O FIM DE UM CICLO DE QUASE DEZ ANOS II

  • Eu sempre vou te manter em minhas orações, Bárbara. E mais uma vez, obrigado.

Acenei e fui embora, fechando o portão, que certamente nunca mais abriria novamente. Era o fim de um ciclo de quase dez anos.

Respirei fundo, até sentir meus pulmões cheios e a respiração voltando ao normal. Eu não queria ver Jardel novamente... Nem mesmo em fotos. As minhas eu já tinha queimado todas e deletado o que restava do meu celular.

E foi assim que coloquei um ponto final no meu relacionamento de oito anos com Jardel, meu primeiro e único amor e ao mesmo tempo o homem que terminou comigo, que me quebrou em mil pedaços e que eu pensei que nunca conseguiria juntar novamente, porque eu não acreditava em peças coladas. Oito anos ruins se passaram, e dois anos foram de luto por mim mesma. Mas a vida ainda continuava.

E eu não precisava de um homem para ser feliz, como todos me diziam. Eu só precisava de um bom emprego para poder fazer as coisas que gostava: passear, ver o mar, viajar para outros países, experimentar novas comidas e fazer coisas diferentes. Eu precisava começar minha aventura. E ela não precisava de parceria. Eu podia ser feliz sozinha.

Chamei o motorista do aplicativo no meu celular e esperei na praça por mais de vinte minutos até que alguém aparecesse para me levar de volta à capital de North Noriah.

Assim que estava no banco de trás do carro, peguei o telefone novamente para ver se havia alguma mensagem de Ben ou Salma. Mas nada...

  • Como você acabou aqui, tão longe? – Perguntou o motorista para mim.

Olhei para ele no retrovisor, observando o rosto limpo e bem barbeado com os olhos claros. Seu cabelo bem cortado era loiro e encaracolado. Ele não era estranho para mim.

  • Eu... Eu vim visitar um parente. - Disse secamente, sem querer falar sobre mim.

  • Você não se lembra de mim, não é? Ele riu, olhando para mim no espelho.

  • Não... - Eu disse, confusa, tentando reviver a memória.

  • Eu te servi três chopes na noite passada: chocolate com pimenta, cereja e menta.

Eu ri:

  • Lembrei de você... O barman que me avisou que eu ficaria bêbada.

  • Aliás, não te vi dançando nua no chão. – Ele brincou.

  • Antes eu tivesse feito isso. Minha noite foi ruim. - Coloquei o telefone na bolsa.

  • Não gostou da Babilônia? Isso não é comum.

  • Bem... Ainda estou tentando entender como você lembra da ordem das minhas bebidas – arqueei uma sobrancelha – Que tal me passar um pouco da sua boa memória?

  • Eu não costumo lembrar da bebida de todo mundo... Só das mais importantes.

  • E eu não costumo cair em cantadas assim. – Fui sincera, deixando claro que não cairia no jogo de sedução dele.

  • Se eu disser que não costumo usar isso para conquistar alguém, você acreditaria? – Ele sorriu docemente, mostrando dentes brancos e alinhados, combinando com seus lábios bem cheios.

  • Vou tentar acreditar que você tem uma boa memória, ponto.

  • E eu realmente tenho, não vou negar. Mas ainda me pergunto como você chegou tão longe em tão pouco tempo.

  • Vim visitar minha avó... Longa história. Mas estou preocupada em te encontrar como meu motorista... Será que você dormiu ou veio direto para o seu outro trabalho? Minha vida está em risco... Tipo, se você dormir ao volante?

Ele riu:

  • Sou responsável. Cheguei em casa às sete da manhã. Dormi até às cinco. Fiz a primeira corrida para a cidade vizinha. Depois você chamou. Se eu tiver sorte, não saio da capital pelo resto da noite.

  • Então hoje você não vai ser barman? Só motorista de app?

  • Off... Um sábado na vida, outro na morte. Posso dizer que você teve muita sorte de me ter como seu motorista nesta tarde, senhorita. – Riu.

  • Putz – zombei – Dois empregos. Devem pagar mal pra caramba os funcionários da Babilônia.

  • A vida não é fácil. Para ter algo, você tem que abrir mão de algumas coisas. Nesse caso, abro mão do lazer. Meu objetivo é juntar dinheiro.

  • Para... - Fiquei curiosa.

  • Quero ir para o Sul de Noriah.

Arqueei uma sobrancelha surpresa.

  • Geralmente é o contrário. Pessoas do Sul de Noriah querem vir para o Norte de Noriah... Devido às melhores oportunidades de emprego.

  • Sim... Mas eu tenho um motivo para querer ir.

  • Amor?

  • Amor. - Ele confirmou, franzindo a testa.

Suspirei:

  • Ok, você está perdoado se esse for o motivo... Qual é o seu nome mesmo?

  • Na verdade, eu ainda não disse. Ele me olhou de relance.

  • Eu sou Bárbara. Mas você pode me chamar de Babi.

  • Eu sou Daniel, mas você pode me chamar de Dani, caso me encontre em outra corrida ou na Babilônia, quando pedir uma cerveja. Ou até mesmo em uma praça, em outro bar... Na sua casa.

Revirei os olhos:

  • Não sei se vou voltar lá... Na verdade, a possibilidade de eu voltar é quase zero.

  • Uau, deve ter odiado mesmo.

  • O lugar não... As pessoas sim.

  • Pessoas ricas nem sempre são legais.

  • E o que te faz pensar que eu não sou? Tem pobre escrito na minha testa? - Ri, certa da resposta dele.

  • Desculpe se te ofendi. Não foi minha intenção... Mulher rica que usa carro de app pagando com cartão de crédito. Ele se segurou para não rir enquanto falava.

  • Tudo bem, estou brincando. Eu quebrei... Tenho uma amiga que trabalha lá.

  • Hmm... Entrada de serviço?

  • Sim.

  • Todos nós já fizemos isso. - Ele riu.

  • Eu... Acho que posso ter tido problemas com o dono da Babilônia e a esposa dele.

  • Esposa? – ele franziu a testa – Você está falando do Heitor Casanova?

  • Sim, acho que sim. O homem que está nas fotos por toda a parede gigantesca com as pessoas famosas que já foram à Babilônia.

  • Ele não é casado. Está noivo.

  • Ok, tanto faz. Honestamente, não gostei da noiva dele, a loira oxigenada. Sei que ela dança muito bem, mas ela é uma...

  • A noiva dele não é loira. É morena. E ela não dança.

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