Capítulo 4 🧸 Uma proposta inesperada

POV Adrian

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— Você está sorrindo.

A voz de Élodie me alcançou antes que eu pudesse esconder a expressão.

Eu me encontrava sentado no banco do motorista do meu Bugatti La Voiture Noire, esperando minha irmã sair do jantar de negócios ao qual eu tinha pedido a ela para ir em meu lugar enquanto eu estava com uma cliente.

— Não estou — retruquei erguendo os olhos do celular.

Minha irmã entrou no carro ao meu lado e fechou a porta.

— Está, sim. Um sorriso pequeno, quase imperceptível. O tipo de sorriso que você dá quando alguma coisa desperta o seu interesse.

— Você anda me observando demais.

— Alguém precisa fazer isso. Você passa a maior parte do tempo fingindo que não sente nada.

Guardei o celular no bolso do paletó.

— Como foi a reunião?

— Bem cansativa. E você mudou de assunto.

Élodie cruzou os braços e me encarou enquanto eu ligava o carro. Ela era uma das poucas pessoas no mundo que não se intimidava comigo. Talvez porque me conhecesse desde antes de eu aprender a esconder qualquer emoção atrás de uma expressão fria.

— E como foi com a sua Sugar Mommy? — Élodie perguntou, zombando.

Ri.

— Ela é só uma cliente. E foi como sempre. Quase me associam à “realeza” Laurent, mas eu tenho uma lábia muito boa para desviar o foco disso.

Élodie soltou uma risada.

— E você estava sorrindo porque quando eu cheguei?

Suspirei. Ela não ia deixar isso passar. Mas a verdade era que eu ainda pensava em Scarlett Durand. Na voz dela. Na maneira como tentava transformar insegurança em firmeza. Na irritação que surgiu quando mencionei sua família. E, principalmente, na forma como ela disse:

“Quero que não tenha vergonha de estar ao meu lado.”

A frase continuava ecoando em minha cabeça. Não porque fosse incomum. Muitas clientes contratavam acompanhantes para evitar constrangimentos sociais. Algumas queriam provocar antigos parceiros. Outras desejavam mostrar aos parentes que haviam seguido em frente. Mas Scarlett parecia querer apenas se proteger.

— Hoje mais cedo conheci uma possível cliente — falei parando o carro no semáforo — E estou considerando uma entrevista presencial.

— O que a torna tão interessante, irmão?

— Ela não sabe quem eu sou.

Élodie ficou em silêncio por um instante depois, sorriu.

— Ah... entendi. Você gosta quando não sabem que você é rico.

— Gosto quando as pessoas não mudam de comportamento por causa disso.

— E acredita que ela não mudaria.

Não respondi seguindo o caminho quando o sinal abriu. O carro passou diante do hotel onde eu havia, quase uma hora antes, encerrado um trabalho.

A senhora Beatrice Montclair, uma cliente de 68 anos, havia me contratado para acompanhá-la a uma recepção beneficente. Ela não precisava de romance. Precisava de alguém educado, discreto e capaz de afastar os homens inconvenientes que insistiam em tratá-la como uma viúva solitária.

Beatrice era inteligente, rica e perfeitamente consciente do próprio poder. A noite correu bem. Conversamos, dançamos uma vez e passamos boa parte do evento observando os convidados se comportarem como se cada gesto pudesse ser transformado em notícia. No fim, Beatrice apertou meu braço.

— Você precisa tomar cuidado, Adrian.

— Com o quê?

— Com mulheres que fazem você esquecer que está trabalhando.

— Isso nunca aconteceu.

Ela me lançou um olhar divertido.

— Ainda.

Agora eu entendia por que aquela frase havia ficado comigo.

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Assim que chegamos à mansão dos meus pais, num bairro abastado de Paris, meu celular vibrou. Era uma mensagem da agência.

“A cliente Scarlett Durand confirmou interesse na entrevista presencial. Ela está disponível amanhã, às quinze horas.”

Li duas vezes.

— Você vai encontrá-la? — Élodie perguntou, espiando a tela.

— Amanhã.

— Então você aceitou.

— Aceitei conversar.

— É assim que começa.

— O quê?

— Algo que você não vai conseguir controlar.

Virei o rosto para ela, a encarando.

— Eu controlo tudo o que preciso controlar.

Élodie suspirou.

— Essa é exatamente a frase de um homem prestes a perder o controle.

Não respondi. Porque, pela primeira vez em muito tempo, eu não tinha certeza de que minha irmã estava errada ou não.

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Na manhã seguinte, já de volta ao Brasil, estava fazendo meu almoço em meu apartamento quando meu telefone tocou. A voz do meu pai veio seca, como sempre.

— Você recebeu os documentos da aquisição?

— Bom dia, Henri. E sim, recebi.

— Analisou?

— Ainda não.

— Adrian.

— Vou analisar depois do almoço.

— Não basta analisar. Preciso de uma decisão. Victor está pressionando o conselho. Ele acredita que você está distraído.

Quase sorri.

— Victor acredita que qualquer pessoa que não concorde com ele está distraída.

— Não o subestime.

— Eu não subestimo ninguém.

— Então prove.

A ligação terminou sem despedida.

Meu pai era assim. Henri Laurent havia construído um império empresarial com disciplina, silêncio e uma incapacidade quase absoluta de demonstrar afeto. Eu aprendera cedo que, naquela família, amor era uma palavra utilizada em ocasiões públicas e substituída por resultados em privado.

Talvez por isso eu tivesse escolhido trabalhar como acompanhante romântico.

Era estranho, mas havia mais honestidade em um contrato temporário do que em muitos relacionamentos da minha vida. Na agência, ninguém fingia que aquilo era amor. As regras eram claras. Os limites eram negociados. E, quando o contrato terminava, cada pessoa seguia seu caminho.

Era simples. Seguro. Controlável.

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Pouco antes do horário, cheguei ao restaurante escolhido para a entrevista. Era um lugar discreto, sofisticado e silencioso o suficiente para permitir uma conversa sem interrupções. Escolhi uma mesa próxima à janela. Não usei terno. Apenas uma camisa branca, calça escura e um relógio discreto. Eu não queria intimidar Scarlett. Também não queria que ela pensasse que precisava impressioná-la.

Pedi café e consultei o relógio.

Às quinze horas em ponto, Scarlett entrou. Ela usava um conjunto de alfaiataria verde-escuro, elegante e perfeitamente ajustado ao corpo. Os cabelos estavam soltos sobre os ombros. Caminhava com segurança, embora seus olhos percorressem o restaurante como se procurassem uma rota de fuga.

Quando me viu, parou por um segundo. Depois, respirou fundo e veio até a mesa. Levantei-me.

— Scarlett.

— Adrian.

A voz dela estava mais firme do que na chamada. Puxei a cadeira para que ela se sentasse.

— Obrigada.

— Eu que agradeço por ter vindo.

Ela se acomodou, mantendo a bolsa sobre o colo como uma espécie de escudo. Observei o gesto, mas não comentei.

— Antes de começarmos, quero que saiba que você pode desistir a qualquer momento.

Scarlett ergueu os olhos.

— Mesmo depois de assinar?

— Especialmente depois de assinar. Um contrato não obriga ninguém a ultrapassar os próprios limites.

A tensão em seus ombros diminuiu um pouco.

— E se eu quiser continuar?

Inclinei-me ligeiramente para a frente.

— Então vamos descobrir se conseguimos fazer isso funcionar.

Scarlett sustentou meu olhar. Pela primeira vez, sorriu sem nervosismo. E eu soube que aquela entrevista seria muito mais complicada do que deveria.

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