Capítulo 7 Segredos obscuros que escondemos
Harper – Ponto de vista
No segundo em que a gente botou o pé pra fora, as câmeras simplesmente explodiram na nossa cara.
Flash atrás de flash atrás de flash, tão fortes que eu literalmente não conseguia ver nada além das manchas queimando na minha retina.
Vozes gritando umas por cima das outras, uma parede de som batendo em mim de todos os lados.
— CREW! AQUI!
— Quem é a garota?
— CREW, DECLARAÇÃO! AGORA!
Meus pés travaram, como se meu cérebro tivesse apertado o botão de pânico e desligado todos os sistemas, menos o que ficava berrando meu Deus meu Deus meu Deus.
Aí o braço do Crew se fechou em volta dos meus ombros e me puxou contra ele… forte, protetor e possessivo ao mesmo tempo.
— Não olha pra eles. — A voz dele veio bem no meu ouvido, baixa e firme. — Só anda comigo. Eu tô com você.
A gente tava quase chegando no carro dele quando algum babaca lá do fundo da multidão gritou:
— É verdade que você é a ex do Joel Hartley?
Todos os músculos do Crew ficaram rígidos.
As câmeras continuaram disparando, mas de repente ninguém mais falava, como se alguém tivesse apertado o mute do mundo inteiro.
Aí ele se virou, e o rosto dele não tinha nada a ver com o que eu tinha visto a noite toda. Frio e perigoso de um jeito que fez meu estômago despencar.
— Ela é MINHA namorada — ele disse, a voz saindo letal. — É só isso que vocês precisam saber sobre ela. Entenderam?
O silêncio que veio depois foi absoluto.
Ninguém teve coragem de fazer mais nenhuma porra de pergunta.
Quando a gente chegou no carro, o Crew praticamente me ergueu e me enfiou no banco do passageiro, batendo a porta em seguida. Ele entrou, ligou o motor e saiu dirigindo como se nada daquilo tivesse acontecido.
Fiquei olhando pela janela por alguns quarteirões, tentando fazer meu coração parar de martelar.
O silêncio dentro do carro parecia sufocante.
— Você não precisava ter feito aquilo — eu disse finalmente.
— Precisava, sim.
— Eles só tavam perguntando…
— Não. — As mãos dele apertaram o volante. — Você é minha pelos próximos três meses. Ninguém tem o direito de desrespeitar você.
Lá estava de novo. Minha. Essa palavra fazia meu corpo inteiro formigar toda vez que ele dizia.
— Mas a gente é de mentira — falei baixo. — Isso tudo é de mentira.
O Crew não respondeu. Só continuou dirigindo, o maxilar travado.
Aí ele abaixou a mão pra mexer em alguma coisa no console e fez uma careta, soltando um daqueles suspiros curtos de dor que ele tentou disfarçar.
— Você tá bem?
— Tô. Só travado por causa do jogo.
Mas o jeito como ele segurava o próprio corpo dizia outra coisa.
A gente pegou um sinal vermelho e eu olhei pra baixo, pro console central, procurando meu celular.
E eis que…
Eu não tava acreditando no que tava vendo.
Um frasco de remédio, meio escondido embaixo de uma jaqueta dobrada. Plástico laranja, rótulo branco. Mesmo com a luz fraca do painel, dava pra ler.
“Oxycodone. 10mg”.
Meu estômago despencou até o chão.
Sou fisioterapeuta, então eu com certeza sei o que é isso.
E sei muito bem o que significa quando um atleta profissional tem um frasco de opioide largado, solto, no carro.
— Harper… — o Crew começou a dizer alguma coisa, mas eu já tava pegando o frasco.
— Que que é isso?
O corpo dele inteiro ficou imóvel. — Não mexe.
— Que que é isso, Crew? — Eu levantei o frasco e as pílulas chacoalharam lá dentro. A data no rótulo era de três meses atrás.
— Isso aqui já era pra estar vazio, ou pelo menos ter sido reabastecido. Então por que que tá jogado no seu carro?
O sinal ficou verde, mas ele não se mexeu. Só arrancou quando os carros atrás começaram a buzinar.
— Isso não é da sua conta — ele disse, a voz plana.
— É da minha conta, sim. — Eu me virei no banco pra encarar ele. — Eu sei exatamente o que é isso. Eu sei como é controlar dor e sei como é esconder um vício.
— Você não sabe de nada.
— Então diz que eu tô errada. — Minhas mãos tavam trêmulas.
— Diz que você tá tomando isso exatamente como foi receitado. Diz que você não precisa disso pra aguentar os jogos.
— Deixa isso pra lá, Harper.
— Não. — Apertei o frasco com mais força. — Você ficou lá na frente daqueles fotógrafos dizendo que eu era sua. Então se eu sou sua, você também é meu. E eu não deixo gente de quem eu gosto se destruir.
As mãos dele apertaram o volante com tanta força que eu achei que fosse quebrar. — Você não gosta de mim. Isso é falso, lembra? Foi você que falou.
— Bem, aquele beijo não pareceu falso.
As palavras saíram antes que eu pudesse segurar, e o carro deu uma leve guinada antes de ele corrigir.
— O quê?
"No ginásio." Meu coração estava disparado.
"Quando você me beijou na frente de todo mundo. Aquilo não pareceu atuação."
"Foi pros fotógrafos."
"Foi mesmo?" Virei o frasco nas mãos. "Porque eu acho que você tá escondendo mais do que só remédio."
Ele fingiu que não tinha ouvido o que eu disse e continuou dirigindo, o maxilar travado e os olhos fixos na estrada.
"Quão ruim é?" perguntei baixo. "A dor, quero dizer."
"Controlável."
"Isso não é resposta."
"É a única que eu vou te dar."
Coloquei o frasco de volta onde tinha encontrado.
"Tá. Você não precisa me contar. Mas eu não vou a lugar nenhum. Então, quando você estiver pronto pra me contar a verdade, eu vou estar aqui."
A garganta dele trabalhou como se ele estivesse tentando engolir algo pontudo. "Mesmo se for de mentira?"
"Eu acho que já não é de mentira faz um tempo," eu disse. "Você não acha?"
Ele não respondeu. Mas a mão dele veio por cima do console e encontrou a minha.
…
Quando a gente parou em frente ao prédio da Maya, o Crew não soltou a minha mão.
"Eu devia te acompanhar até lá em cima."
"Alguém pode estar vendo?"
"Não." Ele finalmente olhou pra mim, de verdade. "Porque eu não quero te deixar ir ainda."
Minha respiração travou.
"Aquele beijo no ginásio," ele disse, o polegar roçando nos meus dedos. "Você tinha razão. Não foi de mentira. Eu quis te beijar." Ele falou, soltando o ar devagar.
"A verdade é que eu quis desde o momento em que você entrou naquela sala de reunião."
"Crew…"
"Eu sou um desastre, Harper." A voz dele saiu áspera.
"Eu sinto dor todo dia. Tomo remédio pra conseguir funcionar. É um segredo que eu escondi de todo mundo. E eu sei que isso faz de mim uma aposta péssima."
"Você não é uma aposta," eu disse. "Você é uma pessoa."
"Uma pessoa quebrada."
"Todo mundo é quebrado." Apertei a mão dele.
"A pergunta é se você vai deixar alguém te ajudar."
Ele me olhou por um longo momento, lutando com ele mesmo.
"Eu vou pensar," ele disse enfim.
Não era um sim. Mas também não era um não.
Ele se inclinou por cima do console e beijou minha testa, um beijo suave e de partir o coração.
Depois soltou minha mão e eu desci do carro, ficando ali parada, olhando ele ir embora com aquele frasco de remédios chacoalhando no console.
Eu sentia como se tivesse acabado de ver alguém se afogando me dizer que estava bem.
…
Entrei no prédio e deixei minhas chaves caírem duas vezes antes de conseguir chegar na porta da Maya. Me escorreguei contra a porta e deslizei até o chão, pressionando as palmas das mãos contra os olhos.
O Crew estava encrencado. Encrenca séria. E eu estava me apaixonando por ele mesmo assim.
Quando entrei, senti meu celular vibrar com uma mensagem.
Desconhecido: Eu te vi no jogo. A gente precisa conversar. Me desculpa, Harp. Por tudo. Por favor.
Fiquei encarando a mensagem, o polegar pairando sobre o botão de apagar.
Antes que eu conseguisse decidir, bateram na porta.
Três batidas secas que me fizeram pular.
A Maya não estava em casa. Ninguém mais sabia que eu estava aqui, a não ser…
Outra batida, mais insistente.
"Harper?" Uma voz abafada veio do outro lado da porta. Uma voz masculina. E parecia familiar.
"Harper, eu sei que você tá aí. Eu vi você entrando. Por favor. Só cinco minutos."
Não.
Apoiei o olho no olho mágico e meu mundo inteiro virou de cabeça pra baixo.
Joel Hartley estava parado no corredor da Maya, ainda com o terno de dia de jogo, o cabelo desgrenhado, os olhos vermelhos e desesperados.
Ele tinha me seguido até aqui.
Ou talvez ele sempre soubesse. A Maya era meu contato de emergência há dez anos. O endereço dela estava em todos os formulários que eu já tinha preenchido. Claro que ele sabia onde me encontrar.
"Harper, por favor." A voz dele falhou. "Eu sei que não mereço. Mas eu tô implorando. Só abre a porta."
Ele encostou a testa na porta.
"Eu cometi um erro," ele disse baixinho. "O maior erro da minha vida. E eu não aguento mais te ver com ele. Eu não posso casar com a Brianna sabendo que ainda tô apaixonado por você."
Minha mão já estava na maçaneta antes que eu pudesse me impedir.
Isso era uma loucura.
Exatamente o que eu não precisava depois da noite que eu tinha acabado de ter.
Mas minha mão já estava girando a maçaneta. Porque dez anos não desaparecem só porque você quer.
A porta se abriu e a cabeça do Joel se ergueu num sobressalto.
"Harper," ele sussurrou.
"Você tem cinco minutos," eu disse, com a voz bem mais firme do que eu me sentia.
"Depois você vai embora e não
volta. Nunca mais."
Ele assentiu rápido. "Cinco minutos. É tudo que eu preciso. Obrigado."
Eu dei um passo pro lado e deixei ele entrar.
