Capítulo 1 Mais uma chance
Anastasia Stafford estava parada, nervosa, do lado de fora da porta do lounge, agarrada ao celular.
Na tela, havia uma mensagem de sua mãe adotiva, Yvette Jenkins.
[Anastasia, você já está chegando? Caspian está esperando você há um tempão.]
Hoje era o dia do noivado dela. Para a ocasião, ela tinha trocado de roupa especialmente e vestido o único vestido decente que possuía.
A pessoa de quem ela gostava em segredo desde os dez anos, o homem cujo sorriso era capaz de deixá-la feliz o dia inteiro — ele estava prestes a se tornar seu noivo!
Anastasia respirou fundo e ia empurrar a porta para abrir quando as vozes lá dentro a fizeram congelar.
— Mãe, você acha que a Anastasia desconfia de alguma coisa?
Era a voz de Renee Stafford, suave e doce, com um toque de brincadeira. — Afinal, você foi ao orfanato adotá-la exatamente no dia em que saíram os resultados do exame de sangue da cidade inteira. Quais são as chances?
— Desconfiar? — a voz de Yvette soou despreocupada. — Com aquele cérebro idiota dela? Ela vem obedecendo e fazendo tudo o que a gente manda todos esses anos, não vem? Você diz que não está se sentindo bem e ela doa sangue sem pensar duas vezes. Extração de medula dói pra caramba — ela já se recusou alguma vez?
— Mãe — Renee alongou a palavra —, não fala assim. Eu até me sinto bem culpada. Principalmente no aniversário de vinte e três anos da Anastasia… eu fingi ter uma crise e, quando ela soube que eu estava em estado crítico, correu para o hospital e doou quinhentos mililitros de sangue. Ela ficou tão pálida… dava até dor no coração.
Yvette soltou um resmungo. — Dor no coração? Se o tipo sanguíneo dela não batesse com o seu, você acha que ela teria vivido dezoito anos de vida boa com a família Stafford? Essas contribuições são o que ela nos deve. Quando deixar de ser útil, a gente simplesmente põe pra fora.
O sangue no corpo de Anastasia congelou na mesma hora.
O corpo dela vacilou, e ela estendeu a mão para se apoiar na parede.
Dezoito anos.
Dezoito anos inteiros.
Ela achou que finalmente tinha sido aceita por aquela família, mas a verdade era essa.
Ela se lembrou da primeira doação de sangue. Tinha acabado de ser adotada pela família Stafford — tinha só oito anos.
Quando a agulha perfurou sua veia fina, ela chorou de dor.
Yvette a abraçou e disse: “Anastasia, o que importa é salvar a Renee. Quando a Renee melhorar, ela pode brincar com você.”
Ela acreditou.
Quando fez dez anos, passou pela primeira extração de medula óssea.
Depois que a anestesia passou, a dor a mantinha acordada noite após noite. Yvette segurou a mão dela e disse: “A Anastasia é tão forte. A recuperação da Renee depende de você.”
Ela aguentou.
De doações repetidas de sangue a extrações de medula, até coleta de células-tronco.
Ela nem lembrava quantas vezes tinha feito aquilo. Só lembrava que, depois de cada vez, Yvette fazia carinho na cabeça dela e dizia: “A Anastasia é tão compreensiva. Não foi à toa que a gente te criou.”
Então era isso que ela queria dizer.
— Renee, não se preocupa.
Uma voz masculina se intrometeu — era seu noivo, Caspian Learmond.
— Eu vou ficar noivo dela só pra ela se dedicar ainda mais a ser sua doadora. Quando ela ficar completamente inútil, eu desfaço o noivado e me caso com você com toda a pompa.
Renee disse, manhosa:
— Caspian, tratar ela assim… ela é tão coitada.
— Coitada? O que tem de coitado nisso? — o tom de Caspian foi indiferente. — Eu sempre amei você. E ela é o quê? Só uma bolsa de sangue.
Anastasia mordeu com força o lábio inferior, sentindo o gosto de sangue.
Então, aos olhos dessas pessoas, seus dezoito anos de sacrifício, dezoito anos tentando agradá-los, dezoito anos engolindo o orgulho — tudo isso era esperado.
O único propósito dela era ser a bolsa de sangue da Renee!
Ela queria ir embora, mas as pernas pareciam incrivelmente pesadas.
Nesse momento, um garçom passando com uma bandeja perguntou com educação:
— Senhorita, a senhora veio para a festa de noivado? Quer que eu a acompanhe até o lounge?
Lá dentro, o ambiente ficou silencioso na mesma hora.
No segundo seguinte, a porta foi escancarada.
Yvette saiu primeiro. Ao ver Anastasia, a expressão dela mudou por um instante, mas logo ela vestiu o papel de mãe amorosa.
— Anastasia? Quando você chegou? Por que não entrou?
Renee veio logo atrás, e os olhos dela se encheram de lágrimas na hora.
— Anastasia… você não ouviu tudo, ouviu?
O irmão mais velho dela, Patrick Stafford, veio do outro lado do corredor. Ao ver a cena, franziu a testa.
— O que está acontecendo?
— Patrick — Renee agarrou a manga dele, com os olhos marejados —, parece que a Anastasia entendeu alguma coisa errado. Ela está com uma cara péssima.
Assim que Caspian saiu e viu o rosto pálido de Anastasia e as lágrimas nos olhos dela, um lampejo de impaciência cruzou sua expressão.
— Anastasia, se tem alguma coisa pra conversar, vamos entrar. Não faça escândalo aqui fora.
Anastasia ergueu os olhos para as pessoas à sua frente.
Sua dedicada mãe adotiva, Yvette, sua querida irmã adotiva, Renee, seu respeitado irmão mais velho, Patrick, e Caspian, a quem ela amara por oito anos.
De repente, aquilo lhe pareceu risível. “Eu ouvi tudo.”
Os olhos de Yvette vacilaram, mas ela logo assumiu uma expressão de dor. “Anastasia, você entendeu errado? Eu só estava brincando com a Renee...”
“Brincando?” Anastasia a interrompeu, a voz começando a tremer. “Você só me adotou depois de descobrir que meu tipo sanguíneo era compatível com o da Renee, e chama isso de brincadeira? Todo o sangue que eu doei, toda a medula óssea que eu dei — você chama isso de brincadeira? Ou está dizendo que meus dezoito anos são só uma piada para você?”
“Anastasia!” O rosto de Patrick escureceu. “É assim que você fala com a mamãe? A família Stafford te acolheu, e é assim que você retribui?”
“Retribuir?” As lágrimas finalmente rolaram pelo rosto de Anastasia. “Eu fui adotada pela família Stafford quando tinha oito anos. Agora tenho vinte e seis. Você sabe quantas vezes eu doei sangue, quantas vezes tiraram medula óssea de mim? Eu não sei, porque perdi a conta. Isso não é retribuição suficiente?”
“Anastasia...” Renee começou a soluçar, o rosto pálido como a morte. “A culpa é toda minha. Minha saúde é muito fraca, e eu te arrastei para isso. Se você quer culpar alguém, me culpe, não a mamãe e o Patrick.”
Enquanto falava, o corpo dela balançou.
Patrick a segurou imediatamente, olhando para Anastasia com nojo. “Olha o que você fez com a Renee! Você sabe que ela não está bem, não sabe? Se você tem algum problema, desconte em mim!”
Anastasia sorriu com amargura. “Você manda eu descontar em você. A Renee tem você para protegê-la — mas e eu? Quem é que algum dia ficou do meu lado?”
A expressão de Patrick vacilou um pouco.
“Chega.” Caspian falou friamente. “Anastasia, o que exatamente você quer? Hoje é o dia do nosso noivado. Você precisa mesmo fazer um escândalo?”
Ao ouvir Caspian acusá-la de fazer um escândalo, o coração de Anastasia latejou de dor. “Já que você falou em noivado, deixa eu te perguntar: você já sentiu por mim, ao menos uma vez, alguma coisa de verdade?”
Caspian desviou o olhar, sem responder.
A resposta já estava clara.
Renee convenientemente fingiu desmaiar. Patrick a segurou depressa, lançando a Anastasia um olhar feroz. “Se acontecer alguma coisa com a Renee, eu não vou deixar barato!”
Yvette também deu dois passos à frente, mas de repente se virou. “Anastasia, eu ia deixar você ficar com a família Stafford com um mínimo de dignidade. Quando a Renee se recuperasse completamente, eu naturalmente te daria algum dinheiro para ir embora. Mas já que você insiste em fazer cena, não me culpe por não respeitar esses dezoito anos.”
Dezoito anos.
Anastasia riu, com lágrimas escorrendo pelo rosto. “A gente tem alguma coisa para respeitar?”
Os olhos de Yvette ficaram completamente frios. “Já que você não sabe reconhecer o que é melhor para você, eu não preciso mais te tratar como minha filha.”
Vendo Anastasia bloqueando o caminho, Yvette estendeu a mão sem se conter e empurrou Anastasia para o lado.
Anastasia não esperava que ela partisse para a agressão. Ela cambaleou para trás, e a cintura bateu no corrimão atrás dela.
O corrimão era baixo, só chegava à altura das coxas.
O corpo inteiro dela se inclinou para trás.
“Não!”
O tempo congelou naquele instante.
Ela viu Yvette recolher a mão depressa, a expressão mudando de raiva para choque, mas não havia nenhum traço de preocupação naqueles olhos.
Patrick, segurando Renee, avançou sem olhar para trás.
E Caspian instintivamente deu um passo à frente, tentando segurá-la, mas, no momento em que ia agarrá-la, puxou a mão de volta de repente.
Porque Renee acordou naquele instante, chamando fracamente “Caspian”, e ele se virou para ver como ela estava.
Em seus vinte e seis anos de vida, ninguém se importou com Anastasia.
O corpo de Anastasia caiu do quarto andar, batendo com força no chão.
Uma dor intensa atravessou cada parte do seu corpo no mesmo instante.
Ela sentiu um líquido quente escorrendo da parte de trás da cabeça.
Gritos explodiram ao redor.
No caos, seu olhar continuou preso à borda do corrimão no quarto andar.
Yvette, Patrick e Caspian estavam todos reunidos em torno de Renee, ocupados em consolá-la.
Ninguém olhou para baixo.
As pálpebras de Anastasia ficaram pesadas, e sua consciência foi se apagando aos poucos.
Aquele era o fim dela.
No fim, ela era apenas uma bolsa de sangue com a qual ninguém se importava.
Se ela pudesse viver de novo...
Seus olhos se fecharam, sem que ela conseguisse impedir.
Se pudesse recomeçar, nunca mais acreditaria nas mentiras dessas pessoas.
Se pudesse recomeçar, viveria apenas por si mesma.
