Capítulo 3
"Lilian acabou de passar pelo transplante de coração. Para garantir que o risco de rejeição fique reduzido ao mínimo absoluto, ela precisa ficar na suíte principal, banhada pela pura luz da lua..."
"Mas não se preocupe. Seu pai já mandou os Betas colocarem peles novas e bem grossas e instalarem um aquecedor no quarto de hóspedes perto da adega. Você nunca mais vai sentir frio..."
Clang.
A Pedra de Vínculo que eu estava segurando — a mesma pedra pela qual minha mãe dizia que tinha acabado com os joelhos de tanto implorar — se espatifou no chão gelado.
Aquela pedra, que um dia me fez sentir culpa a ponto de eu acreditar que ancorava a minha alma, se desfez em pó irrecuperável bem diante dos meus olhos — levando com ela o último fiapo de simpatia que eu ainda guardava pelas cicatrizes nos joelhos da mamãe.
"Teresa, você é a irmã mais velha. Como você tem o sangue de lobo mais forte, precisa aprender a ceder pra sua irmã..."
"Mãe, eu nunca tive a intenção de disputar isso com a Teresa. Deixa ela ficar lá. Eu vou morar no porão."
Depois do jantar, engoli a poção amarga de cura e caí num sono pesado, entorpecido.
À meia-noite, uma dor fantasma, ardente, vinda do coração apodrecido dentro do meu peito me arrancou de um pesadelo.
Abri os olhos. O duto de ventilação estreito lançava um feixe de luz vermelho-escura, sinistra, para dentro do quarto. Era a "Lua de Sangue" — a época em que os instintos dos lobos ficam mais instáveis e a razão fica por um fio.
O ar tinha ficado denso. Mesmo com duas camadas de tábuas de assoalho entre nós, aquele cheiro intenso de feromônios do Cio atacou os meus sentidos, misturado aos sons que desciam da suíte principal lá em cima — a voz da Lilian, carregada de lágrimas e, ainda assim, cheia de ofegos sedutores.
"Eu não quero que você volte... É Lua de Sangue, e o seu cheiro tá me deixando louca. Se você for pro porão, aquela mulher com certeza vai tentar te seduzir!"
"Como isso ia acontecer? Só o fedor daquelas ervas podres nela já me dá ânsia." A voz de Herbert saiu num rosnado baixo, mal contido. "Meu lobo... só reage a você."
Lilian soltou um gemido satisfeito, como uma gata no cio. "Então... você ainda vai voltar?"
"Não. Hoje à noite, você é a única coisa de que eu preciso."
Herbert puxou o ar, ofegante, e a beijou com uma urgência impaciente.
"Mas... a Luna Eleanor disse que o seu corpo ainda precisa se nutrir do sangue reserva daquele lixo..."
"Eu odeio beber dela... tem gosto de metal e de podre", Lilian reclamou, choramingando.
"Seja uma boa menina e aguente. Eu preciso enrolar ela com conversa. É o único jeito de ela continuar sangrando de bom grado por você, se acontecer alguma coisa..."
"Então você ainda vai amar aquela bolsa de sangue viva?"
"Como isso seria possível? Cada segundo que eu passo com aquela casca vazia, eu tô pensando em você..."
"Herbert..."
As mãos de Lilian acariciaram as bochechas de Herbert enquanto ela ficava na ponta dos pés, oferecendo os lábios a ele.
O ar ficou sufocante, saturado pela mistura enjoativamente doce dos cheiros dos dois. E eu fiquei sentada, dura, naquele quarto apertado e mofado a noite inteira.
Lá em cima, a loucura dos traidores também não parou em nenhum momento.
Quando o dia começou a clarear, Herbert empurrou a porta e entrou. A camisa dele estava abotoada errado, e o ar ao redor ainda fedia ao almíscar açucarado de Lilian.
Ao me ver sentada no chão, pálida feito um fantasma, um lampejo de pânico atravessou os olhos dele. Herbert alisou a gola da camisa.
— Teresa, quando você acordou?
— Agora há pouco — menti. Meu estômago se revirou.
— Seu ferimento está incomodando? — Ele estendeu a mão, mas eu me esquivei.
A mão dele ficou suspensa no ar. — Você está péssima. Vou chamar a Luna Eleanor.
— Não precisa — interrompi. — A cirurgia me drenou; eu não tenho forças nem pra me levantar. Avise ao meu pai que eu não vou descer pra festa.
Herbert relaxou visivelmente, deixando a encenação de lado.
— Talvez seja melhor assim. Hoje é o “Banquete do Renascimento” que o Alfa Richard organizou pra Lilian. Os Alfas mais fortes de todas as Matilhas vão estar lá. Como você perdeu o seu Espírito de Lobo, temo que não aguentaria o peso esmagador da dominância deles... fique aqui, pela sua segurança.
Olha só. Desculpa perfeita. Ele me acha um vexame, mas disfarça de proteção.
— Vamos levar a Lilian pro gramado agora. Depois eu trago um presente pra você.
— Vá, Herbert. — Eu o encarei, um sorriso fraco tocando meus lábios. — Eu também preparei um “presentão” pra você. Não deixe de conferir quando voltar.
Ele assentiu de forma automática e saiu, tratando o quarto como se fosse uma área contaminada.
— Se acontecer alguma coisa, me liga.
— Tá bom.
Fiquei na janela enquanto o motor rugia. O carro que um dia foi meu carro de guerra levou minha família embora, para uma celebração sem mim.
Meu celular vibrou. Mensagem criptografada.
[Srta. Teresa, a equipe de extração da Aliança da Lua Negra chegou à Floresta Nebulosa. Esperamos você. A partir deste momento, você não estará mais sujeita às Leis da Matilha.]
— Recebido. — Fechei o celular de uma vez.
Três cantos de pássaro ecoaram lá fora — o sinal.
Olhei o quarto uma última vez, arranquei o anel de noivado e o joguei sobre a escrivaninha empoeirada.
Apertei a capa ao redor do corpo e desapareci na névoa da manhã.
Os jardins impecavelmente aparados da propriedade estavam em chamas de tanta luz.
Mamãe, papai e Herbert giravam em torno de Lilian como planetas ao redor de um sol. Meus terrenos de caça e minhas joias — tudo passado para o nome dela, devidamente assinado.
— Richard, nossa filha finalmente está vivendo como uma verdadeira loba — mamãe soluçou, segurando o braço do meu pai. — Ver aquele coração batendo tão forte... eu posso morrer em paz.
— Que bobagem! A gente ainda precisa ver a Lilian e o Herbert gerarem os herdeiros definitivos!
Herbert só tinha olhos para Lilian. Se sentia culpa, o sorriso dela apagava. Eles se banqueteavam com uma felicidade roubada, esquecendo a provedora sangrando, deixada no escuro.
No auge da festa, um carro alegórico carregando o “Vinho ao Luar”, puxado por dois touros enormes, entrou rolando no gramado.
Lilian, hipnotizada pela “Glória da Futura Luna”, correu em direção ao carro, ignorando os flashes das câmeras, que estavam enlouquecendo os animais.
Num piscar de olhos, os touros perderam o controle.
Com um urro violento, o carro pesado guinou e atingiu Lilian em cheio.
Ela voou como uma boneca de pano e se espatifou na grama. Com o rosto cinzento, apertou o peito, um estertor de morte escapando da garganta.
O coração roubado, em choque com o impacto, entrou em falência total. Ele martelava com violência contra as costelas, tentando escapar — rejeição aguda.
O pânico explodiu.
Richard, com os olhos injetados de sangue, segurou o corpo convulsionando de Lilian e berrou para Herbert:
— Chama a Teresa! Diz pra ela que a Lilian tá morrendo! Manda ela trazer a porra do corpo dela pra cá! A gente precisa do sangue dela! AGORA!**
