Capítulo 1

Seis meses depois da nossa Cerimônia de Acasalamento, eu fui emboscada por uma matilha de Renegados selvagens enquanto rastreava ervas raras na Floresta Negra.

As garras deles, encharcadas de veneno, não só dilaceraram meu abdômen; elas arrancaram o meu futuro, tirando de mim, com brutalidade, qualquer chance de um dia carregar um filhote.

Enquanto minha consciência ia e voltava, eu vi o meu companheiro, Herbert. Os olhos dele estavam vermelhos, a mão dele esmagando a minha num aperto de quebrar os ossos. Ele jurou para a Deusa da Lua que, mesmo que a morte estivesse à espreita, nunca me abandonaria.

Minha mãe, Luna Eleanor — a curandeira mais renomada da Matilha Lua de Prata — jurou com a mesma intensidade. Prometeu que, enquanto ainda respirasse, eu sobreviveria àquele pesadelo.

Naquele instante fugaz, eu senti uma onda de gratidão. Eu acreditei que a Deusa da Lua finalmente tinha tido misericórdia de mim.

Eu me apeguei à ideia de que, apesar dos anos em que eu sobrevivi como uma Loba Solitária no meio do mato, meu retorno à matilha tinha sido recebido com o amor sem reservas dos meus pais e do meu companheiro. Meu corpo parecia estar sendo serrado ao meio, mas minha alma se sentia inteira.

Até que me empurraram numa maca para o corredor gelado do lado de fora do centro cirúrgico da matilha.

Os sussurros abafados que escapavam pela fresta da porta da sala de cirurgia me atingiram como um balde de água gelada, apagando na hora qualquer faísca de esperança.

— Eleanor, agora dá pra salvar a Lillian de verdade. Você viu os exames de hoje? Mesmo tendo vivido como Renegada, o relatório médico dela antes do ataque estava impecável. Ela carrega a linhagem Alfa mais pura. Aquele coração dela... está pulsando com poder bruto. Transplantar ele pra Lillian é um encaixe perfeito!

— Os tipos de sangue batem, e eu consigo suprimir a rejeição com medicação, considerando o estado frágil da Lillian. Se a gente não fizer essa cirurgia agora, a Lillian não passa do inverno!

Era a voz do Herbert. Urgente. Quase fanática.

Então veio a voz do meu pai, Alfa Richard, pesada e fria, cheia de autoridade:

— Herbert, já que o líder dos Renegados foi... resolvido, garanta que o resto seja conduzido com limpeza. Não podemos deixar a matilha descobrir que nós deixamos de propósito uma brecha nas defesas da fronteira pra permitir aquela emboscada.

Uma pausa.

— Eu só tenho pena de você, meu filho. Você é o Alfa da Matilha Pedra Negra, e ainda assim vai passar o resto da vida acorrentado a uma companheira estéril e agora, privada do próprio Coração de Lobo forte.

Um suspiro longo e familiar ecoou lá de dentro. Era um som que eu um dia achei que nascia do amor, mas que agora me gelou até os ossos.

— Não importa, Alfa Richard. Mesmo a Teresa sendo a minha companheira destinada, quem eu sempre amei de verdade foi a Lillian. Contanto que a Lillian possa viver uma vida saudável — mesmo que custe o coração da Teresa... eu estou disposto a cuidar daquela casca vazia e quebrada pra proteger o futuro da Lillian.

— Então faça, Eleanor — disse meu pai, com a voz sem emoção. — Nós tivemos o trabalho de buscar a Teresa no meio do mato. Ela aproveitou a proteção da matilha por meio ano; está na hora de pagar a dívida.

Lágrimas geladas se misturaram ao sangue que escorria da minha testa, entrando nos meus olhos. A ardência cegava.

Então era isso.

Esse tal de laço de sangue, essa conexão de companheiros destinados... se aquilo era a definição deles de amor, era podridão. Eu não queria fazer parte disso.

Antes que a dose pesada de anestesia roubasse minha última migalha de resistência, eu assisti, em desespero, minha mãe calçar as luvas estéreis. Ela ergueu o bisturi de prata, posicionando-o diretamente sobre o meu peito.

Na maca ao lado estava a garota que eles tinham amado como uma joia enquanto eu brigava por migalhas na vida selvagem — minha irmã adotiva, Lillian.

— Lillian, a mamãe cumpriu a promessa. Dorme agora, meu bem. Quando você acordar, não vai mais precisar de máquinas pra manter seu sangue circulando. Esse coração poderoso vai ser seu.

Eu despencai na escuridão, acompanhada pela dor fantasma do meu peito sendo aberto à força.


Quando eu acordei de novo, a pulsação forte e ritmada do meu coração Alfa tinha sumido.

No lugar, havia algo fraco, lento e estranho. Parecia um pedaço de carne apodrecida enfiado à força dentro da minha caixa torácica.

Cada batida era uma luta, rasgando minhas entranhas. Era uma rejeição vinda do fundo da minha linhagem, um protesto gritante da minha própria alma. A dor entorpecia, irradiando até o couro cabeludo.

Eu tentei puxar um ar fundo, mas parecia que mãos invisíveis estavam me sufocando.

Justo quando eu achei que ia morrer asfixiada naquela cama de hospital, uma dúzia de monitores no quarto explodiu numa sinfonia de luzes vermelhas e alarmes estridentes.

Uma equipe de auxiliares médicos de branco entrou correndo, com pânico estampado no rosto.

Atrás deles vinham meus pais e Herbert.

— Não se mexa! Deixa comigo!

Mamãe empurrou uma assistente para o lado, o rosto tomado por um desespero frenético. Ela apoiou as mãos no meu peito, e as palmas começaram a brilhar com aquela luz suave típica de curandeiros de alto nível. Era um calor que eu costumava desejar; agora, parecia ferro em brasa.

Ela era, sem discussão, a melhor especialista da alcateia. Sob sua manipulação habilidosa, o ar pesado e morto preso no meu peito finalmente foi expulso.

Embora cada inspiração ainda trouxesse uma dor lancinante, como se rasgasse por dentro, a ameaça imediata de sufocar se afastou.

— Me desculpa, Teresa. A culpa é toda da mamãe... Eu nunca devia ter deixado você ir à Floresta Negra atrás dessas Ervas da Lua...

Herbert avançou, pegou minha mão, o rosto estampando uma afeição profunda.

— Teresa, você quase me matou de susto! A Eleanor disse que as garras envenenadas daquele Renegado corroeram seu coração durante a cirurgia. A gente teve que fazer um transplante pra salvar sua vida... Mas não se preocupa. Não importa no que você se torne, eu nunca vou desistir de você.

As lágrimas quentes de Herbert caíram na minha palma.

Tudo o que eu senti foi um frio que chegava aos ossos.

Lutando contra a ânsia de vomitar, olhei para as três pessoas reunidas ao redor da minha cama — minha família mais próxima — e usei cada resto de força para puxar minha mão de volta.

Forcei um sorriso fraco, fino como papel.

— Tá tudo bem. A Lillian sempre foi frágil. Já que eu já estou arruinada como irmã... passar um pouco de sorte pra ela é o mínimo que eu posso fazer.

— A Lillian está se recuperando rápido!

Papai disparou isso quase por reflexo, mergulhando o quarto num silêncio súbito e sufocante.

Mamãe tentou contornar na mesma hora, me puxando para um abraço.

— Foi uma bênção da Deusa da Lua. Bem na hora em que estávamos operando você, apareceu um doador compatível pra Lillian. Minhas duas filhas vão ficar bem.

— Ah, é? Eu sou “atacada” e perco o coração, e exatamente nesse momento a Lillian encontra um doador perfeito? O destino realmente tem um senso de humor doentio.

Eu me aninhei no abraço da minha mãe e sussurrei as palavras com leveza.

Na mesma hora, senti o corpo dela enrijecer contra o meu.

— A Lillian, ela—

— Eu tô brincando, mãe. Eu fico feliz por ela — interrompi, baixando as pálpebras para esconder o ódio glacial que congelava meu olhar.

A tensão no quarto evaporou. Eles soltaram o ar.

— Teresa, ainda tem algumas questões de defesa sobre esses Renegados que a alcateia precisa resolver. Descansa um pouco — disse papai, pigarreando, sem jeito.

— Vão. Vão ficar com a Lillian. Ela deve estar com dor depois da cirurgia — murmurei.

O sorriso congelou no rosto de Richard. Ele abriu a boca, talvez para impor a autoridade de Alfa, mas um olhar cortante de Eleanor o calou. Juntos, eles se viraram e saíram da enfermaria.

Os olhos de Herbert ficaram grudados nas costas deles enquanto se afastavam. Ele mudou o peso do corpo, inquieto. O coração dele claramente já estava no outro quarto.

Eu virei o rosto e fixei nele um sorriso tênue, quase fantasmagórico.

— Vai você também, Herbert. Vai... cuida bem da minha irmã recém-renascida por mim.

Quase antes de eu terminar a frase, Herbert soltou um apressado:

— Descansa, eu te vejo mais tarde.

E sumiu pela porta sem olhar para trás.

Observando as figuras se afastando, engoli o gosto metálico de sangue e amargura que subia na minha garganta. Com os dedos tremendo, enfiei a mão sob o travesseiro e puxei meu celular.

Disquei um número do outro lado do oceano.

“A Aliança da Lua Negra” — o poder supremo acima de todas as leis tribais.

— Eu aceito a oferta. Eu quero entrar — eu disse, com a voz rouca e quebrada.

— Tem certeza? Depois que você entrar, vai ter que assinar o Juramento de Sangue. Nada de contato com sua família por dez anos. Você não pode pisar neste território. Nós vamos apagar todo e qualquer vestígio da sua existência passada. — A voz do outro lado era baixa, carregada de uma tentação perigosa.

— Tenho certeza.

A outra parte aceitou sem hesitar. Por fim, uma sensação de calma me inundou.

Desliguei. Quando meus olhos passaram pela tela, meu coração falhou uma batida.

O gravador de voz de alta sensibilidade — que eu tinha ligado para marcar coordenadas da trilha de ervas — tinha ficado rodando em segundo plano durante toda a situação.

Meus dedos tremeram quando apertei “reproduzir”.

Uma maldade pura, sem disfarce, jorrou pelo alto-falante: a conspiração para romper as fronteiras, a ordem para arrancar meu coração enquanto eu ainda estava viva, o corte úmido do bisturi da minha mãe e a confissão distorcida de Herbert, dizendo amar outra mulher.

Cada palavra era um prego definitivo, ensanguentado, no caixão deles.

Apertei o celular com tanta força que os nós dos meus dedos ficaram brancos, e um arco cruel e frio se desenhou nos meus lábios.

Aquilo realmente era... uma bênção da Deusa da Lua.

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