Capítulo 2 Brincando

—Anastasia! Anastasia! Acorda!

Os olhos de Anastasia se abriram de supetão, encarando um teto que parecia ao mesmo tempo familiar e estranho.

Ela estava no quarto dela, na casa da família Stafford?

—Anastasia! Você ficou surda? —a voz impaciente de Patrick veio do lado de fora da porta. —A Renee está muito mal. Levanta e vai pro hospital doar sangue pra ela!

Patrick não tinha acabado de sair carregando Renee nos braços, sem nem olhar para trás, quando ela caiu do prédio?

Por que ele estava insistindo para que ela fosse ao hospital doar sangue?

Anastasia se sentou devagar e levou a mão à nuca. Nenhum ferimento.

Mesmo que tivessem salvado a vida dela, seria impossível estar completamente bem em tão pouco tempo.

Ela pegou o celular na mesa de cabeceira e abriu o calendário.

2023!

Ela tinha renascido!

E tinha renascido de volta ao dia do seu aniversário de 23 anos, o dia em que Renee fingiu estar doente para enganá-la e fazê-la doar sangue!

—Anastasia! —A porta tremeu com as pancadas. A paciência de Patrick estava se esgotando. —Se você não sair, eu vou arrombar essa porta!

Anastasia teve de se levantar e abrir.

Quando Patrick a viu sair, franziu a testa. —Por que você está enrolando? A Renee está esperando no hospital. Você não sabe o quão urgente é a situação dela?

Ao ver a impaciência e o nojo na expressão de Patrick —embora ele claramente parecesse alguns anos mais novo—, Anastasia teve ainda mais certeza.

Ela realmente tinha renascido.

—O que você está encarando? —Patrick se sentiu um pouco incomodado com o olhar dela. —Anda, vai se trocar. Desce em dez minutos.

Dito isso, ele se virou e foi embora.

Anastasia voltou para o quarto e foi até o espelho.

O reflexo mostrava traços delicados, mas um rosto pálido, com olheiras —marcas deixadas pela desnutrição prolongada e pelas doações de sangue frequentes.

Ela abriu o guarda-roupa. Lá dentro, pendiam algumas roupas velhas, lavadas até desbotarem. O único vestido bonito era o que ela tinha usado na festa de noivado na vida anterior.

Anastasia estendeu a mão para tocar o vestido e, em seguida, desviou o olhar.

Talvez Deus tivesse tido misericórdia e lhe dado uma chance de recomeçar.

Ela não seguiria o mesmo caminho da vida anterior.

Na sala de estar.

Yvette estava sentada no sofá, tomando café.

Ao ver Anastasia descer, os lábios dela se curvaram naquele sorriso amoroso de sempre. —Anastasia, você acordou? Come alguma coisa rápido. Ainda precisamos ir ao hospital.

Um café da manhã farto estava disposto sobre a mesa.

Mas tudo estava colocado diante do lugar de Renee.

Na frente de Anastasia, havia apenas um copo de leite e uma fatia de pão.

Essa era a regra da família Stafford.

As coisas boas eram para Renee. Anastasia só precisava receber o suficiente para não passar fome.

Anastasia mal tinha se sentado à mesa e ainda nem tinha pegado o pão quando Yvette ergueu a mão para ver as horas, com um tom apressado: —Anastasia, come logo. A Renee não pode esperar. O hospital acabou de ligar dizendo que o estado dela não está bom e que ela precisa de uma transfusão de sangue imediatamente.

—Uhum. —Anastasia respondeu e continuou mastigando devagar.

Ao ver a reação indiferente de Anastasia, a testa de Yvette se franziu.

Depois de tudo aquilo, Anastasia não deveria, sensatamente, se oferecer para pular o café da manhã e priorizar a doação de sangue no hospital?

Patrick desceu as escadas e viu Anastasia tomando café. Sua expressão escureceu na hora. —Por que você ainda não terminou de comer? A Renee está deitada no hospital, e você aqui, tranquilamente, tomando café da manhã?

Anastasia ergueu o olhar para ele. —Patrick, que horas são?

—Sete e meia. Por quê?

—Que horas o hospital permite visitas?

—Oito horas. —Patrick disse, impaciente. —Mas a situação da Renee é urgente, precisamos ir mais cedo...

—Já que o horário de visita começa às oito —Anastasia o interrompeu—, se eu for agora, só vou poder esperar do lado de fora do quarto. Então por que precisamos ir mais cedo?

Patrick congelou.

O olhar de Yvette para Anastasia mudou. —Por que você, de repente, está criando caso com isso? A Renee é sua irmã. Quando ela sofre, nós sofremos também. É claro que queremos estar com ela o quanto antes.

Anastasia sustentou o olhar de Yvette. —Pelas regras do hospital, ir mais cedo não vai nos deixar estar com ela, vai?

O ar ficou subitamente silencioso.

Patrick e Yvette trocaram olhares, ambos vendo confusão nos olhos um do outro.

Anastasia não tinha sempre feito de tudo para ser aceita por eles? Por que ela parecia diferente hoje?

Antes, sempre que mencionavam que Renee estava em estado crítico, ela corria mais rápido do que qualquer um, com medo de atrasar nem que fosse um segundo.

Hoje, por que parecia que ela estava deliberadamente enrolando?

A expressão de Patrick ficou complexa. —Anastasia, o que deu em você?

Yvette conteve as emoções e retomou a aparência materna. —Anastasia, o que foi? Você está se sentindo mal em algum lugar? Por que, de repente, está dizendo essas coisas?

—Eu sei que hoje é seu aniversário, mas a saúde da Renee...

Antes que ela pudesse terminar, passos apressados a interromperam.

O recém-chegado era Nolan Stafford, o segundo filho da família Stafford.

A pessoa da família Stafford que mais mimava Renee.

Esquentado, mas gentil apenas com Renee.

Ao ver Anastasia ainda tomando café da manhã, ele disparou num ataque: “Anastasia, como você tem coragem de ficar sentada aqui? A Renee está deitada no hospital, e você está enrolando em casa por quê? Acabei de ver o Patrick indo te acordar. Você acha que é tão importante assim a ponto de a família inteira ter que implorar pra você?”

Anastasia ergueu os olhos para ele.

Na vida passada, Nolan tinha dito coisas parecidas.

Ela tinha se desculpado desesperadamente, dizendo que tomaria mais cuidado, só para ouvir dele um “é isso mesmo que você tem que fazer”.

Desta vez, ela não disse nada; apenas desviou o olhar e continuou a beber o leite, tranquila.

Nolan não esperava ser ignorado. A raiva dele se acendeu ainda mais. “Que atitude é essa? Eu estou falando com você!”

“Nolan, não fala assim. A Anastasia pode não ter descansado bem. Anastasia, o Nolan é pavio curto, não leva pro lado pessoal.” Yvette interveio para apaziguar.

De novo, aquela coordenação perfeita.

Se ela não tivesse as memórias da vida passada e não soubesse que Renee estava encenando hoje, talvez tivesse sido enganada pelo teatrinho.

Ela olhou para Yvette e disse cada palavra com clareza: “Eu não vou doar sangue pra Renee.”

O ar congelou outra vez.

Nolan voltou à realidade num estalo e agarrou o pulso dela. “Anastasia! Repete isso?”

A voz de Anastasia estava calma: “Eu disse que não vou doar.”

Assim que as palavras saíram da boca dela, a voz de Caleb soou atrás: “Você enlouqueceu? A Renee está esperando ajuda pra salvar a vida, e você está fazendo birra em casa?”

Anastasia se virou para olhar o recém-chegado.

Caleb Stafford, o terceiro filho da família Stafford.

Como filho ilegítimo, a posição dele na família Stafford era especial, mas o carinho por Renee não era menor do que o de qualquer um.

Anastasia soltou uma risada fria. “Nolan, você se lembra de alguns dias atrás, quando eu estava jantando com amigos e vocês ligaram dizendo que a Renee tinha tido uma crise e precisava de sangue? Eu nem terminei de comer e corri pro hospital, e doei 400 mililitros. Depois de doar, eu fiquei tão tonta que mal conseguia ficar em pé. Algum de vocês se importou comigo?”

“Faz só alguns dias, meu corpo ainda não se recuperou, então eu não quero doar sangue. Aos olhos de vocês, isso é fazer birra?”

Os olhos de Nolan vacilaram, mas ele logo endureceu. “A Renee é a paciente. Você é saudável. Qual é o problema de doar um pouco de sangue? Não é como se você não pudesse se recuperar!”

“Desde os meus oito anos, eu doei sangue, medula óssea, células-tronco — você chama isso de ‘um pouco de sangue’?”

Antes que Nolan pudesse falar, Anastasia continuou: “E hoje, a Renee nem está tendo uma crise.”

“Você está mentindo!” Nolan estava furioso. “A Renee é tão bondosa, como ela poderia fazer uma coisa dessas, mentir?”

“Acredite ou não, de qualquer jeito eu não vou doar hoje—”

Nesse momento, uma voz veio da porta.

“Anastasia.”

Anastasia se virou e viu Caspian caminhando depressa em direção a ela.

Ele estava de terno, o rosto bonito exibindo a medida exata de preocupação.

Na vida passada, o que mais tinha deixado Anastasia obcecada era a preocupação de Caspian com ela.

Olhando agora, ela só achava ridículo.

Caspian parou diante de Anastasia, com um tom gentil: “Anastasia, você está chateada por causa do leilão daquele dia? Aquele diamante rosa… eu vi que a Renee gostou, então eu comprei pra ela. Se você quiser um, da próxima vez eu compro um ainda melhor pra você.”

Ao ouvir isso, Nolan explodiu. “Então é por isso? Anastasia, você não está sendo mesquinha? A Renee gostou daquele anel de diamante, qual é o problema de o Caspian dar pra ela? Você não vai doar sangue pra ela por causa disso?”

Caleb também soltou uma risada fria. “No fim das contas, nem é do mesmo sangue. Não tem como ter sido criada direito.”

Yvette suspirou, com um ar decepcionado: “Anastasia, eu achei que você fosse uma criança sensata. Eu não esperava… deixa pra lá, deixa pra lá. Se você realmente não quer, eu não vou te forçar. Eu vou implorar ao médico pra ver se conseguimos sangue do banco de sangue. Só não sei se a Renee consegue esperar tanto…”

Enquanto falava, os olhos de Yvette ficaram vermelhos.

Anastasia já tinha assistido a esse número por duas vidas. Ela enxergava através dele.

Ela ia falar quando o celular de Nolan tocou.

“Alô? O quê? O estado da Renee piorou? A gente já está indo!”

Ele desligou e encarou Anastasia com ferocidade. “Anastasia, olha o que você fez! Hoje, você vai doar esse sangue querendo ou não!”

Com isso, ele agarrou o braço de Anastasia e a arrastou em direção à porta. “É melhor você rezar pra não acontecer nada com a Renee, ou eu não vou te deixar em paz!”

Anastasia tropeçou enquanto ele a puxava.

As coisas tinham chegado a esse ponto. Ela iria e veria — se insistisse em não doar sangue, como Renee continuaria com essa encenação!

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