Capítulo 9: Afastado

A música continuava, mas Crema estava achando cada vez mais difícil acompanhar a conversa ao seu lado.

Ela tinha bebido só um pouco de vinho.

Ainda assim, havia algo errado.

A cabeça estava pesada, e ela não conseguia se firmar com conforto sobre as próprias pernas. Baixou a taça e a colocou numa mesa próxima.

Talvez precisasse de ar.

Procurou Giovan com o olhar. Queria dizer a ele que não estava se sentindo bem, embora não soubesse que reação receberia.

Então o viu se aproximar de Janine.

A prima vinha sorrindo para os homens ao redor. Quando Giovan chegou, ela se virou para ele na mesma hora.

Ele falou baixo demais para Crema ouvir.

Um instante depois, conduziu Janine para fora da recepção.

Crema os observou atravessarem o salão.

Depois do que acontecera no escritório dele, ela não conseguia simplesmente voltar à conversa e fingir que não tinha notado nada.

Ela os seguiu.

A música foi ficando distante quando ela entrou no corredor. Manteve uma das mãos perto da parede, tentando se equilibrar sem chamar atenção.

À frente, Giovan abriu a porta de uma suíte do hotel contígua à área da recepção. Aqueles quartos também eram usados para conversas privadas durante as reuniões.

Janine entrou com ele.

A porta voltou para o batente, mas não chegou a fechar por completo.

Crema parou do lado de fora.

Pela abertura estreita, viu Giovan empurrar Janine para trás, jogando-a na cama.

— Você vive flertando? — ele exigiu.

Janine ergueu o olhar para ele.

— Como assim? Você escolheu a Crema em vez de mim. Por que está com ciúme agora?

Crema ficou imóvel.

— Eu posso encontrar meu próprio companheiro — Janine continuou. — Talvez ele também seja da realeza.

— Você quer me substituir?

Giovan se inclinou e a beijou com brutalidade.

Crema recuou da porta.

Por um momento, não conseguiu se afastar mais. Tinha seguido porque queria uma resposta. O que viu a deixou com mais dor — e sem palavras que conseguisse suportar dizer.

Ela tinha servido o café da manhã para ele naquela manhã. Tinha tomado o sorriso dele como um pequeno motivo para ter esperança.

Agora ele exigia saber se Janine queria outro homem.

Crema se virou e apressou o passo pelo corredor.

Não voltou para a recepção.


Lá fora, o ar mais fresco tocou seu rosto.

Crema parou tempo suficiente para respirar, então foi até o estacionamento. As chaves estavam na bolsa.

Entrou no carro e fechou a porta.

O silêncio a envolveu, mas não impediu que a cena na suíte voltasse.

Ela pousou as mãos no volante.

A cabeça ainda parecia estranha. Esperou até conseguir focar na estrada antes de sair dirigindo, embora não soubesse o que tinha causado aquela sensação.

Queria distância do hotel.

Queria um lugar onde pudesse parar de fingir que estava bem.

Quando chegou à floresta, estacionou e saiu do carro.

Entre as árvores, mudou para a forma de loba e correu.

Os galhos passavam por ela. O chão subia sob suas patas, e ela continuou.

Se Giovan queria Janine, por que tinha se casado com ela?

O pai dele tinha ordenado o casamento. Crema sabia disso. Mas Giovan tinha dito os votos e depois a tratara como se ela o tivesse forçado a tudo aquilo.

Ele a tinha segurado em particular.

Ele a tinha advertido em público.

Agora ela o tinha visto com Janine de novo.

A aflição da loba pressionava a dela, até que mal conseguia separá-las.

Crema correu mais.

A mãe dela a avisara que o casamento nem sempre seria fácil. Haveria discordâncias, responsabilidades e momentos em que ela precisaria de paciência.

Crema achou que entendia.

Mas a paciência não fazia Giovan responder a ela. Não desviava a atenção dele de Janine, nem fazia com que ele se importasse com a dor que estava causando.

Um título real não oferecia conforto ali.

Não havia convidados para impressionar na floresta, nenhuma família observando seu rosto em busca da reação adequada.

Ela podia parar de fingir.

Mesmo assim, continuou correndo.

Ainda não estava pronta para voltar ao palácio e ouvir outra explicação que nunca explicava coisa nenhuma.


Giovan viu um movimento além da porta.

Então Crema desapareceu.

Ele se afastou de Janine.

Ver a esposa indo embora era o que ele pretendia. A vontade súbita de segui-la não era.

Ele queria que ela acreditasse que ele preferia Janine. Queria interferir no caminho que seu pai estava traçando para ele.

Ainda assim, não tinha dado a Crema nenhuma verdade que ela pudesse usar para entender suas escolhas.

Ele empurrou Janine para longe quando ela tentou tocá-lo de novo.

Ele não a queria na cama dele.

Ele queria vingança por sua mãe e queria persegui-la sem entregar cada decisão ao pai.

Mas Crema era quem acabara de pagar pela tentativa dele de resistir.

— O que você está fazendo? — exigiu Janine.

Ele se moveu em direção à porta.

— Giovan!

Ele parou, mas não voltou a encarar a cama.

— O que você está tentando fazer?

Ele não tinha uma resposta que estivesse disposto a dar a ela.

Saiu da suíte.


Janine ficou encarando a porta vazia.

Ele a tinha trazido até ali. Tinha acusado ela de flertar com outros homens e a beijado.

Então, com a mesma brusquidão, ele a rejeitara.

Ela se sentou na beira da cama, respirando com dificuldade.

Ela tinha interpretado a raiva dele como ciúme. Quis acreditar que ele não suportava a ideia de perdê-la.

Agora, não sabia no que acreditar.

A vontade de sair atrás dele veio de imediato. Ela queria uma explicação e queria que ele entendesse que não podia chamá-la para perto e dispensá-la quando bem entendesse.

Mas ela permaneceu sentada tempo suficiente para recuperar o controle.

Ela tinha uma missão.

As instruções de sua mãe importavam mais do que a humilhação que sentia naquele momento.

Ir embora com raiva não a ajudaria a cumpri-las.

Janine se levantou e alisou a roupa.

Seja lá o que Giovan estivesse fazendo, ela precisava ficar perto o bastante para descobrir mais.

Ela voltaria para a recepção.

Não deixaria que todos vissem, pela expressão dela, o que tinha acontecido.


Giovan procurou primeiro na recepção.

Crema não estava entre os convidados perto das mesas. Ele olhou para a área de dança e então conferiu o corredor por onde ela tinha saído.

Não havia sinal dela.

Ele voltou para a entrada e olhou para fora.

Talvez ela só quisesse tomar um ar.

Ele foi até a área de estacionamento, mas ela também não estava esperando ali.

Quanto mais ele procurava, mais difícil ficava se agarrar à ideia de que ela voltaria sozinha em alguns minutos.

Ele a tinha visto se virar e ir embora.

E não a tinha impedido.

Giovan chegou ao carro e pegou as chaves.

— Precisamos conversar.

O pai dele estava por perto.

— Agora não, pai.

Dior lançou um olhar para o carro.

— Então eu vou com você.

Antes que Giovan pudesse sequer começar a dirigir, o rei abriu a porta do passageiro e entrou.

Giovan ficou ao lado da própria porta por um instante.

— Pai, este não é o momento.

— Entre.

Giovan se sentou ao volante, mas não ligou o carro.

— Se você tem algo a dizer, diga amanhã. Eu preciso encontrar Crema.

— Você se esqueceu da sua missão?

A mão dele se fechou com mais força em torno das chaves.

— Eu não me esqueci.

— Então por que está abandonando a recepção?

Giovan se virou para ele.

— Nós queremos a mesma coisa. Eu quero justiça para a mamãe. Mas eu disse que faria do meu jeito.

Dior o observou.

— Eu não vou fazer tudo do seu jeito — continuou Giovan.

Dizer aquilo em voz alta não tornava as escolhas dele mais fáceis de defender. Crema estava sumida do evento, e ele não podia fingir que isso não tinha nada a ver com ele.

O pai se recostou.

— E o que exatamente você pretende fazer?

Giovan olhou para a entrada, na esperança de ver a esposa sair.

Ela não saiu.

As palavras seguintes de Dior trouxeram a atenção dele de volta.

— Você nem consegue ser um bom marido. Você deixou sua esposa ver você levar outra mulher para um quarto.

Giovan o encarou.

O rei sustentou o olhar.

— Você está cumprindo sua missão ou está só flertando?

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