Capítulo 2: Bem-vindo ao inferno

POV da Crema

Chega.

A palavra veio tarde demais.

— Chega, Janine! Você está assustando a minha filha!

A voz do meu pai cortou o ambiente como uma lâmina.

Os gritos pararam.

Por um segundo, tudo congelou.

Então meu pai entrou a passos duros no camarim.

O rosto dele estava mais sombrio do que eu já tinha visto.

Sem hesitar, ele agarrou Janine pelo braço e a puxou para longe de mim.

Ela perdeu o equilíbrio e caiu com força no chão.

— Tio! — Janine gritou. — Por favor! O que você vai fazer comigo?

A voz dela estava cheia de medo.

Mas também de raiva.

Uma raiva que vinha crescendo havia anos.

Meu pai olhou para ela com frieza.

— Nós pedimos uma coisa só, Janine.

A voz dele estava calma.

De algum jeito, isso tornava tudo pior.

— Nós aguentamos muito mais do que devíamos depois de tudo o que você fez com a nossa filha.

Minha mãe se aproximou de mim em silêncio.

A mão dela pousou no meu ombro.

Firme.

Protetora.

Eu conseguia sentir o quanto ela estava tensa, mesmo tentando não demonstrar.

Janine se levantou devagar.

Os olhos dela queimavam de ódio.

Não era ciúme.

Não era frustração.

Era ódio.

Aquela visão me deu um arrepio estranho.

— Só porque a Crema é a sua filha, vocês estão fazendo isso comigo? — ela berrou.

Ninguém respondeu.

Isso só a deixou ainda mais furiosa.

— Eu juro pelo túmulo da minha mãe: todos vocês vão se arrepender disso!

O quarto ficou em silêncio.

As palavras dela ecoaram nas paredes.

Meu pai a arrastou em direção à porta.

E mesmo assim ela continuou gritando.

Continuou xingando.

E cada palavra soava menos como raiva e mais como uma promessa.

Uma promessa de que aquilo não tinha acabado.

Nem de longe.

A porta finalmente se fechou atrás dela.

Mas o silêncio que ela deixou pareceu pior.

Eu fiquei ali, sem conseguir me mexer.

Meu peito apertou.

Por quê?

Por que ela me odiava tanto?

O que foi que eu fiz para ela?

Nenhuma resposta veio.

Só aquela sensação incômoda, ficando cada vez mais pesada dentro de mim.

A família chegou ao palácio mais tarde do que o previsto.

Por fora, tudo voltou ao normal.

Dentro de mim, nada parecia normal.

O rosto de Janine se recusava a sair da minha cabeça.

E as palavras dela também.

No instante em que entrei no salão, dezenas de olhares se voltaram para mim.

O grande salão brilhava sob as luzes.

As pessoas sorriam.

Cochichavam.

Admiravam.

— Ela é linda.

— Olha só ela.

— Não é à toa que adiantaram o casamento.

— Quem é que deixaria uma mulher dessas escapar?

Os elogios deveriam ter me deixado feliz.

Em vez disso, me deixaram nervosa.

Cada sorriso parecia mais uma expectativa pesando nos meus ombros.

E se eu decepcionasse todo mundo?

E se eu não fosse a princesa que eles imaginavam?

Baixei os olhos e me obriguei a continuar andando.

Sorria.

Respira.

Não tropeça.

Não passa vergonha.

Era só nisso que eu conseguia pensar.

Então meus pais finalmente colocaram a minha mão na do príncipe Giovan.

O salão sumiu.

Os aplausos desapareceram.

As vozes se apagaram.

Porque a primeira coisa que ele me disse foi:

— Bem-vinda ao inferno.

Meu coração parou.

Por um segundo, eu pensei que tivesse entendido errado.

Mas quando eu encarei os olhos dele, eu soube que não.

Não havia calor ali.

Nenhuma empolgação.

Nenhuma felicidade.

Só frieza.

Daquelas que atravessavam direto o meu peito.

Cada sonho que eu tinha sobre esse casamento rachou um pouco.

Esse era mesmo o meu futuro?

Esse era mesmo o homem com quem eu ia me casar?

Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, a cerimônia continuou.

Os sorrisos permaneceram.

Os convidados seguiram comemorando.

Mas, de repente, eu me senti completamente sozinha.

Um arrepio percorreu meu corpo.

No que foi que eu acabei de me meter?

“Não consegue achar palavras?” Giovan disse baixinho ao meu lado.

O aperto dele na minha mão se intensificou.

Não o bastante para doer.

Só o suficiente para me lembrar que eu não podia me afastar.

“Eu disse: bem-vinda ao inferno.”

A voz dele estava baixa.

Fria.

Segura.

“Você vai se arrepender de ter concordado com esse casamento.”

Minha garganta secou.

A música tocava.

As pessoas sorriam.

Ninguém percebeu o que ele estava dizendo.

Ninguém percebeu o medo se espalhando devagar dentro de mim.

Sem dizer mais nada, ele começou a me conduzir para a frente.

Eu o segui porque não tinha escolha.

Porque os votos já tinham sido feitos.

Porque todo mundo estava olhando.

Porque eu pertencia a ele agora.

A comemoração continuava ao nosso redor.

Risos.

Música.

Parabéns.

Um casamento real perfeito.

Pelo menos por fora.

Por dentro, o medo pesava no meu peito.

Logo meus pais iriam embora.

Logo eu ficaria sozinha com o homem que me olhava como se eu fosse um fardo que ele nunca quis.

E a pior parte?

Eu estava começando a perceber que Giovan não estava tentando me assustar.

Ele queria dizer cada palavra.

“O que foi, minha querida?”

Mamãe segurou meu rosto com carinho.

Os olhos dela já brilhavam de lágrimas.

“Agora a gente precisa ir.”

A voz dela tremeu.

“Mas vamos continuar rezando por você.”

Um beijo pousou de leve na minha bochecha.

Aquele calor familiar quase me desfez.

Papai ficou ao lado dela, tentando se manter firme, mas eu também via a tristeza nos olhos dele.

Pela primeira vez desde que eu cheguei ao palácio, a realidade me atingiu de verdade.

Eles estavam indo embora.

E estavam me deixando aqui.

Minha garganta apertou.

Eu me obriguei a sorrir.

Eu não queria que eles levassem o meu medo para casa.

“Eu vou ficar bem”, sussurrei.

As palavras soaram fracas até para mim.

Mamãe me abraçou uma última vez.

Então os dois se viraram e foram embora.

Eu olhei até eles sumirem de vista.

No segundo em que se foram, meus olhos se encheram de lágrimas.

Eu as enxuguei depressa.

Vieram mais.

Por mais que eu tentasse, elas não paravam.

De repente, eu me senti muito pequena.

Muito sozinha.

“Senhora, por aqui, por favor.”

A voz de um funcionário interrompeu meus pensamentos.

Eu abaixei a cabeça rapidamente e limpei o rosto.

Uma jovem criada estava perto da porta.

Profissional.

Educada.

À espera.

Eu assenti e a segui escada acima.

Se ela percebeu que eu tinha chorado, foi gentil o bastante para não comentar.

Enquanto atravessávamos o palácio, ela me explicou onde ficava tudo.

A sala de estar.

O quarto de vestir.

O banheiro.

O guarda-roupa.

O quarto era lindo.

Muito mais lindo do que qualquer coisa que eu já tivesse imaginado.

Mesmo assim, não parecia meu.

Nada ali me pertencia.

Nem os móveis.

Nem as decorações.

Nem as roupas.

Tudo já tinha sido preparado por ordem do rei.

A única coisa que eu tinha trazido de casa era o meu vestido de noiva.

E até isso, de repente, parecia não ter sentido.

— O senhor pediu que a senhora permaneça no seu quarto até ele voltar — disse a criada.

— Se precisar de qualquer coisa, é só me avisar. Eu trago suas refeições e o que mais a senhora quiser.

Assenti com educação.

— Obrigada.

Ela sorriu.

— Tenha uma boa noite, madame.

Ela já estava quase na porta quando eu a interrompi.

— Espere.

Ela se virou.

— A senhora sabe para onde o príncipe Giovan foi?

Algo passou pelo rosto dela.

Tão rápido que eu quase não percebi.

— Desculpe, madame.

O sorriso dela continuou perfeitamente profissional.

— Não me cabe saber aonde o meu patrão vai.

Antes que eu pudesse perguntar mais alguma coisa, ela pediu licença e saiu.

A porta fez um clique ao se fechar atrás dela.

O quarto pareceu, de repente, muito maior.

E muito mais silencioso.

Tranquei a porta.

Então me encostei nela.

Devagar.

Soltando o ar.

Era esse o inferno de que Giovan tinha falado?

Porque, se era, eu já começava a senti-lo.

Não pela crueldade.

Não por castigo.

Mas pela solidão.

Os sonhos que eu tinha sobre o casamento agora pareciam bobos.

Eu tinha imaginado amizade.

Companheirismo.

Talvez até amor.

Em vez disso, meu marido me recebeu com um aviso.

Bem-vinda ao inferno.

As palavras não saíam da minha cabeça.

Talvez ele nunca tivesse querido esse casamento.

Talvez só estivesse obedecendo às ordens do pai.

Talvez, toda vez que ele olhasse para mim, enxergasse alguém ocupando o lugar da mulher que ele realmente queria.

Janine.

A ideia doeu mais do que eu queria admitir.

Apertei uma mão contra o peito.

Não adiantava ficar pensando nisso.

Acontecesse o que acontecesse agora, eu teria que enfrentar sozinha.

Ninguém podia fazer isso por mim.

Por fim, me obriguei a ir até o banheiro.

O vestido de noiva de repente pareceu pesado demais.

Apertado demais.

Demais.

Eu precisava respirar.

A água morna ajudou.

Pelo menos um pouco.

Mas, quando fiquei diante do espelho depois, enrolada num roupão macio, as dúvidas voltaram.

Examinei meu reflexo.

Eu era mesmo tão difícil de gostar?

Tão fácil de rejeitar?

Meu rosto esquentou de vergonha.

Eu não sabia quase nada sobre ser esposa.

Mamãe sempre dizia que eu aprenderia depois do casamento.

Que tudo viria naturalmente.

Mas, parada ali, sozinha no quarto de um desconhecido, eu já não tinha tanta certeza.

Pela primeira vez, senti medo do futuro.

Não por causa do que eu sabia.

Mas por causa de tudo o que eu não sabia.

Tentando me distrair, abri o guarda-roupa.

Fileiras de vestidos me receberam.

Lindos.

Elegantes.

Caros.

Ainda assim, nenhum deles parecia familiar.

Nenhum deles parecia casa.

Estendi a mão para pegar um.

Então congelei.

A porta do quarto se abriu.

Meu coração disparou.

Me virei tarde demais.

Braços fortes de repente me envolveram por trás.

Meu corpo inteiro ficou rígido.

Um suspiro escapou dos meus lábios.

O calor de outra pessoa pressionou contra as minhas costas.

Perto.

Perto demais.

Por um segundo aterrorizante, eu esqueci como se respirava.

“Giovan...”

Minha voz mal saiu.

“Eu não sabia que você voltaria tão cedo.”

Engoli em seco.

“A empregada disse...”

“Shh.”

Aquela única palavra me interrompeu.

Não foi alta.

Nem ríspida.

Só o suficiente para calar todo o resto.

Meu pulso martelava nos ouvidos.

Eu sentia a presença dele atrás de mim.

Sentia a tensão.

A distância que ele tinha criado o dia inteiro, de repente, desaparecida.

E, de algum jeito, isso me assustou ainda mais.

Eu me virei depressa.

Precisando de espaço.

Precisando de ar.

Precisando entender.

“Eu... eu devia me vestir primeiro.”

As palavras saíram de uma vez.

Desajeitadas.

Nervosas.

Sinceras.

Por um instante, Giovan apenas me olhou.

Então, ele deixou escapar uma risada baixa.

Não era calorosa.

Nem debochada.

Era algo muito mais difícil de entender.

E, pela primeira vez desde que cheguei ao palácio, eu percebi que não tinha certeza de qual versão de Giovan me assustava mais.

O príncipe frio que me deu as boas-vindas ao inferno.

Ou o homem parado na minha frente agora.

“Você está fazendo charme”, ele murmurou.

Antes que eu pudesse reagir, ele me puxou de volta contra o corpo dele.

Meu fôlego falhou.

O calor dele me envolveu, tornando impossível ignorar o quanto ele estava perto.

Perto demais.

Perto demais mesmo.

Meu coração disparou.

Não porque eu entendia o que estava acontecendo.

Mas porque eu não entendia.

Horas atrás, ele tinha me olhado como se casar comigo fosse a pior coisa que já tinha acontecido com ele.

Agora ele me segurava como se não conseguisse decidir entre me afastar ou me puxar ainda mais para perto.

“Giovan...”

O nome dele mal escapou dos meus lábios.

Uma risada baixa vibrou no peito dele.

“Você parece apavorada.”

Engoli em seco.

Porque ele não estava totalmente errado.

“Eu não entendo você.”

As palavras escaparam antes que eu conseguisse segurá-las.

Por um momento, o silêncio tomou o quarto.

Os braços dele afrouxaram um pouco.

Só o bastante para eu me virar.

Nossos olhares se encontraram.

O ar entre nós parecia carregado.

Perigoso.

A expressão dele ficou indecifrável.

“É porque você continua olhando pra mim como se eu fosse o vilão da sua história.”

“E você não é?”

A pergunta surpreendeu nós dois.

Algo passou pelo rosto dele.

Sumiu quase na mesma hora.

Então ele se aproximou de novo.

Sem tocar.

Ainda não.

Mas perto o bastante para eu sentir a tensão entre nós.

“Talvez você devesse parar de acreditar em tudo o que acha que sabe.”

Meu pulso acelerou.

Nada nisso parecia simples.

Nada nele parecia simples.

O palácio.

O casamento.

Os avisos dele.

A frieza.

As contradições.

Tudo parecia um quebra-cabeça que eu não devia montar.

E, mesmo assim, eu não conseguia parar de tentar.

“Então me diga a verdade.”

A mandíbula dele se contraiu.

Por um segundo, eu achei que ele fosse.

Achei que as muralhas finalmente cairiam.

Em vez disso, o olhar dele suavizou de um jeito que me assustou mais do que a frieza dele jamais tinha assustado.

Porque, por baixo de toda a raiva...

havia dor.

Dor de verdade.

Daquelas que vêm de feridas antigas.

Daquelas que nunca cicatrizam de verdade.

E, de repente, eu já não tinha certeza de qual de nós dois deveria estar com medo.

Eu.

Ou o homem que claramente não me queria perto o bastante para ver o que ele escondia por trás das próprias muralhas.

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