Capítulo 2
"Julian, estou com saudade. Você está longe de casa há dias." Minha alma pairava no banco de trás do carro da polícia, e a voz insinuante da Harper me embrulhava o estômago.
Aquele carinho que um dia foi só meu agora era todo dela.
Alex olhou para Julian pelo retrovisor e voltou a atenção para a direção, sem dizer uma palavra.
"Eu volto pra Chicago quando o caso acabar. Vou compensar você", a voz de Julian assumiu aquele tom manso, de quem sabe persuadir.
Eu me lembrei de quando era pequena, quando eu acordava chorando por causa de pesadelos, e Julian me confortava com aquela mesma voz suave: "Tá tudo bem, Ivy. Seu irmão tá aqui."
Naquela época, eu achava que o nosso vínculo nunca ia mudar. Eu achava que Julian sempre ia me proteger.
Mas agora, todo aquele carinho pertencia à Harper.
"Ah, Julian...", Harper de repente pareceu magoada. "Sua irmã me mandou mais mensagens maldosas de novo, dizendo que eu não sou boa o bastante pra você."
Eu congelei. Como isso era possível? Eu nunca tinha mandado mensagem nenhuma pra ela. Eu nem tinha o contato dela.
Alex franziu a testa, como se quisesse dizer alguma coisa, mas o tom de Julian virou gelo na hora: "Ela tá te perseguindo de novo?"
"Ela ainda disse que vai fazer um escândalo na nossa festa de noivado... Eu tenho muito medo dela." Harper interpretava a vítima inocente com perfeição.
Eu queria desesperadamente gritar com Julian, dizer que era tudo mentira, mas eu não conseguia emitir som algum.
Eu só conseguia assistir, impotente, enquanto Julian dizia com raiva: "Não se preocupa, Harper. Eu vou fazer ela pagar por isso. Se ela ousar te machucar, eu não vou perdoar."
Alex finalmente não conseguiu segurar: "Julian, talvez você devesse ouvir o lado da Ivy..."
"Alex, não se mete nos assuntos da minha família." Julian cortou, frio.
Meu mundo começou a desmoronar. Julian acreditava completamente nas mentiras dela, sem sequer questionar... Então era isso que eu significava pra ele.
"Amor, eu tô tão animada com a nossa festa de noivado daqui a alguns dias. Só de pensar eu já perco o sono." A voz de Harper voltou a ficar enjoativamente doce.
De repente, uma onda de inquietação intensa me atravessou. Eu gritei, em pânico, para Julian: "Não! Julian! Não vai! Harper... tem alguma coisa errada com ela!"
Mas Julian não conseguia ouvir meu aviso. Ele só respondeu com ternura: "Eu sei, eu também. Assim que esse caso terminar, a gente pode começar a nossa vida nova."
Uma vida nova? Um futuro sem mim era perfeito pra ele?
O carro parou em frente ao Instituto Médico-Legal do Condado de Cook. Julian desligou e saiu. Alex observou a figura dele se afastando, com a testa franzida.
Eu segui Julian para dentro do instituto, vendo ele vestir os equipamentos de proteção.
Foi então que Alex entrou apressado, com expressão tensa: "Julian, eu não consigo falar com sua irmã, a Ivy. O celular dela tá desligado há dois dias."
Ao ver a preocupação de Alex, um calor se mexeu dentro do meu peito. Pelo menos alguém se importava comigo, pelo menos o Alex ia falar por mim...
Mas Julian só respondeu, impaciente: "Alex, ela provavelmente tá enfiada em alguma boca de fumo de novo. Não perde tempo procurando."
"Mas até o pessoal da rua diz que não viu ela há dias. Isso não é a cara dela", Alex insistiu.
Só que Julian já tinha empurrado a porta da sala de autópsia, claramente sem querer ouvir mais nada sobre mim.
Eu fui atrás dele, tentando desesperadamente tocar o ombro dele, mas minha mão atravessou o corpo dele. Foi aí que eu realmente entendi — eu estava morta, e Julian estava prestes a fazer a autópsia no meu corpo.
"Julian, sou eu... é a sua irmãzinha Ivy. Por favor, olha pra mim..." Eu chorei em silêncio dentro do meu coração.
Na sala de autópsia, Julian começou a examinar meu corpo. Quando ele segurou meu braço direito, de repente parou, como se o tempo tivesse travado.
Os dedos dele passaram de leve por aquela linha discreta de uma fratura antiga, e a testa dele se franziu fundo.
Naquele instante, minha alma quase explodiu! Eu fiquei tão animada que queria gritar, queria sacudir os ombros dele, queria desesperadamente dizer — Julian! Olha melhor! Sou eu!
Julian girou meu braço devagar, observando com cuidado a marca por diferentes ângulos. A respiração dele ficou um pouco pesada; os lábios se entreabriram, como se fosse falar, e então parou.
“Lembra! Por favor, lembra!”, eu gritei desesperadamente dentro da minha cabeça, a minha existência inteira tremendo. Era a minha única chance, a minha única esperança de ele me reconhecer!
“Esse padrão de fratura...”, ele murmurou para si mesmo.
Meu coração parecia que ia explodir no peito; eu estava tão animada que quase perdi o juízo. Julian, lembra! Foi daquela vez em que eu tinha dez anos e quebrei o braço te protegendo de um bêbado que veio pra cima de você! Você chorou mais do que eu naquele dia, não parava de dizer que a culpa era sua, não parava de pedir desculpa... Como você pôde esquecer?
Eu vi a confusão tremeluzir nos olhos dele, vi ele lutando pra lembrar, e eu tremi de empolgação. Ele estava quase lá! Eu sabia que ele estava quase lá!
Bem na hora em que os dedos de Julian pararam de novo naquela marca familiar, bem na hora em que eu quase conseguia ver a luz da salvação—
O telefone tocou estridente.
“Doutor Thorne? Aqui é a Sarah, do Centro de Resgate de Chicago.” A voz de uma mulher ansiosa veio pela linha. “Desculpa incomodar, mas eu estou preocupada com a Ivy. Ela não apareceu pro trabalho voluntário há dois dias, e não consigo falar com ela—o celular só dá fora de área. Isso é muito incomum... Ela nunca falta a um plantão, e recentemente me disse que queria mudar, queria consertar a relação com a família...”
Pela primeira vez em dias, meu coração sentiu um fiapo de calor. Pelo menos alguém lembrava de mim, alguém se importava.
Mas o tom de Julian ficou impaciente: “Ela deve estar por aí arrumando confusão em algum lugar.”
“Mas, doutor, ela leva esse trabalho muito a sério. Eu nunca vi ela sumir sem avisar desse jeito...”, Sarah tentou me defender.
Julian interrompeu, irritado: “Não mencione o nome daquela encrenqueira pra mim nunca mais!”
Ele bateu o telefone no gancho e se afastou do meu corpo, com aquela antiga linha da fratura assombrando os pensamentos dele.
“Eu preciso de cinco minutos”, disse ele, rouco, para o assistente. “Documenta primeiro as características externas. Já volto.”
Ele saiu depressa da sala de autópsia, como se estivesse fugindo de alguma coisa.
Eu encarei a porta vazia, com o coração completamente despedaçado: “Até o pessoal do centro de resgate está preocupado comigo, mas você... só você, meu irmão amado, não aguenta ficar comigo nem mais cinco minutos.”
No corredor, Julian percebeu um garoto sentado do lado de fora da entrada do necrotério.
Ele abraçava os joelhos com força; os olhos estavam vermelhos e inchados de tanto chorar, o corpo tremendo com soluços. Uma enfermeira tentou convencê-lo com delicadeza: “Querido, você está sentado aqui a noite toda. Vai pra casa descansar...”
“Não! Eu não posso deixar a minha irmã!”, o menino recusou, a voz rouca. “Ela me protegeu desde que a gente era pequeno. Agora é minha vez de cuidar dela... Eu não posso deixar ela sozinha aí dentro...”
Um policial passou e falou baixo com o colega: “A vítima do acidente de carro de ontem—esse é o irmão dela. Desde ontem à noite até agora, ele não sai daqui, não importa o quanto a gente tente convencer.”
“Os dois eram muito grudados”, suspirou outro policial. “Ouvi dizer que eles dependem um do outro desde pequenos. Ver ele chorar assim mexe comigo também.”
Eu observei aquele menino em vigília do lado de fora do necrotério, com o coração se partindo. A irmã dele estava morta, e ele ficou a noite toda, recusando-se a sair do lado dela.
Enquanto meu corpo estava deitado na mesa de autópsia, Julian foi embora sem olhar pra trás.
Eu flutuei sozinha no corredor, uma última pergunta se erguendo dentro de mim: “Se o Julian soubesse que eu estou mesmo morta... o que ele faria? Ele choraria por mim como chorava quando a gente era criança?”
A resposta me apavorou—talvez ele realmente quisesse que eu sumisse pra sempre. Talvez a minha morte fosse uma libertação completa pra ele.
Mas, mesmo no fundo do desespero, eu ainda me agarrava a uma última esperança, pequena e humilde.
A esperança de que Julian descobrisse a verdade, de que ele lembrasse da versão de si mesmo que um dia me amou.
Mesmo que já fosse tarde demais.
