Capítulo 1 🧸 A ligação que estragou meu dia

POV Scarlett

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O problema de ser uma mulher bem-sucedida era que todos presumiam que eu também sabia resolver qualquer coisa.

Uma negociação milionária? Eu resolvia.

Uma crise com um fornecedor? Eu resolvia.

Um funcionário ameaçando pedir demissão por que não recebeu o bônus na data esperada? Eu resolvia.

Mas encontrar um homem disposto a fingir que me amava durante um casamento na França? Aquilo, definitivamente, não estava na minha lista de competências.

— Senhora Durand, o relatório do projeto de Lyon está pronto.

Levantei os olhos do notebook.

Meu assistente, Theo, estava parado diante da minha mesa com uma pasta azul nas mãos e a expressão cuidadosa de quem sabia que eu não gostava de ser interrompida durante uma reunião. Principalmente, quando a reunião era comigo mesma.

— Deixe aí — pedi, apontando para o canto da mesa — Eu reviso antes do almoço.

— A senhora tem uma videoconferência às onze.

— Cancele.

Theo piscou.

— Com os investidores?

— Principalmente com os investidores.

— Eles estão vindo de Londres.

— Então terão uma boa oportunidade de conhecer o fuso horário brasileiro.

Ele segurou um sorriso.

— Vou verificar se é possível remarcar.

— Não verifique. Remarque.

— Sim, senhora.

Theo deixou a pasta sobre a mesa e saiu.

Voltei a encarar a planilha aberta na tela. Os números eram claros. O projeto estava dentro do orçamento, os prazos haviam sido antecipados e o retorno previsto superava todas as expectativas iniciais. Era exatamente o tipo de problema que eu gostava de resolver.

Números não julgavam meu corpo. Contratos não perguntavam por que eu ainda estava solteira. Gráficos não comparavam minha aparência com a de uma modelo internacional. Mas pessoas faziam isso.

Meu celular vibrou ao lado do notebook, então olhei para a tela.

Gabrielle Valente... Ele não era apenas meu padrinho. Era a única pessoa da minha família que realmente se lembrava de perguntar como eu estava sem esperar que eu respondesse “ótima” por educação.

Ele era um dos fundadores da famosa Vittorio & Valente, a V&V, uma casa de alta-costura italiana que havia transformado o luxo mediterrâneo em uma assinatura mundial. A outra fundadora era Celeste Vittorio. A mulher com quem Gabrielle se casaria dali a três semanas.

— Padrinho? — atendi.

— Minha querida Scarlett! Finalmente consegui falar com você.

A voz dele veio acompanhada de um ruído de vento e, ao fundo, alguma música instrumental.

— Ando meio ocupada com o trabalho. Como estão os preparativos do casório?

— Caóticos. Lindos. Caríssimos. Exatamente como Celeste deseja.

— Então estão perfeitos.

Gabrielle riu.

— É por isso que gosto de conversar com você. Nunca tenta me convencer de que uma mulher prestes a se casar pode ser razoável.

— Eu jamais cometeria esse erro.

Houve então uma breve pausa.

— Scarlett, preciso confirmar sua presença.

Endireitei-me na cadeira.

— No casamento?

— Sim. Você vem, não vem?

Olhei para a janela do meu escritório.

Do outro lado do vidro, São Paulo se estendia em uma mistura de prédios, trânsito e céu acinzentado. A cidade parecia sempre ocupada demais para perceber quando alguém estava prestes a desmoronar.

— Eu ainda não comprei a passagem.

— Então compre.

— Padrinho…

— O casamento será daqui a três semanas. Você precisa estar aqui pelo menos dois dias antes. Celeste quer organizar um jantar íntimo para os convidados mais próximos.

Jantar íntimo.

Aquelas duas palavras foram suficientes para meu estômago se contrair. Jantares íntimos da família Durand nunca eram íntimos de verdade. Eram eventos cuidadosamente planejados para que todos pudessem observar todos. Quem emagreceu. Quem engordou. Quem estava namorando. Quem havia sido promovido. Quem comprou uma casa. Quem continuava solteira. Quem ainda não parecia ter encontrado seu lugar no mundo.

— Eu vou — respondi, antes que pudesse pensar melhor.

— Excelente! Sabia que não me abandonaria.

A culpa atingiu meu peito. Ele sempre havia sido gentil comigo durante toda a vida. O meu problema era o restante da minha família.

— Vou confirmar tudo com a minha assistente — menti.

— E você virá acompanhada?

— Acompanhada? — repeti — Eu não preciso de um homem para ir a um casamento, padrinho.

— Scarlett, você sabe como são esses eventos. Sua mãe comentou que talvez Margot viesse com aquele empresário italiano…

Claro.

Margot Durand, minha irmã mais nova, podia aparecer com um astro de cinema, um príncipe ou um bilionário recém-divorciado e ninguém questionaria. Minha mãe, Vivienne, provavelmente a apresentaria como a mulher mais desejada da noite. Meu pai, Romero, falaria sobre sua carreira internacional, suas campanhas e as capas de revista que estampavam seu rosto.

Já eu precisava explicar até porque estava indo sozinha ao supermercado.

— Está bem, vou ver se o rapaz que estou saindo quer ir comigo — menti novamente.

— Então você tem alguém, querida?

A frase parecia inocente.

— Não é nada sério, padrinho.

Ele riu.

— Celeste também não era nada sério e agora eu estou gastando parte da minha fortuna para realizar os desejos de noiva dela.

Ri sem muito humor.

— Ficarei esperando vocês então.

Gabrielle parecia satisfeito com a minha mentira. Conversamos por mais alguns minutos sobre o casamento dele, o castelo alugado para a cerimônia e o vestido que Celeste havia escolhido. Depois, desligamos.

O silêncio que ficou no escritório pareceu muito maior do que antes. Pousei o celular sobre a mesa e encarei meu reflexo escuro na janela.

Eu estava usando um macacão de alfaiataria preto de corte impecável, salto médio e brincos discretos. Meu cabelo castanho estava preso em um coque elegante. A maquiagem era leve, mas suficiente para esconder as olheiras da noite anterior.

Eu estava bonita.

Sabia disso.

Eu não precisava que ninguém me dissesse. Mas também sabia que, diante da minha família, beleza nunca seria o bastante.

Margot com certeza chegaria usando um vestido de grife que provavelmente custaria mais do que o carro de muitas pessoas. Minha mãe a elogiaria até ficar sem adjetivos. Meu pai comentaria sobre sua carreira, seus contratos internacionais e sua aparência perfeita.

E então alguém olharia para mim. Talvez perguntasse sobre meu trabalho. Talvez dissesse que eu estava “com uma aparência saudável”. Talvez sugerisse, com um sorriso falso, que eu deveria aproveitar a viagem para cuidar mais de mim.

Eu conhecia aquele roteiro. Conhecia cada fala. Cada olhar. Cada risada disfarçada.

Apertei os dedos sobre a mesa.

Não. Dessa vez, não.

Eu não iria atravessar o oceano para ser a filha solteira e inconveniente sentada no canto da fotografia familiar. Não iria permitir que Vivienne me comparasse com Margot durante uma semana inteira. E, principalmente, não daria a ninguém a satisfação de perceber que eu estava sozinha.

Peguei o celular novamente e abri o navegador. Fiquei alguns segundos olhando para a barra de pesquisa. A ideia era absurda, totalmente ridícula, praticamente humilhante. Mas também era a primeira ideia que não envolvia cancelar a viagem. Então digitei devagar:

Como contratar um namorado de aluguel para casamento?

Meu dedo pairou sobre a tecla de busca. Respirei fundo, então pressionei. E, naquele instante, sem imaginar as consequências, comecei a procurar o homem que mudaria minha vida.

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