Capítulo 4 Nosso primeiro encontro falso
POV da Harper
— Isso é uma idiotice!
Gritei, jogando um suéter vermelho em cima da cama, onde já tinha uma pilha de outras quatro opções rejeitadas.
— Por que eu aceitei isso?
Por que eu achei que isso era uma boa ideia?
Resmunguei, em pé na frente do armário da Maya, segurando minha quinta opção de roupa e odiando absolutamente tudo na minha vida.
Maya estava sentada no chão, mexendo no celular como se nada estivesse acontecendo.
— Porque o Joel te convidou pro casamento e você quer chegar lá parecendo que saiu por cima. Agora escolhe alguma coisa antes que o Crew chegue, em quinze minutos.
Quinze minutos? Meu Deus.
Será que esse dia podia ficar pior?
Peguei uma blusa preta e levantei.
— Isso tá muito cara de velório? Eu não quero aparecer lá parecendo que tô de luto.
— Então não usa preto.
— Mas preto emagrece e eu não malho faz seis semanas. E se tiver modelo de Instagram lá e eu parecer uma batata do lado delas?
Minha voz estava ficando mais aguda e eu sentia o pânico subindo pela garganta.
— E se ele bater o olho em mim e perceber que isso foi um erro? E se eu não conseguir? E se eu travar e todo mundo perceber que é tudo de mentira?
— Harper. — Maya se levantou e veio até mim. Pegou a blusa preta da minha mão e jogou de volta no armário. Depois puxou um suéter azul-marinho. — Usa esse. Com aquela sua calça jeans escura. E para de surtar. Você tá indo pra um jogo de hóquei, não pro tapete vermelho do Oscar.
Peguei o suéter dela. Era macio e acinturado, sem ser apertado.
— Você acha que funciona?
— Eu acho que você precisa ir se trocar antes de ter um colapso completo. — Maya me empurrou na direção do banheiro. — E deixa o cabelo solto. Você sempre se esconde atrás daquele coque quando fica nervosa.
Vesti o suéter e a calça jeans e fiquei me encarando no espelho.
Eu parecia bem. Normal. Tirando o fato de que minhas mãos não paravam de tremer e eu tinha certeza de que ia vomitar.
Isso era uma loucura. Eu estava prestes a sair num encontro falso com um cara que eu tinha conhecido ontem. Um cara que batia nas pessoas pra ganhar a vida.
Ainda perdida nos meus pensamentos, meu celular vibrou em cima da pia.
Crew: Cheguei.
Ai meu Deus, ai meu Deus, ai meu Deus.
Saí do banheiro e a Maya estava me esperando na porta, com o celular levantado como se fosse registrar tudo aquilo pra usar de chantagem depois.
— Boa sorte — ela disse. — Lembra: você tá feliz. Você tá confiante. E você tá super a fim dele. Vende essa história.
— E se eu não conseguir?
— Então finge. Você fingiu ser feliz com o Joel por dez anos. Isso aqui são só três meses. — Maya abriu um sorriso pra mim. — Agora vai. E tenta não parecer que tá indo pro paredão.
Peguei minha bolsa e desci as escadas. Minhas pernas estavam bambas e meu estômago dava cambalhotas. Quando empurrei a porta da entrada do prédio, o Crew estava encostado num SUV preto, com as mãos nos bolsos.
Ele se endireitou quando me viu e o olhar dele foi do meu rosto até meus sapatos e voltou. Senti meu rosto esquentar com o nervosismo que já corria por baixo da pele.
— Você tá bonita — ele disse.
— Valeu. — Minha voz saiu estranha, fininha. — Você também.
Ele abriu a porta do passageiro pra mim e eu entrei. O carro tinha cheiro de couro e de outra coisa, provavelmente o perfume dele. Era limpo e organizado, o que me surpreendeu por algum motivo.
Crew entrou, ligou o carro e saiu da vaga. Nenhum dos dois disse nada. O silêncio era tão alto que me dava vontade de gritar.
Fala alguma coisa. Qualquer coisa. Não fica aqui sentada que nem uma idiota.
— Então… — eu disse, finalmente. — A gente devia combinar nossa história? Tipo como a gente se conheceu e tal?
Ele lançou um olhar rápido pra mim.
— O que você quer dizer?
— Não sei, por isso tô perguntando. — Eu torcia as mãos no colo. — A gente devia deixar simples, né? Pra não se enrolar?
— A Maya apresentou a gente. A gente saiu pra tomar um café. Tá se vendo tem mais ou menos um mês. — Ele entrou na rodovia. — Serve pra você?
— Serve. Tá. Um mês. — Peguei o celular e abri o bloco de notas, porque se eu não anotasse, com certeza ia esquecer. — E como eu te chamo? Tipo, em público?
— Crew tá ótimo.
— Só Crew? Nada de amor, mozão, nada assim?
— Eu tenho cara de quem atende por “amor”?
Olhei pra ele. Ele mantinha os olhos na pista, mas tinha um quase sorriso no canto da boca.
— Não — admiti. — Realmente não.
— Então só Crew.
Anotei tudo no bloco de notas. Como a gente se conheceu, há quanto tempo a gente “tá junto”, como eu tinha que chamar ele. Que ridículo. Casais normais não precisavam de planilha pra lembrar o básico um do outro.
— E você? — perguntou o Crew. — O que você quer que eu saiba?
— Hã. — Eu não tinha pensado nessa parte. — Eu gosto de café com creme e açúcar demais. Eu queria abrir minha própria clínica de medicina esportiva, mas fui adiando. Vejo reality show demais quando estou estressada. E na verdade eu entendo pra caramba de hóquei, mas geralmente finjo que não, porque os caras ficam estranhos com isso.
Ele me olhou com as sobrancelhas erguidas.
— Você finge?
— Eu fui aos jogos do Joel por dez anos. Eu sei o que é icing. Sei o que é power play. Não sou idiota.
— Então por que fingir?
— Porque os caras gostam de explicar as coisas. Faz eles se sentirem inteligentes. E meio que… masculinos. — Dei de ombros. — Se eu ajo como se já soubesse de tudo, eles ficam intimidados, sei lá.
— Isso é a coisa mais idiota que eu já ouvi.
— Pois é, bem-vindo a sair com homem sendo mulher.
Ele balançou a cabeça, mas estava com um leve sorriso.
— Não faz isso comigo. Se você entende de hóquei, só fala que entende de hóquei. Eu não vou ficar intimidado porque você entende o esporte que eu jogo.
Algo no jeito que ele disse aquilo me fez ficar menos em pânico. Como se talvez isso não fosse ser tão terrível quanto eu tinha imaginado.
A gente dirigiu por mais alguns minutos e então eu vi a arena lá na frente. E do lado de fora da entrada tinha fotógrafo pra todo lado. Pelo menos uma dúzia deles com câmeras enormes e aquele olhar faminto de quem está esperando acontecer alguma coisa interessante.
Meu pânico voltou tudo de uma vez.
— Meu Deus — murmurei. — Tem tanta gente.
— Eles estão sempre aí. — O Crew entrou no estacionamento. — Não se preocupa com isso.
— Não me preocupar? Eles vão tirar foto da gente. E se eu ficar horrível? E se eu piscar estranho ou meu rosto fizer alguma coisa idiota?
— Você não vai ficar horrível.
— Você não sabe disso.
Ele colocou o carro na vaga e virou pra me encarar.
— Harper. Respira. São só fotógrafos. Eles tiram foto, é o trabalho deles. Você sorri, a gente entra, e acabou.
— Mas e se…
Ele esticou a mão e pegou a minha. A mão dele era quente e muito maior que a minha, e o toque mandou um choque pelo meu corpo pro qual eu não estava preparada.
— Só segue o meu ritmo — ele disse. — Somos duas pessoas indo a um jogo de hóquei. Só isso. Não complica.
Assenti porque não consegui achar minha voz. Ele apertou minha mão de leve e depois soltou, saiu do carro e veio pro meu lado. Abriu a porta e me ofereceu a mão pra eu descer.
Eu peguei, porque é isso que uma namorada faria. A mão dele era quente e firme, e eu segurei como se fosse a única coisa me impedindo de sair flutuando por aí.
A gente começou a andar em direção à entrada e as câmeras começaram a disparar na hora. O barulho era ensurdecedor. Click click click click, sem parar, e as pessoas gritando perguntas que eu nem conseguia entender.
O Crew continuou andando como se nada estivesse acontecendo. Ele não largou a minha mão.
— Crew! Quem é a sua acompanhante?
— É sua namorada?
— Há quanto tempo vocês estão juntos?
Tentei sorrir, mas meu rosto parecia congelado. Meu coração batia tão forte que eu achei que ia explodir de verdade.
Eu não conseguia acreditar no que estava vendo. Era real. Estava mesmo acontecendo. Eu estava de mãos dadas com o Crew Lawson na frente de uma dúzia de câmeras e amanhã isso ia estar em todo lugar e o Joel ia ver e…
O Crew apertou minha mão e eu olhei pra ele. Ele estava me olhando com uma expressão quase suave. Como se estivesse tentando me dizer alguma coisa sem falar em voz alta.
“Você está bem, Harper. Só respira”, sussurrei pra mim mesma enquanto a gente passava pelas portas da arena.
O barulho dos fotógrafos sumiu assim que as portas se fecharam atrás da gente. Percebi que estava prendendo a respiração há tempo demais e soltei tudo de uma vez.
— Você tá bem? — o Crew perguntou baixinho.
— Tô. — Minha voz saiu trêmula. — Foi só… muita coisa.
— Você foi bem. — Ele ainda não tinha soltado a minha mão. — Vem. A nossa seção é pra cá.
A gente andou pela arena e as pessoas continuavam encarando. Cochichando. Ouvi alguém dizer “É o Crew Lawson?” e outra pessoa perguntar “Quem é a garota?”
O Crew me levou por um lance de escadas até o que eu achei que seria algum tipo de camarote de luxo, mas em vez disso ele parou em assentos comuns. Muito bons, mas ainda assim, lugares no meio da torcida.
— Achei que a gente ia ficar numa suíte ou algo assim — comentei.
— Assim parece mais real. — Ele fez um gesto pra eu passar primeiro na fileira.
Foi aí que eu vi.
Quatro mulheres sentadas na mesma fileira, todas vestidas como quem sabe exatamente o quanto está bonita. E todas viraram pra me encarar com expressões que iam do curioso ao calculista.
Uma delas, uma loira com o tipo de ossos do rosto que deviam estar em capa de revista, sorriu pra mim. Mas não foi um sorriso amigável.
— Bom — ela disse. — O Crew finalmente trouxe alguém pra um jogo. Isso vai ser interessante.
