Capítulo 4 004

EMILY

Não fui atrás do Ryan ontem à noite.

Não gritei o nome dele nem corri descalça pela entrada da garagem como numa cena dramática de filme, em que o arrependimento chega bem a tempo. Eu só fiquei deitada na nossa cama, com os olhos bem abertos, encarando o ventilador de teto girando inutilmente acima de mim, seu zumbido suave incapaz de abafar o barulho na minha cabeça.

Meu peito estava apertado, como se alguém tivesse passado uma faixa ao redor das minhas costelas e continuasse puxando, mais e mais, até que cada respiração parecesse conquistada a duras penas.

Então eu ouvi.

O ronco baixo do motor do carro dele ganhando vida.

O estalo dos pneus no cascalho enquanto ele dava marcha à ré para sair da garagem.

E, por fim, o som sumindo ao longe até não restar nada além do silêncio.

A casa parecia oca sem ele, como se algo essencial tivesse sido arrancado e levado junto no caminho. Não era só o fato de ele ter ido embora — parecia que uma parte de mim também tinha partido.

Eu pressionei a palma da mão contra a boca para não soluçar alto demais, com medo de que as próprias paredes me julgassem.

O cansaço por fim me arrastou para o sono em algum momento das primeiras horas da manhã, não de forma gentil, mas como um corpo desistindo de uma luta que já não conseguia vencer.

Quando acordei, a primeira coisa que fiz foi estender a mão para o outro lado da cama.

Frio.

Intocado.

Ryan não tinha voltado.

Meu coração afundou com tanta força que chegou a doer de verdade, como um peso pressionando meus pulmões. Por um instante, não consegui me mexer. Eu só fiquei ali, encarando o espaço ao meu lado, o lugar onde ele deveria estar, onde ele sempre estava. Aquele lado da cama já tinha se moldado à ausência dele.

No ensino médio, ele era o garoto que me fazia rir até doer a barriga. Aquele que sabia me distrair quando eu começava a afundar, que segurava minha mão como se fosse algo frágil e digno de proteção.

Como foi que a gente passou disso para isso?

Para eu ficar deitada sozinha na nossa cama, encarando o teto, me perguntando se o nosso casamento já tinha acabado.

O despertador tocou estridente, me arrancando das lembranças. Eu bati no botão de soneca — uma vez, duas — antes de me obrigar a sentar. Meu corpo parecia pesado, como se o luto tivesse peso e tivesse se instalado nos meus ossos durante a noite.

A viagem até o trabalho pareceu interminável. O trânsito estava leve, mas minha mente estava lotada de “e se”, cada um mais cortante que o anterior.

E se eu tivesse dito não ao Fred desde o começo?

E se eu tivesse lutado mais pelo Ryan em vez de fugir dos problemas que deveríamos ter enfrentado juntos?

Quando estacionei no prédio do escritório, minhas mãos estavam tremendo. Desliguei o motor, mas fiquei sentada, segurando o volante como se ele pudesse me manter no lugar. Eu não queria entrar.

Mas se esconder não era uma opção.

Fui pela escada em vez do elevador, na esperança de que a subida pudesse clarear minha cabeça ou, pelo menos, me cansar o suficiente para anestesiar a dor. Não adiantou. Quando cheguei ao meu andar, minhas pernas ardiam, mas meus pensamentos ainda eram uma tempestade, barulhenta e implacável.

Carla estava do lado de fora da porta do meu escritório, com a prancheta na mão e aquele sorriso animado demais que ela sempre usava, como se nada no mundo jamais a abalasse.

— Oi, Carla — eu disse, forçando minha voz a soar normal, embora tenha saído fina e trêmula.

Ela ergueu os olhos. — Bom dia, senhora. A senhora tem uma reunião cedo?

Balancei a cabeça. — Não. O que tem na agenda?

— Nada urgente — disse ela, folheando as anotações. — Mas o sr. Lang quer falar com a senhora assim que a senhora chegar.

Assenti. — Tá bom. Obrigada.

Quando me virei para ir, eu ouvi — um muxoxo baixo atrás de mim. Parei e me virei de volta.

— Você tem alguma coisa a dizer, Carla?

As bochechas dela coraram na hora. — Não, senhora. Nada.

A desconfiança se enrolou no meu estômago. Havia algo me incomodando desde cedo, uma pergunta que eu não queria fazer porque eu já sabia a resposta.

— Como o Ryan soube que eu estava no escritório do Fred ontem à noite?

O rosto dela empalideceu, depois ficou vermelho. “Eu não fiz nada de errado.”

“O que você contou pro meu marido?”

Ela hesitou, os olhos fugindo para qualquer lugar que não fosse o meu. “Ele perguntou onde você estava. Eu disse que você ainda estava trabalhando até tarde com o sr. Lang.”

As palavras me atingiram como um tapa.

“Você disse pra ele que eu estava com o Fred?” Minha voz tremia. “Você tem ideia do que isso começou?”

“Era a verdade”, ela retrucou, defensiva agora. “Se tem algum problema, talvez não seja com o que eu disse.”

Eu encarei Carla, atônita com a ousadia. “Se eu descobrir que você falou qualquer coisa além disso”, eu disse, baixinho, “a gente vai ter um problema de verdade.”

Ela não respondeu. Só apertou os lábios e desviou o olhar.

Eu me virei e marchei em direção ao escritório do Fred, com o coração batendo tão forte que eu conseguia ouvir nos ouvidos.

A porta estava entreaberta. Empurrei e entrei sem bater.

Fred se levantou na hora, um sorrisinho se abrindo no rosto, como se nada tivesse mudado. Como se a noite passada não tivesse escancarado minha vida de vez.

“Oi, bebê”, ele disse, macio. “Eu estava te esperando.”

Forcei um sorriso que não chegou aos olhos. “Esse capítulo está encerrado, Fred.”

A testa dele franziu um pouco antes de ele soltar um risinho de desprezo. “Por quê? Porque seu marido apareceu?” Ele deu de ombros. “A gente pode ser mais discreto. Mais esperto.”

“Não”, eu disse, com a voz mais firme do que eu esperava. “Porque eu nunca devia ter começado isso. Eu amo o Ryan. Sempre amei. Mas eu estraguei tudo. Eu caí nas suas investidas em vez de conversar com o meu marido. Eu devia ter trabalhado no meu casamento, não nisso… seja lá o que isso é.”

Minha voz falhou, e as lágrimas vieram de novo. Fred deu um passo para mais perto, abrindo os braços como um reflexo.

“Emily, vem aqui”, ele disse com suavidade. “Deixa eu te abraçar. Eu posso fazer isso ficar melhor.”

Eu recuei depressa, erguendo as mãos. “Não, Fred. Não encosta em mim. Isso tem que acabar.”

A frustração atravessou o rosto dele. “Por que você está acabando com essa coisa linda que a gente tem por causa de um amor do ensino médio? O Ryan é seu passado. Eu sou seu agora.”

Eu soltei uma risada curta, enxugando as lágrimas. “Esse ‘amor do ensino médio’ é meu marido, Fred. O homem que eu jurei amar pra sempre. O que me conhece melhor do que qualquer pessoa.”

Ele devolveu com o mesmo desprezo. “Repetir isso mil vezes não vai apagar o que você fez. Você traiu, Emily. Nós dois. Engole e segue em frente. A gente faz um ao outro feliz.”

“Uau.” A palavra escapou como um soco. “É só isso que isso significa pra você? Algo pra engolir? Eu achei que você se importava.”

Por um segundo, ele pareceu surpreso. Então a expressão endureceu. “Eu me importo. Por isso eu estou lutando por nós. Não joga isso fora por culpa.”

“Eu não estou jogando nada fora”, eu disse, elevando a voz. “Eu estou encerrando. Tudo. Eu estou pedindo demissão, Fred. Desse emprego. Desse caso. De tudo.”

A boca dele se abriu. “Você só pode estar brincando. Você não pode pedir demissão assim.”

“Eu não estou brincando”, eu disse, surpresa com a calma que me invadiu. “Desculpa não dar aviso prévio de duas semanas, mas eu não consigo mais fazer isso. Eu não consigo te ver todo dia e fingir.”

Eu me virei para sair, mas Fred agarrou meu braço, me puxando de volta. “Emily, espera. Pensa bem. A gente tem algo especial.”

“Solta de mim”, eu disse com firmeza, empurrando-o para longe. “Me vê saindo por aquela porta.”

Eu não esperei resposta. Saí correndo do escritório dele, com o coração batendo tão forte que parecia que ia explodir. Carla se levantou quando eu passei pela mesa dela, mas eu não diminui o passo. Eu não aguentava perguntas, nem pena, nem julgamento. Empurrei as portas de saída, e o ar frio acertou meu rosto como uma boia de salvação.

No carro, soltei um suspiro trêmulo e peguei o celular com as mãos tremendo.

Oi, Morgan, você está em casa?

A resposta veio quase na hora.

Sim, gata.

Eu larguei o celular no banco ao lado e dirigi até a casa dela, sem saber o que vinha a seguir — só sabendo que eu não conseguia enfrentar isso sozinha.

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