Capítulo 3 🧸 O homem perfeito demais
POV Scarlett
💍🧸💍
A resposta mais sensata seria: Não.
Eu deveria fechar o site e fingir que aquela ideia nunca havia passado pela minha cabeça. Mas a sensatez nunca tinha sido muito útil quando o assunto era minha família, então digitei:
“Sim.”
A resposta chegou imediatamente.
“Perfeito. Enviaremos um link seguro para a entrevista.”
Um segundo depois, meu notebook exibiu uma notificação. Cliquei e a tela mudou para uma página de chamada de vídeo. No centro, havia o logotipo discreto da Liaison Privée e uma contagem regressiva de dez segundos.
Meu estômago começou a se contorcer.
Era apenas uma chamada. Eu já havia participado de reuniões com investidores muito mais intimidantes. Ainda assim, nunca tinha precisado explicar a um desconhecido por que queria contratá-lo para fingir que era meu namorado.
A câmera foi ativada.
Uma mulher apareceu primeiro. Ela devia ter pouco mais de quarenta anos, usava um blazer bege e os cabelos presos em um penteado impecável.
— Senhora Durand?
— Sim.
— Meu nome é Amélie. Sou responsável pela seleção e acompanhamento dos nossos clientes. Antes de apresentarmos o profissional, preciso confirmar algumas informações.
— Claro.
— A contratação é para um casamento na França. A senhora deseja apenas companhia social ou espera demonstrações públicas de afeto?
A pergunta parecia simples. Ainda assim, senti meu rosto aquecer.
— Demonstrações públicas de afeto — respondi — Mas nada além do que for combinado.
Amélie assentiu, sem demonstrar surpresa.
— Naturalmente. O contrato será bastante específico. O profissional não terá acesso às suas informações privadas além do necessário para o serviço. A senhora deseja que ele conheça sua família e saiba detalhes sobre sua vida?
— O suficiente para não parecer um estranho.
Amélie fez algumas anotações.
— Há alguma característica indispensável?
— Preciso de alguém que saiba conversar. Que não pareça estar lendo um roteiro. Minha família percebe qualquer coisa que pareça falsa.
— Sua família é difícil?
Soltei uma risada sem humor.
— Muito.
Amélie sorriu de leve.
— Nesse caso, boa conversa para vocês.
A tela então mudou.
Por alguns segundos, vi apenas uma sala iluminada por uma janela. Então, Adrian Laurent entrou no enquadramento. Ele estava sem terno. Usava uma camisa azul-escura, aberta no primeiro botão, e tinha os cabelos ligeiramente desalinhados. Parecia mais jovem do que na fotografia, mas também mais perigoso.
Talvez fosse o olhar. Olhos claros, atentos, que pareciam observar muito mais do que eu mostrava.
— Madame Durand — ele cumprimentou.
A voz era grave e tranquila. Em francês, o som parecia ainda mais elegante.
— Scarlett — corrigi em português — Pode me chamar de Scarlett.
— Scarlett, então.
Ele pronunciou meu nome devagar, como se experimentasse cada sílaba. Meu corpo reagiu de uma maneira absolutamente inconveniente.
— Adrian.
— Eu sei.
Muito bem, Scarlett... Você era uma empresária brilhante. Uma mulher adulta. Uma pessoa capaz de negociar contratos internacionais. E estava nervosa porque um homem bonito disse seu nome.
Adrian inclinou-se ligeiramente para a frente.
— Amélie me explicou o motivo da contratação. Você irá a um casamento na França e precisa de alguém ao seu lado.
— Preciso de um namorado ao meu lado.
— Por três semanas?
— Aproximadamente — confirmei.
— E sua família não sabe que será um contrato?
— Não.
— Eles acreditam que você está em um relacionamento real?
— Ainda não acreditam em nada. É justamente por isso que preciso de você.
Uma sombra de sorriso apareceu em sua boca.
— Entendi.
— Não quero que pareça uma encenação.
— Então não vamos encenar.
Franzi a testa.
— Como assim?
— Vamos estabelecer uma história. Uma rotina. Pequenos detalhes. A maneira como nos conhecemos, o que você gosta, o que eu gosto, como nos tratamos. Quanto mais natural for a interação, menos precisaremos fingir.
A resposta me surpreendeu.
— Você faz isso com frequência? Ser namorado de aluguel?
— Acompanhante romântico para eventos.
— É uma maneira elegante de dizer — comentei, tentando não observar demais o rosto dele.
— Nosso trabalho exige elegância.
Era irritante o quanto Adrian parecia confortável.
Eu estava sentada no meu escritório, com uma planilha financeira aberta atrás da janela da chamada, tentando não demonstrar que aquele homem tinha uma presença capaz de preencher o ambiente inteiro.
— Posso fazer algumas perguntas? — ele perguntou.
— Claro.
— Por que você não quer ir sozinha?
A pergunta me pegou desprevenida.
— Isso faz parte da entrevista?
— Faz parte de entender o que você espera de mim.
— Minha família é complicada.
— Todas são.
— A minha é especialmente complicada.
— Como?
Respirei fundo.
Eu não conhecia aquele homem. Não precisava contar nada além do necessário.
— Meus pais são muito críticos. Minha irmã mais nova é modelo internacional. Eles acham que ela é perfeita.
Adrian não desviou os olhos.
— E você não?
— Eu sou diferente.
— Isso não respondeu à pergunta.
— Não, não sou perfeita.
— Ninguém é.
— Você não conhece minha família.
— Não preciso conhecer para saber disso.
A simplicidade da resposta me desconcertou. Ele não tentou me consolar. Não disse que eu era linda, embora provavelmente soubesse que era isso que a maioria dos homens dizia quando percebia meu desconforto.
— O que você espera de mim, Scarlett? — ele perguntou.
Olhei para minhas próprias mãos.
— Quero que você seja gentil comigo.
— Isso é fácil.
— Quero que saiba conversar com pessoas ricas e arrogantes.
— Também é fácil.
— Quero que não tenha vergonha de estar ao meu lado.
O silêncio que veio depois foi diferente. Adrian então apoiou o braço na mesa.
— Eu jamais teria vergonha de estar ao lado de uma mulher por causa do corpo dela.
— Você fala isso para todas as clientes? — perguntei, tentando disfarçar o impacto.
— Não.
— Por quê?
— Porque nem todas perguntam.
A sinceridade dele me deixou sem resposta.
— E você? O que posso esperar de você? — Adrian perguntou se recostando na cadeira.
— Profissionalismo.
— Só?
— O que mais deveria esperar?
— Que não tente me controlar.
— Eu não controlo pessoas.
Ele ergueu uma sobrancelha.
— Você cancelou uma reunião com investidores porque estava ocupada comigo.
— Eu ainda nem tinha falado com você. Pera... Como você sabe disso?
— Mesmo assim, parece uma mulher acostumada a conseguir o que quer — ele disse ignorando minha pergunta.
— Eu consigo porque trabalho para isso.
— Eu não duvido.
Havia provocação em sua voz.
— Você sempre é tão convencido?
— Apenas quando estou certo.
— E costuma estar?
— Com frequência.
Não consegui evitar o sorriso e Adrian percebeu. Seus olhos desceram brevemente até minha boca. Foi rápido. Quase imperceptível, mas eu vi.
— Vou enviar o contrato preliminar — ele disse — Leia com calma. Se concordar, marcamos uma entrevista presencial.
— Presencial?
— Não contrato uma relação de três semanas sem conhecer a pessoa pessoalmente.
— Você acabou de me conhecer.
— Não. Acabei de conversar com você por alguns minutos.
— E qual é a diferença?
Adrian sorriu pela primeira vez.
— A diferença, Scarlett, é que agora eu fiquei curioso para descobrir.
