Capítulo 6 Uma pessoa diferente
Anastasia estava tão furiosa que chegou a rir, num tom gelado:
— O sr. Nolan Stafford é mesmo tão sem vergonha assim? As coisas são minhas — com que direito você simplesmente pega?
— Para com essa palhaçada! — Nolan perdeu a paciência na hora. — A família Stafford te criou por quinze anos. Estou te avisando: não seja ingrata, ou vai se arrepender!
Os olhos de Anastasia ficaram ainda mais frios. Ela riu baixinho, a voz preguiçosa, mas carregada de desprezo.
— É mesmo? Então eu vou esperar.
Do outro lado da linha, houve um silêncio por um instante, até a voz agitada de Nolan voltar:
— Anastasia, para de fazer cena! Tudo o que você tem veio da família Stafford. Agora a Renee precisa dos seus desenhos — com que direito você se recusa?
— Sr. Nolan Stafford, acho que o senhor entendeu errado. — A voz de Anastasia permaneceu firme. — Aqueles desenhos são de incontáveis noites em claro que eu virei. Eles não têm nada a ver com a família Stafford. E hoje à noite eu vou sair da casa da família Stafford. Não vou levar uma única coisa que a família Stafford me deu ao longo dos anos.
Nolan ficou tão furioso que, por um momento, não conseguiu falar.
— Ótimo! Se você tem coragem, então não leve aquelas bolsas de grife e joias que a família Stafford te deu! Você saiu hoje à tarde, e a Renee ainda está se culpando. Se você tem um pingo de consciência, vá ao hospital agora mesmo, peça desculpas à Renee e coloque o nome dela nesses desenhos como autora. Aí a gente deixa isso pra trás.
Ao ouvir aquela chantagem moral tão hipócrita, os olhos de Anastasia se encheram de deboche.
Na vida passada, ela tinha sido amarrada por esse suposto amor de família e por consciência, e acabou caindo de um prédio sem que ninguém se importasse.
— A Renee não tem capacidade de desenhar sozinha, então agora quer me usar? Que pena — eu não vou ajudar.
— Anastasia, não se arrependa disso! — Nolan ameaçou. — Quando eu chegar em casa, se você ainda não entregar esses desenhos, nem pense em voltar a pisar na porta da família Stafford!
— Nolan, eu não vou esperar você. Diga à sra. Stafford e à Renee por mim: hoje à noite eu estou saindo da casa da família Stafford. De agora em diante, eu não vou estender a mão para a riqueza e o status da família Stafford, e não venham mais me enojar com as sujeiras da família Stafford.
Nolan fez uma pausa e, então, não conseguiu evitar o sarcasmo:
— Ótimo, vai embora! Quero ver quanto tempo esse dinheirinho no seu bolso vai durar em Harmony City! Não venha rastejando de volta depois, implorando pra eu abrir a porta!
— Então solde a porta — e não ouse abrir pra mim.
Depois de dizer isso, Anastasia não deu a Nolan nenhuma chance de continuar berrando. Deslizou o dedo com decisão, encerrou a ligação na hora e bloqueou o número de Nolan.
Tudo foi rápido e limpo.
Do outro lado, Nolan ouviu o sinal de ocupado no telefone e ficou atônito por alguns segundos antes de reagir.
Ela tinha mesmo desligado na cara dele!
Nolan explodiu de raiva, rangendo os dentes.
— Ela passou dos limites!
Vendo Nolan com o celular na mão, o rosto sombrio e irritado, Yvette não pôde evitar franzir a testa.
— O que aconteceu? A Anastasia não vai entregar?
Nolan riu de raiva.
— Ela disse que vai sair hoje à noite, mandou a gente não enojar ela e me disse pra soldar a porta e nunca mais deixar ela entrar!
Então ele repetiu as palavras de Anastasia, com alguns exageros.
Depois de ouvir aquilo, a expressão de Yvette se fechou.
Por que Anastasia parecia outra pessoa hoje?
— Nolan, não fique bravo. A Anastasia deve estar falando da boca pra fora, com raiva — Renee percebeu que Anastasia tinha ficado mais esperta. Ela mordeu o lábio inferior, com um ar injustiçado e culpado. — A culpa é toda minha. Se eu não tivesse a saúde tão frágil, a Anastasia não estaria numa situação tão difícil. Caspian, o que a gente faz? A Anastasia nunca mais vai falar comigo?
Enquanto falava, ela se apoiou com fraqueza em Caspian, como se pudesse se despedaçar a qualquer momento.
Caspian passou o braço em volta do ombro dela, e a irritação dele com Anastasia foi crescendo.
Só pediram que ela pedisse desculpas e entregasse alguns desenhos, e ela está transformando isso em cortar todos os laços?
Ela está ficando cada vez mais irracional!
Ela achou que fazer esse joguinho de difícil faria com que prestassem atenção nela?
Isso só faria com que a detestassem ainda mais!
— Não pense demais. Ela só está fazendo birra. — Caspian consolou Renee com gentileza, embora suas palavras fossem para todos. — Ela não tem ninguém em quem se apoiar em Harmony City e entregou o cartão do banco. Quanto dinheiro ela pode ter? Assim que der de cara com alguns obstáculos lá fora e sofrer um pouco, vai perceber naturalmente como a Família Stafford é boa.
— Exatamente! — Nolan bufou, frio. — Aposto que, em três dias, ela volta chorando e implorando pra gente! Quando isso acontecer, ela não vai entregar aqueles designs direitinho?
Um brilho calculista atravessou os olhos de Yvette.
— Esqueçam, deixem que ela vá. — O tom dela trazia uma tolerância caridosa. — Nós a criamos; fizemos a nossa parte. Está na hora de ela sair para a sociedade e aprender algumas lições. É só o projeto de formatura da Renee...
— Mãe, não se preocupe. — Caleb falou com indiferença. — Eu já mandei um chaveiro lá. Se a Anastasia ainda quiser voltar para a Família Stafford, a gente faz ela entregar os designs então. Caso contrário, não vamos dar a ela as chaves da nova fechadura.
Isso tranquilizou a todos.
Renee baixou os olhos, escondendo a satisfação no olhar.
Ao mesmo tempo.
Anastasia arrastou a mala escada abaixo.
Na sala de estar do térreo, o chaveiro acabara de guardar a caixa de ferramentas e estava prestes a ir embora. Ao ver Anastasia descer, ele congelou por um instante.
A expressão de Anastasia não mudou enquanto ela saiu direto pela porta da frente.
A brisa noturna era fresca, levantando seus cabelos.
Anastasia chamou um carro na beira da estrada e deu o endereço de Saskia.
O carro arrancou, deixando aquela mansão para trás — junto com aqueles quinze anos de absurdo — bem longe, ao fundo.
Meia hora depois.
Saskia ouviu a campainha, abriu a porta e viu Anastasia ali, com a mala. Sem dizer uma palavra, puxou-a para dentro e lhe deu um abraço.
— Anastasia, você finalmente caiu na real! Eu te falei que aquela família inteira não presta. Sem eles, você só vai viver melhor! — disse Saskia, indignada, puxando-a para sentar. — Aquele desgraçado te disse alguma coisa? Tentou te fazer se sentir culpada de novo?
— Isso já ficou no passado. — Anastasia sentiu o cuidado de Saskia, e parte do cansaço se dissipou.
Ela esboçou um sorriso fraco. — Saskia, talvez eu tenha que abusar da sua hospitalidade por uns dias.
— Abusar? Você pode ficar o tempo que quiser. — Depois de falar com toda a convicção, Saskia perguntou, cheia de expectativa: — Aliás, o The Celestial Loop... você se inscreveu?
— Sim.
— Que ótimo! — Saskia, animada, bateu na própria coxa. — Anda, eu já deixei todo o equipamento pronto pra você. Vamos mostrar pra eles como é que é talento de verdade!
Com isso, Saskia puxou Anastasia para a sala de trabalho.
O modelo mais recente de computador, uma mesa digitalizadora de alta precisão e uma fileira de manequins profissionais ao lado — era praticamente um estúdio de design de moda montado em escala menor.
— E aí? Bem atenciosa da minha parte, né? — Saskia ergueu o queixo, orgulhosa, tomando o crédito. — Esse computador me custou uma fortuna. Ele roda rápido pra caramba, sem travar nada, e todos os programas estão na versão mais recente. Você vai achar facílimo de usar!
O calor voltou a subir aos olhos de Anastasia.
Em quinze anos na Família Stafford, ela nunca teve sequer um estúdio próprio. Só conseguia perseguir aqueles sonhos distantes naquele cantinho minúsculo do quarto.
Mas Saskia tinha preparado tudo para ela.
