Capítulo 3
Desde que Julian saiu do necrotério batendo a porta, tomado de raiva, eu tenho vagado pelo IML como uma alma penada.
Na primeira tarde, eu vi Julian ocupado com outros casos, enquanto o meu corpo permanecia quieto na mesa de autópsia, a poucas salas dali.
No segundo dia, eu segui Julian até a sala de reuniões, ouvindo enquanto diferentes setores apresentavam atualizações sobre o caso do incendiário em série.
Um por um, os agentes balançavam a cabeça: “Ainda nada no quarto incêndio criminoso.” “As provas na cena foram quase todas destruídas.” “Está difícil confirmar a identidade da vítima.”
Julian socou a mesa, frustrado. “Esse doente matou quatro meninas! A gente não pode deixar ele continuar saindo impune!”
Eu fiquei atrás dele, com o coração se partindo.
Se você soubesse que a quarta menina era eu... você ainda estaria tão bravo assim? Ou só me trataria como me trata agora — como o número de um caso qualquer?
Depois da reunião, Alex alcançou Julian no corredor, quando ele já estava indo embora. Eu conseguia ver a preocupação estampada no rosto do Alex.
“Jules”, o tom do Alex estava pesado, “a Ivy está desaparecida há dias. Isso não é a cara dela. Mesmo quando vocês brigam, ela nunca simplesmente some desse jeito.”
Julian dispensou ele com impaciência. “Eu já falei que ela está bem. Deve estar por aí se drogando, ou arrumou um namorado novo. Eu tô com um monte de coisa pra resolver agora — a festa de noivado da Harper é semana que vem...”
Alguma coisa morreu dentro de mim. A festa de noivado era mais importante do que eu estar viva ou morta... eu devia ter imaginado.
Alex parou e se virou de frente para Julian. “Cara, eu vi vocês dois crescerem. Você não é assim! A Ivy precisa de ajuda!”
“Não vem me dar sermão, Alex!” A voz do Julian ficou cortante. “Ela escolheu esse estilo de vida. Eu não posso ajudar, e não quero!”
Alex balançou a cabeça, decepcionado. “Mano, eu realmente não te reconheço mais... Se aconteceu alguma coisa de verdade com a Ivy, você vai se arrepender disso pelo resto da vida.”
Eu me escondi no canto, chorando em silêncio. O Alex tinha razão... mas já era tarde demais.
De volta ao escritório, o celular do Julian tocou. No identificador, apareceu a minha terapeuta, a Dra. White.
“Julian”, a voz da Dra. White era suave e preocupada, “a Ivy faltou à sessão de terapia desta semana. Ela sempre foi pontual, e comentou especificamente que queria se dedicar de verdade à recuperação pra consertar o relacionamento de vocês.”
Julian interrompeu, ríspido. “Você acredita mesmo no que ela te fala? Ela não passa de uma viciada mentirosa!”
Ele desligou com raiva e mandou uma mensagem ameaçadora para a Dra. White.
Mas eu estou deitada naquela sala de necropsia há dois dias, Julian... e você ainda está ocupado com festa de noivado.
Nesse momento, Harper irrompeu pela porta, toda animada, segurando uma caixinha elegante de joias.
—Julian! O anel de noivado chegou! —os olhos dela brilhavam de empolgação enquanto abria a caixa e revelava um anel de diamante deslumbrante.
Julian a abraçou, radiante.
—É perfeito!
Mas a expressão de Harper escureceu de repente.
—Só que... eu preciso te contar uma coisa. Ontem à noite eu encontrei a Ivy no estacionamento...
Eu fiquei tão chocada que mal consegui pensar. O quê? Ontem à noite? Eu estou morta há dois dias! Aquela mulher estava mentindo... mas o Julian acreditou nela por completo.
Harper tirou do bolso da bolsa um relógio antigo de prata, forçando lágrimas de crocodilo.
—Ela jogou esse relógio aos meus pés e disse que nunca mais queria nada ligado à sua família.
Ela ergueu o pé de propósito para mostrar ao Julian o roxo no tornozelo.
Julian cerrou o punho, tomado pela raiva.
—Esse é o relógio do meu pai... Como ela ousa?!
Eu tremi, em desespero. Era a única lembrança que o pai tinha me deixado, com “Para minha estrelinha” gravado no verso...
Harper, você não se contentou em me matar — agora está tentando destruir de vez a minha imagem na cabeça do Julian. Até a última coisa que meu pai deixou pra mim, você está usando pra me machucar... Como você consegue ser tão cruel?
Foi então que Alex passou por acaso em frente ao escritório e, ao ver o relógio, franziu a testa e parou.
—Espera... esse relógio... —Alex se aproximou para examinar a gravação no verso. —Harper, você tem certeza de que a Ivy te deu isso?
Harper assentiu, nervosa.
—Tenho. Foi assim que ela foi cruel.
Alex balançou a cabeça.
—Impossível. A Ivy usa esse relógio todo dia. Ela diz que, assim, sente como se o pai dela ainda estivesse ali, protegendo ela. Ela jamais jogaria isso fora.
Naquele instante, o celular de Julian tocou com urgência. Era o assistente da perícia.
—Julian —a voz do assistente estava tensa—, saiu a análise dos ossos da Jane Doe número quatro... A vítima tinha 22 anos, 1,68 de altura, aproximadamente 52 quilos.
Julian ficou paralisado, e Alex, que estava no escritório, ouviu aqueles detalhes.
O rosto de Alex empalideceu de repente.
—Espera... Julian, essas medidas... —a voz dele tremeu. —Batam exatamente com o prontuário médico da Ivy... Eu lembro que, quando ela foi à delegacia da última vez, eu reparei como ela tinha emagrecido.
O escritório mergulhou num silêncio mortal. Eu vi o rosto de Julian perder a cor enquanto ele agarrava o celular.
—Isso... isso não pode ser ela de jeito nenhum... —ele discou com as mãos trêmulas. —Ela vai atender...
Silêncio absoluto.
De repente, a melodia de “Moon River” ecoou da sala de necropsia — o meu toque pessoal.
