Capítulo 2
Enquanto eu me recuperava na enfermaria da matilha, o Herbert vinha me visitar todos os dias.
Mas, sempre que ele aparecia, estava impregnado do perfume enjoativo e doce demais dos feromônios da Lillian. O olhar dele vivia se perdendo, claramente distraído, desesperado para fugir de um quarto que cheirava a ervas medicinais amargas e ao fedor persistente de carne apodrecendo.
Como Alfa e Luna, meus pais também faziam suas aparições diárias, só para constar. Mas, como governantes da matilha, as visitas deles eram pateticamente curtas.
Eles estavam mesmo se esforçando horrores para encenar essa “família unida” na minha frente, só por causa da Lillian. Devia ser exaustivo para eles.
Do lado de fora da porta, os sussurros abafados das enfermeiras da limpeza espetavam meus ouvidos como agulhas:
“Vocês ouviram? Aquela filha adotiva moribunda, a Lillian… ela conseguiu um coração perfeitamente compatível no mesmo dia do ataque dos renegados. É a Deusa da Lua escolhendo favoritas na cara dura!”
“Isso não é favoritismo, isso é parcialidade descarada! A Luna Eleanor suspendeu as Orações à Lua do Santuário por um mês inteiro só pra ficar do lado dela. Ela é uma Sacerdotisa de Cura de alto escalão e, mesmo assim, passou o tempo todo ao lado da cama da adotiva, fervendo poções e dando caldo na colher com as próprias mãos.”
“Shh… eu também ouvi que uma enfermeira nova tentou trazer uma ‘Poção de Acalmar a Alma’ pra este quarto ontem à noite, e a Luna Eleanor deu um tapa na cara dela e confiscou a poção. Esse remédio custou uma fortuna pro Alfa Richard, comprado da Bruxa do Pântano pra salvar uma vida, e ela virou e deu tudo pra adotiva como suplemento nutritivo!”
“A Lillian está usando o coração da Teresa, de quando ela estava no auge… por que ela precisaria de poções? Enquanto isso, a que está neste quarto está se contorcendo de dor no chão com aquele coração podre, cheio de morte, de um renegado, e ninguém mexe um dedo…”
“Não seja ingênua. Eles só estão evitando rejeição na adotiva. Manter esta aqui meio viva talvez seja só pra ela servir como um ‘banco de sangue’ ambulante. Afinal, a Teresa tem a linhagem mais pura da geração dela…”
Segurando as lágrimas salgadas, eu aguentei as câimbras violentas daquele coração estranho no meu peito e terminei o pão seco e duro que eu tinha na mão.
Meu corpo era meu, mesmo que fosse um recipiente quebrado.
Duas semanas depois, Lillian e eu recebemos alta da enfermaria da matilha no mesmo dia.
Eu, que já fui uma guerreira capaz de caçar ursos gigantes sozinha, agora saía empurrada numa cadeira de rodas. Enquanto isso, a Lillian, que antes era tão frágil que mal conseguia se transformar, estava corada de saúde, quase saltitando, cheia da vitalidade do meu coração forte.
O auxiliar mal tinha me empurrado até a SUV da família quando a Lillian bloqueou a porta, me parando ali mesmo.
“Teresa.”
Ela apontou para dentro do carro, fazendo bico com uma inocência forçada, embora os olhos brilhassem de triunfo.
“Como eu já estou melhor, o papai disse que não precisa mais deixar aquele espaço enorme atrás, então mandou tirar os suportes. Desculpa, mas a sua cadeira de rodas não vai caber.”
Eu olhei para o porta-malas.
E, de fato, o espaço amplo que o meu pai tinha mandado adaptar especialmente para a Lillian frágil — para caber uma cadeira de rodas — tinha sumido.
No lugar, havia almofadas de veludo rosa, fofas, preenchendo todo o banco de trás. O estilo preferido da Lillian.
O auxiliar que me empurrava congelou, com uma expressão constrangida, sem saber o que fazer.
“Ah, droga, eu esqueci completamente!”
Richard veio apressado do porta-malas e bateu a porta traseira com força. Ele se agachou na minha frente, e os traços autoritários de Alfa deixaram escapar um lampejo de culpa nada natural.
“Desculpa, Teresa. Eu tenho estado atolado com essas incursões de renegados na fronteira e acabei esquecendo esses detalhes. Tudo bem — hoje você pode voltar no caminhão de transporte de suprimentos da matilha. Quando eu tiver tempo, mando alguém personalizar um veículo adequado pra você.”
Eu forcei os cantos da boca para cima, olhando para o pai que detinha autoridade absoluta nesta matilha.
“Tudo bem. Não precisa comprar. Eu não vou usar por muito tempo.”
“Não vai usar…?”
Um lampejo de confusão passou pelos olhos de lobo afiados do Richard. “Teresa, eu não entendi.”
“Eu só quis dizer que eu simplesmente não vou precisar.”
Herbert deu um passo à frente, a palma quente pousando de leve — mas com um quê de posse — no meu ombro. Ele tentou liberar um feromônio calmante, daqueles feitos para afirmar dominância e ao mesmo tempo tranquilizar. Infelizmente, para mim, o cheiro agora era só um metal enjoativo, capaz de embrulhar o estômago.
— Teresa, um lobo depender de ferramentas feitas para os fracos é um insulto. Você não precisa disso.
Ele apertou meu ombro com mais força, embora os olhos se recusassem a encarar meu corpo despedaçado.
— Você é a guerreira mais forte desta geração, mesmo ferida. A gente com certeza não precisa dessa coisa. Recuperação é só questão de tempo, não é, Alfa?
Richard soltou o ar com alívio e assentiu várias vezes, como se essa ofensa velada fosse só um pequeno contratempo.
Enquanto falava, Herbert já tinha tomado as alças da cadeira de rodas das mãos do enfermeiro.
Antes que ele pudesse me virar, Lillian correu por trás e se agarrou ao antebraço de Herbert, como um filhote possessivo protegendo a própria comida.
— Herbert, eu quero que você sente comigo.
— É deprimente demais ficar com a mamãe e o papai, Teresa. Você também não consegue correr e brincar comigo agora... então deixa o Herbert me fazer companhia, tá bom...?
Herbert pareceu um pouco constrangido enquanto tentava soltar a mão de Lillian.
— Não seja infantil, Lillian. A Teresa não está bem...
— Deixa.
Eu cortei Herbert com frieza. Meus dedos pálidos agarraram os aros das rodas. Com um impulso seco, eu me empurrei para a frente, para longe deles.
Quando o enfermeiro me ajudou a subir na caminhonete de suprimentos, empoeirada e sem suspensão, eu observei pela janela Herbert colocar Lillian com cuidado dentro do SUV de luxo.
Meus pais assistiram à cena com um orgulho amoroso no olhar, como se aquele fosse o legado do qual eles realmente se orgulhavam.
Quando o motor pegou e começou a roncar, meu celular vibrou. Uma mensagem de Herbert.
[Teresa, não entenda errado. A Lillian tem o coração, mas o lobo dela é instável. Ela precisa dos meus feromônios de Alfa para se ancorar.]
[Eu sei.]
Segurando o peito enquanto uma dor fina, como agulhas, explodia dentro de mim, eu respondi sem expressão.
Eu ia sair deste território em breve de qualquer jeito.
Fazer o jogo deles por mais alguns dias, nessa encenação tediosa, não mudava nada.
Ao voltar para a sede principal da matilha e ver a paisagem familiar, eu não consegui evitar um sorriso amargo.
Um mês atrás, no dia em que saí daqui para colher Erva da Lua na Floresta Negra para os rituais, eu ainda tinha tanta esperança nessa família e nesse vínculo de acasalamento. Eu até tinha fantasiado sobre os filhotes que Herbert e eu criaríamos, rolando nessa mesma grama.
Em pouco mais de um mês, tudo tinha mudado.
— Teresa...
Mamãe começou a orientar os criados para me descerem da caminhonete de suprimentos, depois estendeu a mão e segurou a minha com urgência.
Ela pressionou na minha palma um totem talhado em pedra da lua. A pedra era fria ao toque e emitia um brilho tênue, marcada com runas antigas de oração.
— Esta é uma Pedra de Vínculo que eu pedi no Altar Sagrado. Sua alma de lobo está fragmentada demais agora; pode se apagar a qualquer momento. Esta pedra vai atestar a sua vontade de viver. Use. Não tire.
— Para conseguir isso, eu me ajoelhei nos degraus de pedra gelada do altar por três dias inteiros. Para comover a Deusa, eu suprimi de propósito a minha cura, abrindo mão do meu lobo para me ajoelhar ali como humana, até meus joelhos sangrarem.
Quando ela se virou para dar ordens a um criado, meu olhar caiu na barra do robe comprido dela.
O tecido na altura dos joelhos estava gasto, atravessado, manchado de sangue escuro e seco.
Pelas rasgaduras do pano, eu vi a carne machucada por ter se ajoelhado em pedra áspera por tanto tempo, e a pele ao redor das feridas, pálida de queimadura do frio.
Uma lembrança voltou de repente, como uma onda.
Quando eu tinha sete anos, pouco depois de ter sido trazida de volta para a matilha, eu me perdi e entrei na Floresta Proibida. Naquela noite, ela tinha se ajoelhado diante da estátua da Deusa do mesmo jeito, a noite inteira, quase queimando a própria força vital para me guiar de volta para casa.
Quando eu voltei sã e salva, ela estava fraca demais para se transformar por um mês inteiro.
O canto congelado do meu coração rachou, só um pouco.
Eu apertei a Pedra de Vínculo contra o peito. Era a única coisa que eu ainda tinha que parecia quente. Apertei a mão da minha mãe de volta, com a voz rouca.
— Mãe, obrigada.
— Não seja boba. Somos família. — Os olhos de Eleanor estavam vermelhos nas bordas, com um ar infinitamente maternal. — Só me promete uma coisa.
— Qualquer coisa. É só dizer.
