes a vermelha pra falar com ele. Se você estiver em perigo, ele vai te proteger! Apesar de ele viver desconfiando de tudo, ele é uma boa pessoa.

Ela apontou para Alexander, que estava sentado num canto, de cara fechada.

Alexander cruzou os braços, avaliando Victoria, ainda desconfiado de que ela tivesse se aproximado de Bianca só pra chegar perto dele.

Conquistar a confiança de Bianca em tão pouco tempo… ela com certeza tinha se esforçado pra isso.

Victoria se irritou com o olhar vindo do canto. Ela afagou Bianca com a voz mansa:

— Eu vou me trocar e ir pra casa. Que tal você ir pra casa com o seu pai primeiro? Depois a gente se fala.

A sobrancelha de Alexander deu um leve espasmo. Pai?

Quase todo mundo na Cidade Esmeralda sabia qual era a relação dele com Bianca. Essa Victoria com certeza estava se fazendo de desentendida, com segundas intenções!

Ele impediu Bianca de explicar e disse, num tom sem emoção:

— Já que você salvou a Bianca, eu vou te levar pra casa.

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