Capítulo 3 Encontro com o estranho que eu deveria namorar
POV da Harper
Eu estava parada na frente da sede do Seattle Titans tentando lembrar como é que um ser humano normal respirava.
O escritório da Maya ficava no quarto andar de um prédio de vidro e aço na orla. Era profissional e intimidador, o tipo de lugar onde as pessoas tomavam decisões que envolviam milhões de dólares e centenas de carreiras.
Definitivamente não era o tipo de lugar em que você aparecia para negociar um namoro de mentira com um desconhecido por motivos de vingança.
Eu tinha tomado banho, lavado o cabelo. Coloquei roupa de verdade: jeans escuros e uma blusa verde que a Maya jurava que destacava meus olhos, além de um salto baixo que eu tinha esquecido que machucava depois de seis semanas vivendo de pantufa.
Eu parecia quase humana, quase como alguém que tinha a vida sob controle. A ilusão não aguentaria uma inspeção de perto, mas de longe eu passava.
“Você consegue”, falei para mim mesma. “É só uma reunião. Você pode ir embora a qualquer momento.”
Exceto que eu não podia, não de verdade. Aquele convite de casamento estava em cima do balcão da cozinha da Maya como uma bomba prestes a explodir, e eu tinha menos de três meses para decidir se ia aparecer derrotada ou desafiadora.
Peguei o elevador até o quarto andar. O logo dos Titans estava em todo lugar, nas paredes, no chão, até num padrão discreto do carpete. A recepcionista sorriu para mim com uma cordialidade profissional que não chegava aos olhos.
“Harper Sinclair, pra ver a Maya Park?”
“Sala de reunião B. No fim do corredor, terceira porta à esquerda.”
O corredor era decorado com fotos de jogadores em ação, momentos de título, comemorações de equipe. Reconheci alguns rostos de jogos a que eu tinha ido com o Joel, na época em que eu ainda achava que o hóquei ia ser o nosso pra sempre.
A sala de reunião B tinha paredes de vidro que não davam nenhuma privacidade. Eu conseguia ver a Maya lá dentro, conversando com um cara de costas para mim.
Ele era alto, ombros largos e cabelo escuro, comprido o bastante para parecer bagunçado de propósito. Usava jeans e uma henley que provavelmente custava mais do que a minha roupa inteira, e, mesmo de costas, dava pra perceber que ele era atlético. A maneira como ele ficava em pé era equilibrada e tensa, pronta para se mover, a postura de alguém cujo corpo é a profissão.
A Maya me viu e fez sinal para eu entrar. Empurrei a porta.
O homem se virou.
“Eita. Quem é que eu tô olhando?”, pensei.
As fotos não faziam justiça nenhuma a ele. Crew Lawson era objetivamente, quase agressivamente bonito.
Ele não era bonito do tipo “fofo”, porque “bonitinho” seria só um eufemismo. Esse cara tinha aresta demais. O maxilar era afiado como lâmina, os olhos escuros e intensos, do tipo que vê tudo e não entrega nada. Tinha uma cicatriz pequena acima da sobrancelha esquerda. As mãos eram enormes, com os nós dos dedos marcados de um jeito que deixava claro que ele já tinha dado muito soco e apanhado outros tantos.
Ele me encarou com absolutamente nenhuma expressão… não era exatamente hostil nem amigável, apenas avaliando, como se eu fosse um problema e ele estivesse decidindo se valia a pena resolver ou ignorar.
“Harper”, disse a Maya, toda animada, na voz profissional falsa dela. “Esse é o Crew Lawson. Crew, essa é a Harper Sinclair.”
“A ex-namorada”, o Crew falou. A voz dele era mais grave do que eu esperava e meio áspera.
“A fisioterapeuta”, corrigi. “Que por acaso tem um ex-namorado. Mas minhas qualificações profissionais existem independente do meu status de relacionamento.”
Um canto da boca dele se contraiu, reconhecendo que eu tinha rebatido.
“A Maya disse que você precisa de um par pro casamento do seu ex”, ele falou.
“A Maya disse que você precisa de alguém pra fazer você parecer menos um criminoso violento”, devolvi.
Dessa vez ele sorriu MESMO, mas não foi um sorriso caloroso. “Touché.”
“Podemos sentar todo mundo?” A Maya apontou para a mesa de reunião. “Eu tenho contratos pra revisar. Vamos pelo menos fingir que isso é um acordo profissional.”
Eu me sentei e o Crew sentou de frente pra mim, o que pareceu um pouco intencional. Como se ele quisesse distância ou, talvez, só quisesse manter contato visual enquanto a gente descobria se isso ia funcionar ou explodir.
“Então”, eu disse. “Namoro de mentira. Por três meses e terminando no dia seguinte ao casamento do meu ex.”
“O que inclui: aparições públicas, posts em rede social, basicamente credibilidade suficiente pra imprensa comprar a história”, o Crew acrescentou. Ele se recostou na cadeira.
“A Maya me mostrou as estatísticas do seu ex. Ele é um defensor de segundo par ganhando seis milhões de dólares por ano. Plus-minus decente, fraco na saída de jogo. Não é exatamente o que eu chamo de elite.”
“Isso não é sobre hóquei.”
“Tudo é sobre hóquei quando você namora um jogador de hóquei, mesmo que seja de mentirinha.” Os olhos dele eram bem diretos. “Seu ex vai olhar pra você comigo e entender na hora que você subiu de nível. Esse é o objetivo, certo?”
“O objetivo é eu aparecer no casamento dele parecendo feliz”, falei com cuidado. “O fato de você ser objetivamente melhor no que faz do que ele é no que faz é só contexto.”
— Então você acha mesmo que eu sou melhor que ele.
— Eu acho que você é mais caro que ele. Não é a mesma coisa.
Ele quase sorriu de novo.
— Você é sempre assim na defensiva ou tá fazendo um esforço especial só pra mim?
— Eu não tô na defensiva. Tô sendo cautelosa. De novo… tem diferença.
— Daqui de onde eu tô, não tem diferença nenhuma. — Ele cruzou os braços.
— A Maya vendeu isso como algo mutuamente benéfico. Você tem sua vingança, eu faço uma limpeza na minha imagem, nós dois saímos em três meses com o que a gente quer. Mas eu preciso saber se você consegue vender essa história. Consegue?
— E você? — retruquei.
— Eu brigo com gente pra ganhar a vida. Atuar não é exatamente meu ponto forte.
— E eu passei dez anos fingindo que a carreira do meu namorado importava mais que a minha. Então, sim. Eu sei atuar.
A gente ficou se encarando através da mesa. Os olhos dele eram muito escuros e muito diretos, daquele tipo de olhar que faz você se sentir exposta, como se ele conseguisse enxergar por trás de qualquer performance e chegar na verdade caótica por baixo.
A Maya pigarreou bem alto.
— Então isso é um “sim” dos dois?
— Eu não concordei com nada — eu disse.
— Nem eu — acrescentou o Crew.
— Ótimo. Então os dois estão mentindo. — Maya puxou dois contratos e empurrou um pra cada lado da mesa. — Vamos lá: três meses, cinquenta mil dólares de compensação pra Harper, pagos em parcelas. Crew, seu empresário já aprovou sua participação. Termos padrão. Aparições públicas quando necessário, no mínimo três posts por semana nas redes sociais, demonstrações de carinho físico conforme necessário pra ser convincente, cláusula de rescisão permitindo que qualquer uma das partes saia com duas semanas de aviso.
Peguei o contrato e passei os olhos. A linguagem era densa porque, com certeza, tinha sido escrita por advogados. Mas o essencial tava claro. Três meses de fingimento. Cinquenta mil dólares. Liberdade pra sair se ficasse insuportável.
— E se as pessoas descobrirem que é tudo de mentira? — perguntei.
— Aí todo mundo aqui fica com cara de babaca e eu perco meu emprego — disse a Maya. — Então vamos evitar isso. Mais alguma pergunta?
— Tenho. — Crew lia o contrato, mas claramente não tava prestando atenção, porque os olhos continuavam em mim. — Você consegue beijar sob comando?
Pisquei.
— Como é?
— Poxa, a gente tá falando de… câmeras e eventos públicos. Mais cedo ou mais tarde vai rolar um “kiss cam” da vida. Ou fotógrafo pegando a gente de surpresa. Você consegue me beijar sem parecer negociação de sequestro?
— Eu já beijei outras pessoas.
— Não foi isso que eu perguntei.
Senti o calor subindo pelo pescoço. Isso era pra ser um acordo de negócios. Só que nada nessa conversa combinava com isso.
— Eu consigo te beijar — falei, num tom uniforme. — Você consegue me beijar sem deixar tudo estranho?
— Só tem um jeito de descobrir.
— De jeito nenhum — a Maya se meteu. — Não vamos fazer teste de química na minha sala de reunião. Assinem os contratos primeiro. Depois vocês veem se são fisicamente capazes de não parecer irmãos em almoço de família.
Crew pegou a caneta em cima da mesa e assinou o nome numa garatuja rápida e ilegível. Empurrou o contrato de volta pra Maya e olhou pra mim, esperando.
Era isso. O momento em que eu ou levantava e ia embora, passando o resto da vida me perguntando “e se?”, ou assinava meu nome e me comprometia a três meses fingindo namorar um estranho pra fins de vingança.
Sem pensar demais… peguei a caneta e assinei meu nome. Depois empurrei o contrato pela mesa até a Maya.
— Excelente — disse a Maya, recolhendo os dois documentos como se tivesse acabado de fechar uma fusão de empresas. — Vocês estão oficialmente num namoro fake a partir de agora. Primeira aparição pública é amanhã à noite. Jogo dos Titans, vocês vão sentar na área do Crew, as câmeras vão pegar vocês juntos. Veste alguma coisa legal. Sorri. Tentem não se matar antes do terceiro período.
Crew se levantou.
— Passo pra te pegar às seis.
— Você nem sabe onde eu moro.
— A Maya vai me mandar o endereço. — Ele foi até a porta e parou com a mão na maçaneta. — Só pra constar? Seu ex é um idiota.
E saiu.
Fiquei ali, olhando pra porta por onde ele tinha acabado de passar, com a minha assinatura secando num contrato que ou ia me salvar, ou ia me destruir.
Maya abriu um sorriso.
— Isso vai ser incrível.
— Isso vai ser um desastre — corrigi.
— Mesma coisa na minha área — ela disse, juntando os contratos. — Vai pra casa. Procura alguma coisa pra vestir que não grite “recém-terminada e emocionalmente em frangalhos”. Amanhã à noite, você é a namorada do Crew Lawson. Se comporta como tal.
Saí daquele prédio com cinquenta mil dólares em renda teórica, um namorado fake que eu conhecia havia quinze minutos e três meses pra convencer o mundo de que eu tinha superado o Joel Hartley.
A Maya já tinha arrumado uma entrevista de emprego na Evergreen Fisioterapia pro fim daquela semana. Algo pra me manter com os pés no chão enquanto todo o resto desabava.
E a parte mais louca?
Eu tava começando a achar que talvez eu realmente conseguisse.
