Capítulo 5 A vez em que fiquei totalmente ferrado.

POV da Harper

Sentei ao lado do Crew e imediatamente senti quatro pares de olhos grudarem em mim.

A loira que tinha comentado que aquilo ia ser interessante se inclinou pra frente com um sorriso que não chegava aos olhos.

"Sou a Jessica. Esposa do Connor. Ele é o capitão do time… E você é?"

"Harper." Encarei o olhar dela em vez de desviar, como eu queria. "Harper Sinclair."

"Harper." Ela repetiu. "Posso perguntar… há quanto tempo você e o Crew estão juntos?"

"Faz cerca de um mês." Mantive a voz firme. "A gente se conheceu por um amigo em comum."

"Ah, um mês." Jessica olhou pras outras mulheres. "Interessante. O Crew normalmente não traz ninguém pros jogos. Você deve ser bem especial."

Do jeito que ela falou, me deu um arrepio de irritação. Como se já tivesse visto várias garotas entrarem e saírem, e eu fosse só a mais recente.

Sorri pra ela.

"Ou talvez ele só tenha finalmente conhecido alguém que valesse a pena trazer."

Uma das outras mulheres deu uma risadinha pelo nariz e depois tentou disfarçar com uma tosse. As sobrancelhas da Jessica subiram de leve, mas a expressão dela logo mudou pra um sorriso.

"Já gostei dela," disse a mulher que tinha rido. Ela tinha cabelo escuro e olhos gentis, vivos. "Sou a Ashley. Noiva do Marcus. Número 77. E, aliás, não deixa a Jess te intimidar, não. Ela faz isso com todo mundo."

"Eu não tô intimidada," falei, e percebi que realmente era verdade. Passei dez anos me diminuindo por causa do Joel, pedindo desculpa por ocupar espaço, fingindo que não sabia das coisas pra ele se sentir inteligente. Tinha acabado isso pra mim.

"Eu só tô aqui pra ver meu namorado jogar hóquei."

"Boa resposta," disse uma ruiva do outro lado da Jessica. "Sou a Brittany. Namorada do Derek. E, sinceramente, é bom ver o Crew com alguém que tenha personalidade. Algumas meninas que esses caras trazem estão aqui só pelas fotos pro Instagram."

Relaxe um pouco. Talvez isso não fosse tão ruim assim.

"E você faz o quê, Harper?" Jessica perguntou. O tom dela agora estava mais amigável. "De trabalho?"

"Sou fisioterapeuta," respondi.

"Que tipo de fisioterapia?" a Ashley perguntou.

"Medicina esportiva. Me especializei em tratar atletas, na maior parte jogadores de hóquei, na verdade."

As sobrancelhas da Jessica ergueram um pouco, e ela se inclinou pra frente, interessada.

"...Então eu provavelmente sei mais do que deveria sobre o que esses caras fazem com o próprio corpo."

"Ah, que legal," disse a Brittany. "Quer dizer que você pode avisar quando a gente tem que se preocupar de verdade e quando eles tão só fazendo drama."

As luzes diminuíram e a música explodiu pela arena. O locutor anunciou a escalação inicial e eu vi o Crew entrar no gelo com os companheiros de time enquanto a torcida enlouquecia.

Peguei o celular e tirei uma foto rápida dele no gelo, depois postei no Instagram com uma legenda simples: "Adivinha onde eu tô hoje à noite" e coloquei um emoji de coração no final do texto.

Se a gente estava vendendo esse relacionamento, eu precisava vender de verdade. A Maya tinha dito: no mínimo três posts por semana.

Então, melhor começar agora.

"Esperta," disse Jessica, me observando. "Se adianta aos tabloides. Controla a própria narrativa."

"Esse é o plano."

...

Depois de alguns minutos de conversa fiada, o jogo finalmente começou e eu fiquei olhando o Crew se movimentar no gelo.

Ele era rápido, agressivo, daquele tipo de jogador que faz as coisas acontecerem. Eu conseguia entender por que o Joel odiava ele. O estilo de jogo deles era completamente diferente. O Joel era defensivo, cauteloso, jogava no seguro. O Crew arriscava.

"Você acompanha hóquei?" Jessica perguntou.

"Acompanho, sim. Vejo faz uns dez anos. Eu conheço bem o jogo."

Jessica pareceu surpresa.

"Sério? A maioria das meninas que aparece aqui ainda tá tentando entender o que é icing."

"Icing é quando você chuta o disco de trás da linha central até passar da linha de gol do outro time sem ninguém encostar nele," expliquei. "É uma tática pra atrasar o jogo. Eles marcam pra evitar que os times só fiquem despachando o disco lá pra frente quando estão cansados."

Ashley riu.

"Tá, ela definitivamente entende de hóquei."

"Meu ex jogava," falei simplesmente. "Eu aprendi."

Não especifiquei qual ex nem por qual time. Que ficassem curiosas.

O primeiro período foi físico.

O Colorado tava jogando sujo, com vários trancos e cortes escondidos que os juízes não estavam marcando. Vi o Crew levar uma cotovelada nas costelas que me fez até estremecer.

"Isso devia ter sido pênalti," murmurei.

"Né?" a Brittany disse. "Os juízes tão cegos hoje."

No meio do período, o Crew estava disputando o puck na borda do rinque quando um jogador do Colorado deu uma trombada nele.

Daquelas bem fortes.

Do tipo que faz o vidro tremer e ecoa pelo ginásio inteiro.

O Crew caiu e não levantou de imediato.

Eu já estava de pé antes mesmo de perceber.

— Vamos — murmurei. — Levanta.

Lá no gelo, o Crew começou a se erguer devagar. Um dos companheiros dele se aproximou patinando, mas o Crew o dispensou com a mão. Voltou a ficar de pé nos patins, mas eu vi o jeito como ele girou o ombro. O jeito como testou o peso na perna esquerda antes de patinar de novo.

— Aquela pancada foi alta — comentei, pra ninguém em específico. — Se ele tiver qualquer instabilidade no ombro por causa de lesão antiga, isso aí pode ter piorado.

O olhar da Jessica ficou em mim um pouco mais dessa vez, a cabeça inclinando de leve.

— Você consegue ver isso daqui de cima?

— Dá pra ver pelo jeito que ele tá se mexendo. Vê como ele mantém o braço esquerdo mais perto do corpo? Ele tá protegendo. Pode não ser nada, pode ser só um problema no manguito rotador. — Sentei de novo, com o coração ainda disparado.

— De qualquer jeito, ele provavelmente vai tentar jogar assim mesmo.

— Eles sempre tentam — a Ashley disse baixinho. — Idiotas teimosos.

O período terminou e o Crew patinou em direção ao vestiário. Ele olhou pra nossa seção quando saía e nossos olhos se encontraram. Fiz um leve aceno de cabeça e ele retribuiu.

— Ele foi ver se você tava bem — a Brittany falou. — Isso foi muito fofo da parte dele.

— É bom mesmo ele se preocupar comigo depois de levar uma trombada daquelas — respondi. — Vou ter perguntas pra fazer depois.

A Jessica riu.

— Ah, você vai se encaixar muito bem aqui.

....

Começou o segundo período e eu senti que estava entrando no jogo de verdade. Chamando as jogadas antes de acontecerem. E analisando as trocas de linha.

Em um momento, eu resmunguei:

— Eles precisam trocar a dupla de defesa — bem na hora em que o técnico fez exatamente isso.

— Tá, você é comentarista de hóquei escondida da gente? — a Ashley perguntou. — Porque você é assustadoramente boa nisso.

— Que nada, só torcedora — respondi, com um meio sorriso.

E aí, de repente, aconteceu num piscar de olhos.

Um dos companheiros do Crew passou o puck pra ele na linha azul e o Crew disparou. Driblou um defensor, puxou o taco pra trás e chutou. O puck foi no ângulo, bem embaixo do travessão. A sirene do gol tocou e a torcida veio abaixo.

Os companheiros de time cercaram o Crew, comemorando. E aí ele levantou a cabeça em direção à nossa seção… bem pra mim. E apontou.

Sem pensar duas vezes, mandei um beijo pra ele.

O telão pegou na hora. E, de repente, meu rosto estava na tela gigante… sorrindo, enquanto o ginásio enlouquecia.

Quando olhei de volta pro gelo, o Crew estava rindo.

— Meu Deus! — a Brittany gritou. — Foi perfeito!

— Você viu a cara dele? — a Ashley falou. — Ele com certeza não tava esperando por essa!

Até a Jessica estava sorrindo.

— Ok, retiro tudo que eu pensei antes. Vocês dois são realmente muito fofos juntos.

Meu celular vibrou no bolso. Peguei e vi uma mensagem da Maya.

Maya: Esse beijo acabou de viralizar. O Joel vai surtar. Mandou bem, garota.

Sorri e guardei o celular.

O segundo período acabou e os jogadores voltaram pros vestiários. Eu começava a achar que talvez fosse mesmo sobreviver a essa noite.

.....

No intervalo, a Jessica se inclinou pra perto de mim e disse:

— Então eu preciso perguntar. Você é a ex-namorada do Joel Hartley?

E por um segundo, pareceu que tudo ficou em silêncio… enquanto as quatro mulheres viravam pra olhar pra mim.

A questão é que… eu poderia ter negado facilmente. Poderia ter fingido que não sabia de nada.

Mas, em vez disso, olhei diretamente nos olhos da Jessica e disse:

— Sou, sim. Essa sou eu. O Joel e eu namoramos por dez anos. Ele terminou comigo há seis semanas porque o agente dele achou que ser solteiro ia ser melhor pra imagem dele. — Dei de ombros.

— No fim das contas, seguir em frente foi a melhor decisão que eu nunca tive a chance de tomar.

A boca da Ashley ficou aberta. A Brittany parecia indecisa entre ficar chocada ou impressionada. Enquanto a Jessica me analisava por um longo instante.

Aí ela sorriu.

— Bom, o Joel Hartley é um idiota.

— Foi o que o Crew disse — respondi.

— E o Crew tá certo. — A Jessica ergueu o copo. — Bem-vinda ao clube, Harper. Acho que você vai se sair muito bem.

Ergui meu próprio copo e brindei com o dela, mas minhas mãos tremiam de pânico.

Porque agora isso era real.

E aquelas mulheres sabiam quem eu era.

Elas sabiam que eu estava saindo com o maior rival do Joel. E, até amanhã, todo mundo no mundo do hóquei ia saber disso também.

A essa altura… não tinha mais volta.

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