Heitor Casanova II
- Obrigada, Anon... Você é muito gentil. - Eu zombei.
Entrei rapidamente no banheiro e corri para o vaso sanitário, esvaziando minha bexiga lentamente e sentindo minha ansiedade se dissipar completamente.
Entre as coisas que me deixavam impaciente, querer fazer xixi era uma delas. E eu era uma pessoa que fazia muito xixi. Até achava que era anormal, mas o médico explicou que era bom, porque eu bebia muita água.
Então ser uma mijona não tinha nada a ver com endometriose.
Ah, endometriose... Por que eu não fiquei em casa pensando em você? O que estou fazendo neste lugar que não tem nada a ver comigo? Acabei de levar um tapa na cara aqui... E minha estadia foi curta.
Ouvi uma batida na porta:
- Você ainda está aí, Sra. Bongiove?
Abri a porta e comecei a rir na frente de Anon. Abracei-o de modo que minha cabeça ficasse abaixo do seu peito.
- Não ouvia algo tão fofo há muito tempo!
Ele me afastou e me olhou, confuso, arqueando uma sobrancelha.
-
Bem, meu nome não é Sra. Bongiove... Porque esse é o sobrenome do meu ídolo... No caso, sobrenome real. Seu chefe, o desqualificado, usou isso ironicamente, sabe?
-
Não. - Ele disse seriamente.
Lavei minhas mãos enquanto ele me observava. Então, entrelacei meu braço no dele:
-
Vamos, Ann. Me conta, de onde vem esse nome? Nunca ouvi na vida... É diferente.
-
Não sou pago para conversar, Sra. Bongiove.
Eu ri:
-
Ok... Mas não custa explicar. Afinal, você nunca mais vai me ver na vida. E eu fiquei realmente curiosa.
-
É de origem tailandesa. Mas minha família não é de lá.
-
Você sabe o que significa?
-
Felicidade.
-
Que diferente. Onde sua mãe arranjou isso?
-
De um filme.
-
Eu pensei que fosse de origem viking. Ou algum tipo de deus... Algo assim.
Ele não disse nada. Descemos uma escada e ele abriu uma porta de emergência, onde eu tinha uma vista da rua fora do clube.
Suspirei:
-
Foi tão difícil entrar aqui... E tão rápido para sair. Sou uma azarada desastrada, essa é a verdade. Caí bem onde estavam Heitor Casanova e a esposa dele.
-
Adeus, Sra. Bongiove. - Ele disse, fechando a porta.
-
É Novaes... - Eu disse para mim mesma, já que Anon não estava mais lá.
Sentei no meio-fio. Precisava colocar meus pensamentos em ordem. Salma estava trabalhando e eu não queria estragar a transa do Ben, sabendo que ele também não fazia sexo há um tempo.
Peguei meu celular e mandei uma mensagem no grupo que tínhamos em comum:
“Amor, fiquei um pouco bêbada e vou chamar um motorista de aplicativo e dormir na casa da minha avó. Tenham uma noite maravilhosa.”
Chamei o motorista e fui direto para a fazenda, que era longe.
Depois de quarenta minutos, chegamos à estrada de terra. E assim seguiríamos por mais vinte minutos.
A área de terra da minha avó era cercada por madeira branca, as horizontais apoiadas nas verticais, deixando espaços, de onde se podia ver absolutamente tudo. Abri o portão de madeira e fiz o motorista seguir o caminho dentro da propriedade, até chegar à casa.
Apertei a campainha. Usar a chave e subir até o quarto dela para pedir dinheiro para pagar a corrida a assustaria.
Não demorou muito para ela descer. Ficou surpresa ao me ver.
-
Boa noite, vó... Desculpa chegar a essa hora... Mas... Você poderia pagar o motorista e depois explico?
-
Claro... - Ela voltou para dentro da casa e pagou o homem em dinheiro.
Entrei e ela fechou a porta. A lareira ainda tinha brasas terminando de queimar. Mandy estava usando um roupão felpudo. Ela pegou um cobertor do sofá e o colocou sobre mim.
-
Está frio para você estar praticamente nua, menina.
-
Saí com o Ben e a Salma... E acabei ficando entediada. Não queria atrapalhar a noite deles e pensei em dormir aqui. Pode ser?
-
Claro, querida. Venha...
Ela colocou o braço ao redor dos meus ombros e me conduziu até o quarto.
-
Quer conversar?
-
Não estou cansada. Mas prometo passar o dia aqui amanhã.
-
Estou tão feliz que você está aqui... Mesmo chegando na minha casa de madrugada e quase me matando do coração. - Riu.
Ela me beijou na testa e fechou a porta. Deitei na minha cama, com sapatos e tudo. Ainda havia alguns pôsteres do Bon Jovi e da banda colados na parede, o que me lembrava do tempo que passei ali... E também trazia Jardel à minha mente. Eu não gostava de pensar nele. Me lembrava de uma época em que eu era submissa e perdoava tudo. Ainda estava tentando esquecer aquela Bárbara.
Lembrei do segurança Anon me chamando de Sra. Bongiove e comecei a rir. Como uma pessoa podia não ter ideia de quem era Bon Jovi? Será que ele estava trabalhando recentemente para o Heitor Casanova?
O certo é que ele era o homem de confiança, ou não teria sido chamado pela esposa dele.
Lembrei do olhar de Heitor Casanova sobre mim e senti raiva. Que homem arrogante. Foi apenas um engano... Eu nunca me esgueiraria ali para ver alguém fazendo sexo oral nele no meio do corredor. Não dava para perceber que eu estava bêbada e perdida?
Fechei os olhos e adormeci rapidamente.
Quando acordei, já passava das onze horas. Tomei um banho e vesti roupas que ainda tinha no meu armário, de quando era jovem. Deveria estar feliz por conseguir entrar em uma roupa de anos atrás. Elas estavam ali apenas para emergências como aquela. E como eu usava tanto a "emergência", já tinha levado quase tudo para o meu apartamento.
Assim que desci, minha avó estava me esperando com café servido, bolos, pães, geleias caseiras e tudo a que eu tinha direito.
Ela sempre foi assim: tentava me engordar.
Parecia que eu não comia há séculos. Na verdade, eu sabia que quase nada podia se comparar à comida dela, ou ao café da manhã... Muito menos à maneira como ela me tratava: com carinho.
Ainda não entendia como ela conseguia ficar longe por tanto tempo, quando o amor que sentia por mim era visível. Perguntei inúmeras vezes sobre meu pai e o passado da minha mãe e nunca consegui arrancar uma palavra dela. Houve um tempo em que acreditei que ela realmente não sabia de nada.
Mas o tempo passou e eu me tornei uma mulher. E sabia que ela provavelmente estava mentindo. E não tinha certeza se queria saber a verdade. De que adiantava criar expectativas sobre meu pai se ele sabia de mim e nunca me procurou? Se um dia eu o encontrasse, não o perdoaria. Foram vinte e sete anos de rejeição e esquecimento. E nada poderia apagar isso.
Contei a Mandy sobre a visita ao ginecologista e ela foi muito tranquilizadora. Também me disse que, enquanto minha mãe morava com ela, não tinha endometriose. Expliquei como era difícil conseguir um emprego. Então ela me ofereceu dinheiro, que recusei. Minha faculdade já tinha sido paga por ela. Então, o mínimo que eu deveria fazer, por obrigação, era conseguir um emprego decente na minha área. E mostrar que ela me deu as ferramentas e eu sabia como trabalhar.
No final da tarde, fui embora, deixando meu vestido da noite anterior guardado lá para futuras emergências como a da noite passada.
Desta vez, chamei um táxi e fui para a praça central. Passei pelo posto de gasolina onde conheci Jardel e desci ali. Ainda desejava que aquele dia não tivesse acontecido. Mas havia uma coisa pela qual eu era grata. E precisava encerrar aquele ciclo.
Caminhei pela rua estreita de casas antigas. Abri o velho portão de ferro e bati na porta de madeira com painéis e paredes desbotadas de cor rosa.
A porta se abriu e lá estava ela:
- Bárbara? - Ela disse, surpresa, com os olhos cheios de lágrimas.
