Capítulo 1

Quando a quarta vítima do incendiário de Chicago foi parar na mesa de autópsia do meu irmão, eu observei lá de cima, um fantasma preso naquele cômodo.

Como o médico-legista mais renomado da cidade, ele recitou as conclusões com uma precisão fria. “Mulher, na faixa dos vinte. Indícios de queimadura controlada e prolongada antes da morte.” Ele não fazia ideia de que estava catalogando o meu assassinato.

Três dias antes, naquele mesmo galpão, eu tinha implorado ao telefone. A noiva dele, Harper, segurava o aparelho para mim, com um sorriso que misturava doçura e veneno. “Liga de novo, Ivy. Vai que ele atende a irmãzinha dele desta vez?”

Um clique. Aí, a voz dele.

“Julian, por favor—”

“Agora não, Ivy. Estou escolhendo as alianças do casamento.”

O tom de discagem cortou o ar. Harper riscou o fósforo.

Agora, sob a luz fria do necrotério, eu vejo o sangue sumir do rosto dele. O laudo treme na mão dele. Cada medida, cada cicatriz — tudo sussurra o meu nome.

Ah, Julian. A cada incisão, você estava lendo as minhas últimas palavras.

A assassina está bem ao seu lado, já dentro do vestido branco.


A morte não me levou embora.

Minha alma ainda pairava sobre aquele deserto chamuscado, com o cheiro acre de madeira queimada ainda pesado no ar da manhã. Aquele galpão abandonado no South Side de Chicago agora não passava de vigas de aço retorcidas e tábuas de madeira carbonizadas. A sequência de incêndios criminosos já tinha jogado a cidade inteira no pânico.

Ao amanhecer, os bombeiros estavam guardando o equipamento, gotas d’água pingando dos capacetes. Eu sabia que logo iam encontrar os restos enegrecidos no canto — o meu corpo.

Só mais um problema para o meu irmão, Julian. A festa de noivado dele seria dali a poucos dias.

E, como era de se esperar, em menos de meia hora viaturas e ambulâncias cercaram a cena.

Eu vi Julian sair de uma viatura, vestindo o macacão branco de proteção. Mesmo de longe, eu conseguia sentir a compostura profissional dele lutando contra o medo antigo de fogo, enraizado lá no fundo.

“É a quarta, Jules.” Alex Carter se aproximou, com a voz pesada. Meu coração apertou — Alex ainda cuidava do Julian, como sempre. Eles eram amigos desde a infância; agora Alex era detetive e Julian, o chefe do IML. “O Assassino das Chamas atacou de novo.”

Julian assentiu, puxou o ar e caminhou até o cadáver carbonizado para começar o exame.

“Mulher, começo dos vinte”, ele informou. “Hora da morte, aproximadamente dois dias atrás. Corpo severamente carbonizado; extrair DNA vai ser difícil. Em uns dois dias devemos ter resultado.”

Eu vi Julian se agachar ao lado dos meus restos, analisando com cuidado os escombros queimados com as mãos enluvadas. Os movimentos dele eram profissionais e distantes, como se examinasse qualquer outra vítima.

“Há traços claros de acelerante”, ele observou. “A vítima tentou escapar antes de morrer. Vejam essas marcas de unha — ela tentou, desesperada, arrebentar aquela porta soldada.”

Julian continuou o exame, e a expressão foi ficando cada vez mais sombria. “Fica pior”, ele disse, baixo. “Pelos padrões de queimadura, a vítima foi submetida a uma queima prolongada ainda viva. O autor controlou o fogo de propósito para fazê-la sofrer lentamente.”

Os peritos ali perto trocaram olhares inquietos; alguns recuaram por instinto. Alex respirou fundo. “Isso é mais cruel do que os casos anteriores.”

Moradores ali por perto começaram a cochichar entre si. Uma mulher de meia-idade apertou o filho com mais força. “Esse maluco vai continuar matando?”

“Nenhum de nós está seguro”, um senhor idoso balançou a cabeça. “Esse monstro está andando bem no meio da gente.”

“Aquela coitada”, outra voz tremeu de medo, “foi queimada viva.”

Julian se levantou, cerrando os punhos. “Eu vou pegar esse incendiário e fazer ele pagar por cada uma das vítimas!”

Se você soubesse que, neste exato momento, está examinando o corpo da sua irmã que você tanto despreza, ainda diria isso? perguntei a ele em silêncio, mas, claro, não obtive resposta.

Quando a movimentação foi se encerrando, Alex olhou para Julian, preocupado. “Esse é o quarto corpo carbonizado. Seu trabalho tem sido puxado demais ultimamente.” Ele fez uma pausa. “Aliás, o aniversário da sua irmã não está chegando?”

A expressão de Julian ficou imediatamente gelada. “Nem menciona ela. O aniversário dela bate com a nossa festa de noivado. Eu não tenho tempo pra lidar com ela.”

Meu coração pareceu se rasgar. Harper sabia muito bem a data do meu aniversário e, ainda assim, escolheu de propósito esse dia para a festa de noivado deles. E Julian obviamente não se importava com essa “coincidência”.

Para ele, meu aniversário nunca teve importância.

Desde que nossos pais morreram no dia do meu décimo segundo aniversário, Julian começou a me odiar, me chamando de azarada, de assassina. Quando fiz dezoito, ele me expulsou de casa e se recusou a ter qualquer contato comigo desde então.

Mas, há três anos, quando Harper Vance apareceu na delegacia pedindo ajuda, sofrendo de amnésia, eu assisti de longe enquanto Julian a ajudava por vontade própria.

Depois disso, ela foi “recuperando a memória” aos poucos, alegando que não tinha onde morar. Julian se comoveu com a fragilidade dela e passou a cuidar dela com atenção.

Comigo, ele nem sequer atendia uma ligação.

“A Ivy esteve cuidando de você em silêncio todos esses anos”, Alex não conseguiu se conter, segurando o ombro de Julian. “Ela tem cuidado de você indiretamente, através de mim. Sabe aquele café na sua mesa do escritório? E quando você varava a noite, ela até preparava comida extra pra você.”

Julian afastou a mão de Alex com frieza. “Desiste, Alex. Para de falar dela.”

O céu começou a despejar chuva; as gotas batiam nas ruínas cobertas de cinzas, chiando. Julian examinou o local. “A chuva está ficando mais forte. As evidências podem ser comprometidas.”

“Precisamos levar o corpo para o laboratório imediatamente, para um exame detalhado”, lembrou um técnico.

“Isolem a área. Levem todas as evidências para análise”, ordenou Julian.

No caminho de volta para a delegacia, Alex dirigia com Julian ao lado. Ele parecia perceber algo estranho. “Como é que você não tomou café hoje? Seus olhos estão todos vermelhos.”

“Eu não preciso do café dela”, disse Julian, com desdém.

“Falando na Ivy, ela não trouxe café nesses últimos dois dias. Isso não é a cara dela.” Alex lançou um olhar para Julian. “Você não está preocupado? A Ivy parar de aparecer do nada depois de você desligar na cara dela... isso é estranho.”

Julian fez um gesto impaciente com a mão. “Para de se preocupar, Alex. É só mais uma das jogadas dela. Ela ligou três dias atrás querendo fazer as pazes, e eu desliguei. Deve estar fazendo birra.”

Se você soubesse que eu nunca mais vou te trazer café, nunca mais vou te ligar, o que você pensaria?

Nesse instante, o celular de Julian tocou. Ao ver o nome na tela, a testa dele relaxou na hora, e a voz ficou suave. “Oi, linda...”

Eu nem precisava ver quem era para saber que era ela — Harper. Só as ligações dela conseguiam fazer Julian vestir, de imediato, aquela máscara gentil.

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