Capítulo 6: Conhecendo o lugar dela
O rei Dior não respondeu à alegação de Janine de que tinha vindo ao palácio por motivos alheios a Giovan.
— Você deveria ter sido mais esperta antes do casamento do meu filho — disse ele. — Acho que você não quer continuar se fazendo sofrer por causa dele.
Janine examinou o rosto dele.
Ele sabia do passado dos dois. E, ainda assim, a nomeara como assistente de Crema e concordara que ela poderia participar da reunião dos líderes.
Ele estava advertindo-a para se afastar de Giovan ou dizendo que ela o abordara da maneira errada?
Janine queria que a segunda explicação fosse a verdadeira.
— Majestade, por favor, me ajude a entender.
O rei soltou uma risadinha e balançou a cabeça.
— Está claro que você se importa com meu filho. Caso contrário, não teria se dado a tanto trabalho.
Um sorriso pequeno surgiu antes que Janine conseguisse impedir.
Ela baixou os olhos, esperando que ele não tivesse notado.
As palavras dele não eram uma promessa. Ele não dissera que aprovava que ela perseguisse Giovan. Mesmo assim, ela vasculhou cada frase em busca de algo que pudesse usar.
Talvez a nomeação significasse mais do que servir a Crema.
Talvez o rei tivesse um motivo para mantê-la por perto.
Ela esperou que ele explicasse mais, tomando cuidado para não deixar a esperança transparecer na voz.
Da janela do quarto, Crema viu duas figuras no jardim.
O rei Dior estava perto do banco onde Janine se sentava.
Crema conseguia reconhecê-los, mas não podia ouvir a conversa. Viu Janine baixar a cabeça e, depois, erguer o olhar para ele de novo.
Estariam discutindo a nomeação? Janine teria reclamado dela?
Crema não tinha como saber.
Ainda assim, a cena a perturbou. A prima entrara no palácio, recebera a aprovação do rei e fora colocada ao lado dela apesar de tudo o que acontecera.
Agora conversavam em particular enquanto Crema permanecia no andar de cima, tentando entender o próprio lugar na família.
— Você não pode espionar daqui.
A voz de Giovan veio de trás dela.
Crema se virou. Ele tinha saído do banheiro.
— Algumas coisas são privadas — disse ele.
— Eu não consigo ouvir. Só vi pela janela.
Ele olhou por cima do ombro dela na direção do jardim.
Crema se afastou do vidro.
Ela não queria começar outra discussão, principalmente uma em que ele tratasse a preocupação dela como se fosse o problema. Mas ela não fizera nada além de olhar para fora.
— Eu não vou ficar olhando — disse.
Voltou para a cama.
O corpo dela parecia pesado, exausto do dia. Ela queria silêncio e queria dormir sem ter de adivinhar o que Giovan esperava dela.
Ele foi para o outro lado da cama.
— Vem pra debaixo da coberta comigo.
Crema olhou para ele.
Giovan levantou a beirada da coberta. Depois de um momento, ela se acomodou por baixo e puxou a coberta para cobrir os dois.
Ela esperou.
Talvez agora ele falasse sobre o escritório. Talvez explicasse por que Janine fora trazida para o cotidiano deles.
Mas ele não disse nada.
A respiração dele foi ficando mais lenta, aos poucos.
Crema ficou deitada, encarando o quarto escurecido.
Dividir uma coberta não respondia às perguntas dela. Não desfazia o que tinha visto naquela manhã nem o jeito como ele a tratara depois.
Ainda assim, havia alívio em poder descansar.
Ela fechou os olhos.
Crema acordou cedo.
Por um instante, escutou o quarto silencioso. Então se lembrou da reunião dos líderes naquela noite.
Giovan deveria levá-la ao Blossoms. Ela queria estar pronta, embora o rei tivesse dito que ela apenas deveria ouvir.
Ela se vestiu e desceu.
Os preparativos do café da manhã já estariam em andamento. Ajudar na cozinha lhe daria algo útil para fazer enquanto esperava o resto da casa acordar.
Ela também queria fazer alguma coisa para Giovan.
O desejo a constrangeu um pouco. Depois de tudo o que acontecera, ela ainda esperava que um pequeno gesto de cuidado pudesse levar a uma conversa normal entre os dois.
Do lado de fora do quarto, ela encontrou Janine.
A prima estava sorrindo.
Crema não sabia dizer se aquilo tinha alguma coisa a ver com a conversa no jardim. Decidiu não perguntar.
— Bom dia, senhora — disse Janine.
— Bom dia.
Crema continuou em direção às escadas.
Janine a seguiu.
Quando chegaram ao patamar, ela se aproximou o bastante para falar em voz baixa.
— Que comece o espetáculo.
Crema parou e olhou para ela.
Janine apenas sorriu.
— Que espetáculo?
— Não faça essa cara séria. É uma manhã nova.
Crema sustentou o olhar dela por um instante.
Ela não tinha motivo para tomar o comentário como inofensivo, mas não deixaria Janine arrastá-la para uma discussão antes do café da manhã.
Virou-se e continuou descendo.
Na cozinha, ofereceu-se para ajudar com a comida. Os criados lhe mostraram o que já estava preparado, e ela trabalhou ao lado deles sem pedir que mudassem a rotina.
Janine permaneceu por perto.
Toda vez que Crema olhava na direção dela, via a mesma expressão agradável.
Ela tentou se concentrar nos pratos à sua frente.
A reunião importava. Suas obrigações importavam. Ela não queria passar o dia inteiro estudando o rosto de Janine em busca de pistas.
Ainda assim, as palavras sussurradas não a deixavam.
Quando o café da manhã foi servido, Crema já tinha arrumado vários pratos e ajudado a levá-los para a sala de jantar.
Giovan chegou quando ela colocava um prato sobre a mesa.
— Bom dia — ele disse.
Sentou-se.
Crema se posicionou ao lado dele e ofereceu a comida que ajudara a preparar.
— Quer um pouco disso?
Ele assentiu.
Ela se serviu para ele, tomando cuidado para não encher demais o prato. Quando terminou, ele ergueu os olhos e lhe deu um sorriso breve.
O gesto a pegou desprevenida.
Por um momento, ela se sentiu satisfeita. Quisera fazer algo gentil, e ele reconhecera.
Então lembrou a si mesma o quanto um sorriso dizia pouco.
Não era um pedido de desculpas. Não explicava Janine. Não significava que o casamento deles tinha mudado da noite para o dia.
Mesmo assim, ela se pegou esperando que ele falasse com ela com a mesma naturalidade depois da refeição.
Ela se sentou e começou a comer.
Giovan terminou antes dela.
— Não se esqueça da reunião hoje à noite — disse ele, pegando as chaves. — Eu passo aqui para te buscar. Vamos ao Blossoms.
— Vou estar pronta.
Ele já estava se virando em direção à porta.
Crema o observou sair e então baixou os olhos para o prato.
Tinham conseguido trocar algumas palavras comuns. Aquilo não deveria ter parecido tanta coisa.
— Uau — disse Janine. — Se eu fosse você, teria vergonha.
Crema pousou o garfo.
A prima estava ali perto, olhando para a porta por onde Giovan acabara de passar.
— É assim que você trata sua Senhora? — perguntou Crema.
Janine se virou para ela.
— O quê?
— Você ouviu.
— Eu só estava dizendo—
— Que você teria vergonha.
Crema se levantou da cadeira.
Manteve a voz firme. Não precisava gritar para fazer Janine escutar.
— Você ficou aqui enquanto eu falava com meu marido e, assim que ele saiu, usou isso como motivo para me insultar.
A expressão de Janine mudou.
Crema já a tinha advertido em particular. Desta vez, não deixaria o comentário passar e passar o resto da manhã carregando aquilo.
— Você parece surpresa — disse Crema. — Por quê? Eu te disse ontem que seu comportamento precisava mudar.
Janine lançou um olhar para a porta.
Crema esperou até a prima olhar de volta para ela.
— O rei a nomeou para me auxiliar. Essa posição não lhe dá permissão para zombar de mim nem para interferir no meu casamento.
— Estou tentando ajudar.
— Então ajude com o trabalho que lhe foi dado.
Crema apoiou a mão no encosto da cadeira.
Seu casamento estava em crise. Janine sabia disso, e Crema não fingiria o contrário só para vencer aquela troca.
Mas esses problemas não davam à prima o direito de transformar toda conversa em mais uma humilhação.
— Você pode cumprir suas obrigações sem comentar cada palavra que Giovan me diz — continuou. — Pode falar com respeito sem fingir que esquecemos o que aconteceu.
Os lábios de Janine se entreabriram, mas Crema terminou antes que ela a interrompesse.
— Saiba o seu lugar nesta casa. Fique fora das minhas conversas particulares e me dê espaço quando eu pedir. Eu não quero outro insulto disfarçado de ajuda.
Ela encarou os olhos da prima.
— Entendeu?
